Linguística

O chimpanzé Nim Chimpsky criou frases? A reanálise de 1979 que revelou imitação onde parecia haver sintaxe

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Comunicação animal

Em 1979, Terrace e colegas analisaram mais de 19 mil enunciados de vários sinais do chimpanzé Nim e acharam regularidades que lembravam sintaxe. Os vídeos mostraram, porém, que a maioria dos enunciados de Nim vinha logo depois de um sinal da professora e que ele a interrompia muito mais do que uma criança interrompe um adulto. Sem o registro em vídeo, imitação parecia gramática.

Sintaxe é o conjunto de regras que organiza palavras em frases, de modo que a ordem e as relações entre elas mudem o sentido: “o cachorro mordeu o homem” não diz o mesmo que “o homem mordeu o cachorro”. Nos anos 1970, projetos ensinaram sinais da língua de sinais americana (ASL) e símbolos artificiais a chimpanzés, e alguns autores propuseram que as sequências obedeciam a regras gramaticais. Nim Chimpsky, nascido em 21 de novembro de 1973, foi criado desde as duas semanas de vida em ambiente doméstico, por pais substitutos e professores que sinalizavam em ASL. A pergunta do projeto era se as sequências de sinais de Nim seguiam uma gramática ou eram apenas sinais soltos, cada um adequado à situação. Um enunciado é o que ele sinalizou de uma só vez; corpus é o conjunto de enunciados registrados.

Olhar sempre para as mãos de Nim

Terrace contou depois que, ao rever um vídeo já visto pelo menos uma dúzia de vezes, notou que as professoras sinalizavam o que Nim sinalizava, só um quarto de segundo antes. Segundo ele, sua atenção ficava presa às mãos de Nim.

O que parecia sintaxe

O corpus de Nim tinha mais de 19 mil enunciados de vários sinais, e em combinações de dois sinais alguns deles tendiam a ocupar uma posição fixa, como “more”. Os autores avaliaram que essas regularidades não se explicavam por memorização nem por hábitos de posição, e Nim nunca foi obrigado a combinar sinais. Visto só pelo corpus, isso lembrava regra de ordem: uma criança, ao aprender a falar, também coloca palavras em posições previsíveis. Foi essa leitura que o vídeo desfez.

O que o vídeo mudou

O corpus era de enunciados de Nim, sem o que a professora tinha dito antes. Nos vídeos, a maior parte dos enunciados de Nim vinha logo depois de um sinal da professora, e ele a interrompia muito mais do que uma criança interrompe um adulto. As expansões, em que o enunciado repete sinais do adulto e acrescenta sinais novos, somavam em média 7,3%. Isso não prova que cada sinal de Nim era cópia, mas deixa a imitação como explicação mais simples do que a sintaxe.

E Washoe e os outros macacos?

Os relatos do projeto Washoe, segundo Terrace e colegas, não registravam a ordem dos sinais, o que impedia testar se havia regra. Em filmes de Washoe, Ally e Koko, os autores relataram dependência semelhante da fala da professora; o exemplo de “time eat”, em que ambos os sinais acabavam de ser feitos pela professora, mostra o tipo de leitura que só um registro em vídeo permite. A amostra de filmes, porém, era pequena e editada.

Depois de Nim: o que ficou em aberto

O artigo de 1979 trata da produção de sinais e não encerra a pergunta sobre compreensão. Para Kanzi, um bonobo testado com comandos em inglês falado, a reanálise de 2022 conclui que o desempenho em 20 duplas de frases reversíveis excede o acaso, mas isso foi contestado antes por Wynne, e Schoenemann reconhece que a prova de aspectos como a ordem das palavras não equivale a gramática humana completa. O que a lição de Nim deixou foi o método: registrar o contexto de cada sinal em vídeo.

Como sabemos

O artigo de 1979 foi lido por inteiro, mas as colunas do PDF dificultam a cópia de alguns números; o debate sobre Kanzi vem de uma só reanálise.

Em debate: A reanálise de Schoenemann (2022) conclui que o desempenho de Kanzi em frases reversíveis excede o acaso; Wynne criticou a correção do estudo original como excessivamente generosa. As fontes lidas não resolvem o debate.

Fontes

  1. Science, vol. 206, n. 4421, p. 891–902 (cópia do PDF hospedada pela Universidade Columbia) — Can an ape create a sentence?
    Terrace, H. S.; Petitto, L. A.; Sanders, R. J.; Bever, T. G. · 1979-11-23 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/science.504995
  2. Frontiers in Psychology (Indiana University) — Evidence of Grammatical Knowledge in Apes: An Analysis of Kanzi’s Performance on Reversible Sentences
    Schoenemann, P. T. · 2022-07-21 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3389/fpsyg.2022.885605
  3. Columbia University (autor); cópia em página de disciplina da Appalachian State University — Project Nim – The Untold Story (rascunho de texto de resposta)
    Terrace, H. · s.d. · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  4. PubMed (Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA) — Can an ape create a sentence? (registro e resumo no PubMed)
    Terrace, H. S.; Petitto, L. A.; Sanders, R. J.; Bever, T. G. · 1979-11-23 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/science.504995
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 17; conferência de trechos automatizada)

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