Zoologia

Noronha: lagarto, anfisbena e ave exclusivos do arquipélago e as marcas do isolamento no lagarto

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Fernando de Noronha, topo de um edifício vulcânico oceânico a cerca de 345 km da costa do Rio Grande do Norte, abriga espécies que não existem em outro lugar: o lagarto Trachylepis atlantica, a anfisbena Amphisbaena ridleyi e a ave Elaenia ridleyana. O lagarto descende de um gênero de origem africana e, segundo estimativa, chegou por dispersão sobre o oceano há no máximo 12 milhões de anos; hoje bota só dois ovos grandes por ninhada.

Endemismo é a ocorrência de uma espécie numa área restrita e em nenhum outro lugar. Noronha é pequeno: uma ilha principal e vários ilhéus, topo de um edifício vulcânico que assenta no fundo do oceano, a cerca de 4.000 m de profundidade. As rochas da ilha principal se formaram em dois episódios, um de cerca de 8 a 12 milhões de anos atrás e outro de cerca de 1 a 3 milhões. Quem vive ali descende de colonizadores que atravessaram o mar, inferência que decorre da origem oceânica do arquipélago. Com poucas espécies, poucos predadores e poucos competidores, populações isoladas tendem a mudar de hábitos e de reprodução, conjunto que se chama síndrome de ilha.

Uma ave sem parentes na ilha

A cocoruta é a única espécie de elênia da ilha e a única de toda a família dos tiranídeos que vive ali. Sem parentes próximos por perto, a identificação em campo é simples, mas a população estimada é de menos de mil aves.

Os exclusivos: um lagarto, uma anfisbena e uma ave

O lagarto T. atlantica (mabuia) é endêmico e é a dispersão mais a oeste de seu gênero no Atlântico. A anfisbena A. ridleyi, réptil escavador sem patas, também é endêmica. A cocoruta, E. ridleyana, está restrita à ilha principal e a um ilhéu e é considerada Vulnerável. O vireo-de-noronha é uma das três aves terrestres nativas do território e se distingue do vireo continental por cor, cauda e bico.

O que o isolamento deixou no lagarto

O estudo de 2026 testa a síndrome de ilha: em ilhas, a reprodução tende a ser mais lenta, com ninhadas menores e filhotes maiores. O resultado confere: o lagarto se reproduz por cerca de sete meses na estação seca, bota tipicamente dois ovos, os maiores do gênero em relação ao corpo, e as fêmeas se reproduzem pelo menos a cada dois anos. Os autores ligam isso à pouca predação, mas apontam também a sazonalidade de recursos.

Como sabemos, e os limites

Os autores dissecaram 67 lagartos e examinaram gônadas ao microscópio, ao longo das estações, com animais de vida livre, de museu e de zoológico. Depois, compararam os números com dados publicados de outras espécies do gênero. Essa comparação é descritiva e depende de dados de qualidade desigual. A data de chegada do lagarto vem de estimativas anteriores de divergência, com incerteza. A posição da anfisbena entre os parentes sul-americanos foi indicada em 2010 com dados moleculares ainda não publicados.

Os de fora e as ameaças

O teiú, maior lagarto nativo da América do Sul, foi levado de propósito à ilha principal no início do século XX e hoje é tratado como espécie invasora. Para o lagarto endêmico, os próprios autores apontam que ninhadas pequenas e reprodução espaçada podem reduzir a resiliência diante de predadores invasores e de mudança ambiental. A erradicação de ratos num ilhéu é tratada em outro post, que mede o efeito sobre aves marinhas e sobre a mabuia.

Como sabemos

Fatos centrais conferidos em texto integral (lagarto, geologia, anfisbena, teiú) ou na introdução aberta das fichas de aves; a data de chegada do lagarto é estimativa e há pendências.

Fontes

  1. Scientific Reports — Reproductive strategies of the most geographically isolated Trachylepis support predictions of the island syndrome
    Migliore, S. N. et al. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-026-44759-z
  2. Brazilian Journal of Geology — Geochemistry of the alkaline volcanic-subvolcanic rocks of the Fernando de Noronha Archipelago, southern Atlantic Ocean
    Lopes, R. P.; Ulbrich, M. N. C. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  3. Cornell Lab of Ornithology, Birds of the World — Noronha Elaenia (Elaenia ridleyana), version 1.0
    Hosner, P. · 2020 · Livro ou obra de referência · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.2173/bow.norela1.01
  4. Cornell Lab of Ornithology, Birds of the World — Noronha Vireo (Vireo gracilirostris), introdução
    Birds of the World · 2020 · Livro ou obra de referência · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.2173/bow.norvir1.01
  5. Genetics and Molecular Biology — Karyological study of Amphisbaena ridleyi (Squamata, Amphisbaenidae), an endemic species of the Archipelago of Fernando de Noronha, Pernambuco, Brazil
    Laguna, M. M. et al. · 2010 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1590/s1415-47572010005000009
  6. Microorganisms — Salmonella enterica in Invasive Lizard from Fernando de Noronha Archipelago: Serotyping, Antimicrobial Resistance and Molecular Epidemiology
    Abrahão, C. R. et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/microorganisms8122017
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 13; conferência de trechos automatizada)

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