Paleontologia

Ninhos de titanossauros no Brasil: o que ovos e cascas fósseis dizem sobre a reprodução dos gigantes

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Ponte Alta, em Uberaba (MG), a cerca de 8 km de Peirópolis, abriga o primeiro sítio de ninhos de titanossauros confirmado no Brasil, descrito em 2022: ninhadas em ao menos dois níveis, com cascas de 1,1 mm. Os ovos não têm embrião; a atribuição vem da estrutura da casca. Na Argentina, cascas de Sanagasta chegam a 7,9 mm, e um modelo de 2018 sugere que elas afinavam durante a incubação.

Titanossauros eram sauropodes, os dinossauros herbívoros de pescoço longo, e viveram em todos os continentes no Cretáceo. Um ovo fóssil quase nunca guarda o animal; por isso a atribuição vem da forma do ovo e, sobretudo, da casca vista em lâmina fina ao microscópio. A casca de titanossauro tem uma só camada de calcita (carbonato de cálcio), feita de unidades em leque, e é atravessada por poros por onde passava o ar do embrião. Ninhada é o conjunto de ovos postos juntos. Ponte Alta fica na Formação Serra da Galga, do Maastrichtiano, último andar do Cretáceo, a leste do sítio clássico de Peirópolis.

Poros em duplo funil

Algumas cascas de Ponte Alta têm poros largos em duplo funil, com estreitamento no meio, diferentes dos poros ramificados em Y de Auca Mahuevo e Tama. Os autores ligam isso a um ambiente árido; a função é hipótese.

O que foi achado em Ponte Alta

Os ovos vieram de uma pedreira de calcário abandonada, num solo fóssil entre duas camadas de calcrete (crosta de carbonato). A melhor ninhada tem dez ovos em ao menos duas fileiras sobrepostas, e há ovos em pelo menos dois níveis, o que os autores leem como sinal de que as fêmeas voltavam ao local. Os ovos completos medem cerca de 12 cm de diâmetro, e a casca tem 1,1 mm, mais fina que a de outros sítios.

Como sabemos que são ovos de titanossauro

Nenhum ovo tem embrião, nem na preparação mecânica nem na tomografia. A atribuição é comparativa: forma e tamanho dos ovos, unidades da casca em leque e rede de poros coincidem com ovos que têm embriões de titanossauros em outros países. Ajuda o fato de, no Grupo Bauru, só restos de colossossauros terem sido achados. É inferência bem apoiada, não identificação direta, e a espécie segue indeterminada.

Casca fina, casca grossa: o caso de Sanagasta

Em Sanagasta, a casca chega a 7,9 mm, contra 1,35 a 2,0 mm na maioria dos sítios. Uma simulação por elementos finitos, que calcula a força para romper a casca por dentro, estimou resistência de 14 a 45 vezes maior. Os autores propõem que fluidos ácidos do ambiente desgastaram a casca durante a incubação até menos de cerca de 2 mm. O modelo usa dados de aves atuais; é hipótese, não medição.

O que a Índia acrescenta, e os limites

Em Dhar, na Índia, um estudo de 2023 documentou 92 ninhadas e 256 ovos, em seis oo-espécies, classificação que vale só para ovos. A literatura lê ninhadas próximas como colônias e tem como inexistente o cuidado parental em saurópodes. São leituras de comportamento feitas a partir de pedra: plausíveis, mas dependem de pressupostos que ninguém observou.

Como sabemos

Os fatos do sítio e do modelo vêm de artigos abertos com trechos conferidos; a atribuição a titanossauros e o afinamento da casca são inferências dos autores.

Fontes

  1. Scientific Reports (Springer Nature) — First titanosaur dinosaur nesting site from the Late Cretaceous of Brazil
    Fiorelli, L. E.; Martinelli, A. G.; da Silva, J. I.; Hechenleitner, E. M.; Soares, M. V. T.; et al. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41598-022-09125-9
  2. PeerJ — Biomechanical evidence suggests extensive eggshell thinning during incubation in the Sanagasta titanosaur dinosaurs
    Hechenleitner, E. M.; Taborda, J. R. A.; Fiorelli, L. E.; Grellet-Tinner, G.; Nuñez-Campero, S. R. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.7717/peerj.4971
  3. PLOS ONE — New Late Cretaceous titanosaur sauropod dinosaur egg clutches from lower Narmada valley, India: Palaeobiology and taphonomy
    Dhiman, H.; Verma, V.; et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0278242
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 19; conferência de trechos automatizada)

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