Zoologia
Nariz branco dos morcegos: genomas apontam a Europa, e um morcego francês de 1918 já tinha o fungo
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Duas pistas apontam para a Europa como origem do fungo Pseudogymnoascus destructans. Em 2017, achou-se seu DNA num morcego coletado na França em 1918, décadas antes de a doença ser diagnosticada na América do Norte, em 2006. E o genoma dos isolados norte-americanos cabe dentro da diversidade europeia, não da asiática. A região exata da Europa segue desconhecida.
A síndrome do nariz branco (WNS, na sigla em inglês) é causada por um fungo que cresce na pele de morcegos durante a hibernação e forma um fio branco no focinho. Surgiu em 2006 no estado de Nova York e matou milhões de morcegos no leste da América do Norte. Descobrir de onde um micro-organismo veio exige duas coisas: achar vestígios antigos dele e comparar o DNA de muitos isolados, isto é, culturas obtidas de animais doentes. Uma população recém-chegada a um continente costuma ser menos diversa que a de origem, porque descende de poucos indivíduos. O raciocínio vale para esse fungo, que se reproduz quase só de forma clonal.
Um cotonete num morcego de museu
O fungo de 1918 foi achado esfregando cotonetes no focinho e nas asas de morcegos de museu, peles secas e corpos em álcool. Foram 138 exemplares do Smithsonian, processados num laboratório de DNA antigo para evitar contaminação.
Por que um morcego antigo pesa tanto
Genomas de hoje mostram parentesco, mas não dizem onde o fungo estava no passado. O exemplar de 1918 é uma observação direta: o fungo já estava na Europa mais de oito décadas antes de a doença ser diagnosticada nos Estados Unidos. Ele não mostra que o fungo veio de lá, só que existia lá. Junto com a árvore genômica, passa a ser um segundo tipo de evidência, e as duas apontam para o mesmo lado.
Como a árvore dos fungos foi montada
Os pesquisadores compararam 37.752 posições do genoma que variam entre isolados de P. destructans. A árvore tem três ramos: China, Mongólia e Europa. Os isolados norte-americanos ficam dentro do europeu, com diversidade menor que a europeia (índice de Simpson de 0,690 contra 0,800). A menor diversidade de uma população derivada é o padrão esperado para introdução recente.
Limites da conclusão
Há dois limites. O primeiro é a amostra: 5 isolados europeus e 3 asiáticos representam pouco do continente, e um estudo anterior com os mesmos isolados havia dado o inverso quanto à região de origem na Europa. O segundo é a data: a estimativa de cerca de 100 anos para a divergência é provisória. Por isso a fórmula mais segura é que os dados sustentam a Europa como origem, sem apontar o lugar.
Por que a Europa não vê mortandade em massa
O estudo de 2016 mostra que o fungo causa lesões nos morcegos europeus com carga semelhante à americana, sem queda de população relatada. Os autores falam em tolerância e equilíbrio entre hospedeiro e patógeno, mas não testaram o mecanismo. O que o estudo estabelece é o contraste: lesões e carga parecidas, mas sem a mortandade em massa vista na América do Norte, onde os morcegos não tinham contato prévio com o fungo.
Como sabemos
A origem europeia tem apoio de três linhas convergentes, mas a evidência vem de poucos isolados e de um único exemplar histórico; a região exata é desconhecida.
Em debate:
- Evidência forte: O DNA do fungo foi detectado em um exemplar de museu de Myotis bechsteinii coletado em 9 de maio de 1918 na Forêt de Russy, região Centre-Val de Loire, França. [1] Texto principal
Contexto: Exemplar USNM 231170 do Museu Nacional de História Natural do Smithsonian; entre 138 exemplares dos séculos XIX e XX examinados, é o único caso confirmado. · Limitações: Um só exemplar positivo. Duas outras amostras deram um resultado positivo isolado cada, sem replicação, e não contam. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A equipe examinou 138 exemplares de morcegos de museu (41 da América do Norte, 83 da Europa e 14 da Ásia oriental) coletados nos séculos XIX e XX. [1] Texto principal
Contexto: Coleção do Smithsonian; peles secas e corpos conservados em etanol a 70%, às vezes antes fixados em formol. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: O resultado do exemplar de 1918 foi replicado: uma segunda extração independente deu positivo em 4 de 5 PCRs, e duas sequências confirmadas por sequenciamento de Sanger foram 100% idênticas às de P. destructans norte-americano. [1] Texto principal
Contexto: PCR quantitativo específico da espécie, sobre um trecho de 103 pares de bases do espaço intergênico; a primeira extração deu positivo em 2 de 3 PCRs. · Limitações: O fragmento é curto; identidade num trecho de 103 pares de bases não equivale a genoma completo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Contaminação por fungo moderno é improvável, segundo os autores: os exemplares recentes ficam guardados em outra sala, longe do acervo histórico, e nenhum exemplar histórico norte-americano, mais exposto a esse risco, deu positivo. [1] Texto principal
Contexto: Extrações num laboratório dedicado a DNA antigo, com um branco de extração a cada 10-11 amostras e controles sem molde em cada PCR. · Limitações: Argumento de plausibilidade; não exclui contaminação por completo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Nenhum dos exemplares de morcegos do leste da América do Norte coletados entre 1861 e 1971 deu positivo para o fungo, mas os autores avisam que falsos negativos são muito prováveis em material tão antigo. [1] Texto principal
