Astronomia

Como o NICER mede o raio de uma estrela de nêutrons: entre cerca de 10 e 14 km, conforme o pulsar e o modelo

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Estrelas

O NICER, telescópio de raios X na Estação Espacial Internacional, estima o raio de um pulsar modelando como o brilho de pontos quentes da superfície varia a cada volta: a gravidade curva a luz e deixa no perfil de pulso uma marca da compacidade da estrela. Os resultados vão de cerca de 10 a 14 km. O primeiro, de 2019, deu cerca de 13 km; reanálises e outros pulsares deram valores diferentes.

Uma estrela de nêutrons tem raio de poucas dezenas de quilômetros e não pode ser vista como um disco: o que chega à Terra é luz. Em pulsares de milissegundo, regiões da superfície são aquecidas perto dos polos magnéticos e, como a estrela gira, o brilho de raios X sobe e desce a cada volta. A forma dessa variação, o perfil de pulso, depende de quão forte é a gravidade na superfície, que curva a trajetória da luz. Compacidade é a razão entre a massa e o raio da estrela (GM/Rc², definição padrão). Ajustando modelos ao perfil de pulso, os astrônomos obtêm raio e massa, e cada par de valores restringe a equação de estado, a relação entre pressão e densidade da matéria do interior. A visão geral da estrela de nêutrons, os pulsares como relógios, os magnetares e o pulsar de Hulse e Taylor têm posts próprios; aqui o foco é o método do NICER e os raios medidos.

Um cálculo que pediu supercomputador

Ajustar o modelo ao perfil de pulso do PSR J0030+0451 é estatística pesada: a análise de Riley e colegas (2019) usou uma concessão de 500.000 horas de núcleo de processador no supercomputador holandês Cartesius.

O que o perfil de pulso guarda

O NICER registra fótons de raios X moles e os dobra pela fase de rotação do pulsar, cuja rotação é conhecida com precisão por rádio. O resultado é o perfil de pulso: contagens por fase de rotação e por energia. A luz de um ponto quente chega ao telescópio por um espaço-tempo curvo, que desvia os raios, e a estrela gira rápido, o que acrescenta realce Doppler e aberração. A forma do perfil carrega a compacidade; o efeito da rotação ajuda a separar raio e massa.

Como sabemos: ajustar um modelo, não fotografar a estrela

Ninguém vê o disco da estrela. Os pesquisadores simulam, para cada valor de massa, raio e geometria de pontos quentes, o perfil que o NICER registraria e comparam com os dados por inferência bayesiana. O resultado é uma distribuição de probabilidade, e o intervalo de 68% é só o que o modelo escolhido permite concluir. Daí o limite: se a forma dos pontos quentes estiver mal descrita, o raio pode ficar enviesado, e é isso que a reanálise do J0030 mostra.

Do raio à matéria ultradensa

Cada equação de estado, isto é, cada hipótese sobre como a matéria responde à compressão no núcleo, prevê uma curva de massa contra raio. Um raio medido numa massa conhecida seleciona as curvas compatíveis. Raios de pulsares de 1,4 e de 2 massas solares sondam densidades diferentes. Os resultados até aqui excluem equações muito moles, mas não dizem de que é feito o núcleo: nucleons, híperons ou quarks seguem possibilidades discutidas na literatura.

Por que os números não coincidem

Os raios publicados dependem do pulsar (J0030, J0740, J0614), dos dados acumulados e do modelo dos pontos quentes. O primeiro resultado de J0030 foi cerca de 13 km; a reanálise com modelos mais complexos dá de 11,7 a 14,4 km, conforme o modelo. O J0740 foi de 13,7 e 12,39 km em 2021 e 12,49 km em 2024; o J0614 deu 10,29 km. Com mais exposição e fundo melhor estimado, a incerteza deve cair, mas o intervalo ainda é de alguns quilômetros.

Como sabemos

O método e os números principais vêm de artigos das próprias equipes do NICER; o raio do J0030 mudou entre análises e a medição mais recente é pré-publicação.

Em debate:

Fontes

  1. arXiv (artigo submetido ao The Astrophysical Journal Letters) — A NICER View of PSR J0030+0451: Millisecond Pulsar Parameter Estimation
    Riley, T. E. et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  2. arXiv (artigo submetido ao The Astrophysical Journal Letters) — PSR J0030+0451 Mass and Radius from NICER Data and Implications for the Properties of Neutron Star Matter
    Miller, M. C. et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  3. arXiv (artigo submetido ao The Astrophysical Journal Letters) — The Radius of PSR J0740+6620 from NICER and XMM-Newton Data
    Miller, M. C. et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  4. arXiv (artigo revisto, versão 2 de outubro de 2024) — The Radius of the High-mass Pulsar PSR J0740+6620 with 3.6 yr of NICER Data
    Salmi, T. et al. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  5. arXiv (pré-publicação, agosto de 2023) — An updated mass-radius analysis of the 2017-2018 NICER data set of PSR J0030+0451
    Vinciguerra, S. et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  6. arXiv (pré-publicação, versão 2 de dezembro de 2025) — A NICER view of the 1.4 Msun edge-on pulsar PSR J0614-3329
    Mauviard, L. et al. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 14; conferência de trechos automatizada)

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