Astronomia

Hidrogênio 75%, hélio 25% em massa: como os primeiros minutos do universo fixaram essa receita

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Estrelas

Cerca de 25% da massa da matéria comum do universo é hélio-4 e quase todo o resto é hidrogênio. A proporção foi fixada nos primeiros minutos: quando o universo esfriou o bastante para os núcleos sobreviverem, havia cerca de 1 nêutron para cada 7 prótons, e quase todos os nêutrons acabaram no hélio-4. Em número de átomos, são cerca de 8 de hélio para cada 100 de hidrogênio.

Os 75% e 25% são frações da massa da matéria comum (bariônica); em número de átomos, o hélio é só cerca de 8% do hidrogênio, porque cada átomo de hélio-4 pesa cerca de quatro vezes mais. No plasma quente e denso dos primeiros instantes, prótons e nêutrons se convertiam uns nos outros por interações fracas, e a razão entre eles seguia a temperatura. Quando a expansão ficou mais rápida que essas reações (a cerca de 1 MeV, unidade de energia usada como medida de temperatura, aos cerca de 1 s), a razão congelou e passou a cair só pelo decaimento dos nêutrons. Até a temperatura cair a cerca de 0,1 MeV, fótons destruíam o deutério assim que ele se formava; depois, as reações andaram rápido e, por volta de 180 s, as abundâncias ficaram praticamente fixadas.

A conta cabe em uma linha

Com 1 nêutron para 7 prótons e todos os nêutrons indo para o hélio-4, a fração de massa é 2 × (1/7) ÷ (1 + 1/7) = 2/8 = 0,25. É uma estimativa nossa por contagem: os códigos completos, que usam as reações nucleares, dão valores próximos de 0,247.

Como sabemos: deutério em nuvens contra quasares

O deutério (hidrogênio com um nêutron) quase só nasceu na nucleossíntese primordial e as estrelas o destroem, então o gás menos processado fica mais perto do valor original. Cooke e colegas usaram a luz de quasares distantes que atravessa nuvens de gás com quase nenhum metal: as linhas do deutério ficam deslocadas das do hidrogênio e permitem contar os dois. Sete sistemas deram D/H de cerca de 2,5 por 100 mil, com precisão de 1%. O que limita o método são nuvens com movimentos complexos, que borram as linhas.

A radiação cósmica de fundo fecha o teste

Na nucleossíntese padrão o único parâmetro livre é a razão entre bárions e fótons. O Planck mede a densidade de bárions pela radiação cósmica de fundo, sem usar as abundâncias. Com esse valor, a teoria deixa de ter parâmetro livre e prevê o hélio e o deutério. A comparação com as observações é um teste entre duas épocas muito distantes: os primeiros minutos e cerca de 370 mil anos depois. Hélio e deutério passam; o lítio, não.

O problema do lítio

A previsão de lítio-7 fica cerca de três vezes acima do que se mede em estrelas antigas do halo, e a diferença subiu para mais de 5 desvios-padrão em atualizações de 2013. As saídas propostas são taxas nucleares ainda mal medidas, destruição do lítio dentro das estrelas ou física nova durante a nucleossíntese. As buscas nucleares fecharam os casos mais promissores e a depleção estelar pede ajuste fino. É uma questão em aberto, e o lítio terá post próprio.

Os limites do que se sabe

Medidas de hélio de grupos diferentes não concordam entre si (0,2449 contra 0,2551 em fração de massa) e o Planck chamou a diferença de urgente. A taxa teórica recente da reação d(p,γ)3He diverge da extrapolada de experimentos, e o experimento LUNA deve esclarecer. A revisão do Particle Data Group que lemos é de 2013, e não conferimos edições posteriores. Antes dos primeiros segundos, a teoria não se apoia em relíquias observadas.

Como sabemos

Números e mecanismo vêm de duas revisões e de dois artigos lidos, com trechos literais; a revisão do Particle Data Group lida é de 2013 e o lítio segue sem solução, então o estado atual pode ter mudado.

Em debate: As medidas de hélio diferem entre grupos (f4 registra tensão de 3,6 a 3,8 σ entre a previsão e um dos resultados), e o lítio-7 previsto é cerca de três vezes o medido nas estrelas antigas sem solução aceita (f1, f2).

Fontes

  1. Reviews of Modern Physics 88, 015004 (versão arXiv:1505.01076) — Big Bang Nucleosynthesis: 2015
    Cyburt, R. H.; Fields, B. D.; Olive, K. A.; Yeh, T.-H. · 2016 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1103/RevModPhys.88.015004
  2. Particle Data Group, Chinese Physics C 38, 090001 (versão arXiv:1412.1408) — Big-Bang nucleosynthesis (Review of Particle Physics, revisado em outubro de 2013)
    Fields, B. D.; Molaro, P.; Sarkar, S. · 2014 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  3. The Astrophysical Journal (versão arXiv:1710.11129v3) — One percent determination of the primordial deuterium abundance
    Cooke, R. J.; Pettini, M.; Steidel, C. C. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  4. Astronomy & Astrophysics 641, A6 (versão arXiv:1807.06209v4) — Planck 2018 results. VI. Cosmological parameters
    Planck Collaboration (Aghanim, N. et al.) · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1051/0004-6361/201833910
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 16; conferência de trechos automatizada)

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