Genética
Neandertais deixaram DNA em quem vive hoje: de 1% a 4% do genoma de europeus e asiáticos
Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 05/10/2026
Pessoas de ascendência europeia ou asiática carregam de 1% a 4% do genoma herdado de neandertais. A conclusão veio da primeira sequência do genoma neandertal, publicada em 2010 pela equipe de Svante Pääbo, que mostrou que os neandertais compartilham mais variantes genéticas com populações da Eurásia do que com as da África ao sul do Saara. O cruzamento ocorreu depois que o Homo sapiens saiu da África, há cerca de 70 mil anos, e os dois grupos conviveram por milênios.
Em 1997, Pääbo conseguiu sequenciar um trecho do DNA mitocondrial de um osso de neandertal de cerca de 40 mil anos e mostrou que a espécie era geneticamente distinta da nossa. Em 2010, saiu o genoma nuclear, com mais de 4 bilhões de nucleotídeos de três indivíduos, e uma estimativa de que o ancestral comum com o Homo sapiens viveu há cerca de 800 mil anos. Em 2014, um genoma de alta qualidade, de uma mulher neandertal da Sibéria, mostrou que seus pais eram parentes no nível de meios-irmãos e que houve vários episódios de mistura entre neandertais, denisovanos e humanos modernos. Hoje se sabe que o DNA neandertal está espalhado pelo genoma de pessoas vivas: um estudo com 665 genomas recuperou cerca de 20% do genoma neandertal em pedaços. Pääbo recebeu o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2022 por esse trabalho.
Herança que ainda atua
Parte do que herdamos ainda tem efeito. Genes neandertais influenciam a resposta imunológica a infecções, segundo o comitê do Nobel, e outros estão ligados a características da pele. Já nos tibetanos, a versão do gene EPAS1 que favorece a vida em altitude veio de um parente dos neandertais, os denisovanos.
Um desafio considerado impossível
Depois da morte, o DNA se degrada e sobra pouco, misturado ao de bactérias e, nas amostras manuseadas, ao de pessoas atuais. Por isso, Pääbo começou pelo DNA mitocondrial, que é pequeno mas existe em milhares de cópias por célula. Em 1997, obteve um trecho de um osso de neandertal de cerca de 40 mil anos. Ele mostrou que os neandertais formavam uma linhagem distinta dos humanos modernos e dos chimpanzés.
O genoma de 2010 e o sinal da mistura
O rascunho do genoma neandertal, com mais de 4 bilhões de nucleotídeos de três indivíduos, foi comparado ao de cinco pessoas de diferentes regiões do mundo. O resultado: os neandertais eram geneticamente mais próximos de europeus e asiáticos que de africanos subsaarianos. A explicação mais simples é que houve cruzamento depois da saída da África, antes de os grupos eurasianos se separarem entre si.
Denisova e outras misturas
Em 2008 foi achado um osso de dedo de cerca de 40 mil anos na caverna de Denisova, na Sibéria. Seu DNA não coincidia com o de neandertais nem com o de humanos atuais, e revelou os denisovanos. O genoma de alta qualidade de uma neandertal siberiana, em 2014, mostrou vários episódios de mistura entre neandertais, denisovanos e humanos modernos, todos de pequena magnitude.
O que sobrou no nosso DNA
Vernot e Akey somaram os genomas de 379 europeus e 286 asiáticos do leste e recuperaram cerca de um quinto do genoma neandertal em fragmentos. As análises sugerem que muitos trechos foram eliminados pela seleção, indicando custos para a hibridização, e que outros trouxeram variantes úteis, como as de genes ligados à pele. Quanto cada trecho ainda faz no organismo é objeto de pesquisa.
Como sabemos
O fluxo gênico dos neandertais para humanos modernos é bem estabelecido por genomas publicados e pelo comitê do Nobel; os percentuais exatos são estimativas que variam.
Em debate: A proporção exata de DNA neandertal em pessoas atuais varia entre estudos (cerca de 1% a 4%) e entre populações. Estudos recentes também discutem se houve mistura com humanos modernos antes e depois da separação dos grupos não africanos, e se grupos arcaicos também se misturaram com humanos na própria África; nenhum genoma arcaico africano foi sequenciado, porque o DNA se degrada rápido em climas tropicais.
- Estimativa: Em pessoas de ascendência europeia ou asiática, cerca de 1% a 4% do genoma vem dos neandertais. [1] [4]
O comitê do Nobel dá 1% a 4%; o estudo de Vernot e Akey (2014) cita cerca de 1% a 3%. O valor varia por método e por população. - Evidência forte: Os neandertais compartilham mais variantes genéticas com humanos atuais da Eurásia do que com os da África subsaariana, o que indica fluxo gênico dos neandertais para os ancestrais dos não africanos, antes da divergência entre os grupos eurasianos. [2]
- Fato estabelecido: O rascunho do genoma neandertal publicado em 2010 reúne mais de 4 bilhões de nucleotídeos de três indivíduos. [2]
- Fato estabelecido: Em 1997, Pääbo sequenciou um trecho de DNA mitocondrial de um osso de cerca de 40 mil anos e mostrou que os neandertais eram geneticamente distintos dos humanos modernos e dos chimpanzés. [1]
- Estimativa: O ancestral comum mais recente de neandertais e Homo sapiens viveu há cerca de 800 mil anos. [1]
Estimativa derivada da comparação dos genomas, citada pelo comitê do Nobel. - Estimativa: A transferência de genes de neandertais e denisovanos para o Homo sapiens ocorreu depois da saída da África, há cerca de 70 mil anos, e as espécies conviveram por dezenas de milhares de anos na Eurásia. [1]
O número de 70 mil anos para a saída da África é aproximado e varia conforme o estudo. - Fato estabelecido: Um osso de dedo de cerca de 40 mil anos descoberto em 2008 na caverna de Denisova, na Sibéria, tinha DNA de um hominíneo desconhecido, os denisovanos, e houve fluxo gênico deles para o Homo sapiens. [1]
- Estimativa: Em populações da Melanésia e do Sudeste Asiático, as pessoas carregam até cerca de 6% de DNA denisovano. [1]
Percentual máximo citado pelo comitê do Nobel; varia entre indivíduos e populações. - Fato estabelecido: O genoma de alta qualidade de uma mulher neandertal da Sibéria mostrou que seus pais eram parentes no nível de meios-irmãos. [3]
- Evidência forte: Houve vários episódios de fluxo gênico entre neandertais, denisovanos e humanos modernos, possivelmente incluindo fluxo de um grupo arcaico desconhecido para os denisovanos; a mistura foi de pequena magnitude. [3]
- Fato estabelecido: Um estudo com 379 genomas europeus e 286 do leste asiático recuperou mais de 15 gigabases de sequência neandertal, cobrindo cerca de 20% do genoma neandertal. [4]
- Interpretação: As análises sugerem custos de aptidão para a hibridização, e os neandertais foram fonte de variação adaptativa em genes ligados à pele. [4]
Inferência estatística dos autores sobre a seleção em genes de origem neandertal. - Evidência forte: Genes neandertais influenciam a resposta imunológica a diferentes infecções em pessoas de hoje. [1]
- Evidência forte: A versão denisovana do gene EPAS1, que favorece a sobrevivência em altitude, é comum entre os tibetanos atuais. [1]
- Fato estabelecido: Svante Pääbo recebeu o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2022 por descobertas sobre genomas de hominíneos extintos e a evolução humana. [1]
Fontes
- Assembleia Nobel do Karolinska Institutet — Press release: The Nobel Prize in Physiology or Medicine 2022
consultada em 04/10/2026 - Science — A draft sequence of the Neandertal genome
consultada em 04/10/2026 - Nature — The complete genome sequence of a Neanderthal from the Altai Mountains
consultada em 04/10/2026 - Science — Resurrecting surviving Neandertal lineages from modern human genomes
consultada em 04/10/2026
Histórico de alterações
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