Contexto: Resultado negativo em exemplares de museu do leste norte-americano. · Limitações: Ausência de sinal em material antigo não prova ausência do fungo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A síndrome do nariz branco emergiu em 2006 entre morcegos em hibernação no norte do estado de Nova York, e milhões de morcegos morreram por causa da doença. [2] Introduction
Contexto: Leste dos Estados Unidos e Canadá; o fungo colonizou quase todos os abrigos de hibernação pesquisados nos 10 anos anteriores a 2017. · Limitações: O número de mortes é uma ordem de grandeza (milhões), não uma contagem. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Os isolados norte-americanos quase não diferem entre si: nos 26 genomas do estudo de 2017, só 51 posições variáveis são compartilhadas por todos, e apenas três delas separam grupos de isolados. [2] Results, SNP phylogeny
Contexto: Isolados coletados de 2008 a 2014 em toda a zona do surto; SNP é uma posição do genoma que varia entre indivíduos. · Limitações: Com 23 marcadores de microssatélites (mais variáveis), os mesmos autores acharam 31 genótipos entre 96 isolados norte-americanos, ainda sem relação com a geografia. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Na árvore genealógica dos isolados, os norte-americanos formam um ramo dentro do grupo europeu e ficam distantes dos isolados da Ásia oriental e central. [2] Results, SNP phylogeny
Contexto: Genomas de 26 isolados norte-americanos, 5 europeus e 3 asiáticos (China e Mongólia); a árvore tem 37.752 posições variáveis centrais. · Limitações: Só 3 isolados asiáticos e 5 europeus; a Ásia está pouco amostrada. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Os autores concluem que seus dados sustentam a origem europeia, e não asiática, da invasão norte-americana, embora a fonte definitiva não tenha sido identificada. [2] Abstract
Contexto: Estudo de 2017 com microssatélites e SNPs de genoma completo. · Limitações: A diversidade europeia dos isolados disponíveis era limitada; outros estudos sugerem cautela quanto à Ásia (ver a11). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Incerto: Dentro da Europa, a região de origem não foi resolvida: poucas amostras, ramos longos e suporte estatístico fraco impedem concluir qual parte do continente deu origem ao fungo norte-americano. [2] Results, SNP phylogeny
Contexto: O isolado norte-americano de referência ficou mais próximo de um isolado da Ucrânia e mais distante de um da França; um estudo anterior, com os mesmos isolados, mostrou o inverso. · Limitações: Questão em aberto; depende de mais isolados europeus. · Os próprios autores recusam apontar um país de origem. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Um estudo de 2016 com 481 morcegos da República Tcheca, Eslovênia, Letônia e Rússia achou lesões típicas da doença em 13 espécies, com carga de fungo semelhante à de morcegos norte-americanos, mas sem declínio de populações atribuído à doença. [3] Results
Contexto: Morcegos de hibernáculos da Europa e da planície da Sibéria Ocidental, amostrados de 2012 a 2014; Paleártico é o conjunto Europa mais Ásia setentrional, Neártico é a América do Norte. · Limitações: A comparação de carga fúngica entre continentes usa métodos de coleta diferentes; os autores consideram uma diferença de até dez vezes e o resultado se mantém. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Os autores leem o quadro europeu como infecção tolerada e fungo endêmico, com um equilíbrio entre hospedeiro e patógeno já estabelecido; o fungo continua sendo virulento para morcegos europeus em condições naturais. [3] Discussion
Contexto: Interpretação de Zukal e colegas (2016) para a diferença entre Europa e América do Norte. · Limitações: O estudo mede prevalência, carga e lesões; não testa por que a Europa tolera e a América do Norte não. · Mecanismo da tolerância (por exemplo, coevolução de longa data) não foi demonstrado no estudo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Marcadores de poucos genes não bastam para apontar a origem: o haplótipo dominante norte-americano também ocorre em morcegos da Ásia, o que, em 2016, ampliava a região candidata para além da Europa. [3] Discussion
Contexto: Seis genes sequenciados em isolados da Europa e da Ásia; haplótipo é a combinação de variantes de um trecho do DNA. · Limitações: O próprio estudo de 2017 (a8) usa genomas inteiros e coloca os isolados asiáticos amostrados em grupo distinto. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: A datação por relógio molecular do estudo de 2017 sugere separação das linhagens europeias e norte-americanas em cerca de 100 anos, mas os autores afirmam que estimativas mais precisas exigem mais isolados da Eurásia. [2] Discussion, Phylogeography
Contexto: Árvore datada com 5 isolados europeus e 3 asiáticos; os autores citam cerca de 100 anos para a divergência entre América do Norte e Europa. · Limitações: Cálculo com poucos isolados; os autores o chamam de plausível, não de firme. · Os autores consideram a espécie provavelmente bem mais antiga do que a divergência estimada. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Todos os 26 isolados norte-americanos têm o mesmo tipo de acasalamento (MAT1-1), enquanto 7 de 30 isolados eurasiáticos têm o outro (MAT1-2); isso indica reprodução assexuada e um gargalo populacional recente na América do Norte. [2] Discussion, Clonality
Contexto: Fungos desse tipo precisam de dois tipos de acasalamento para reprodução sexuada; a ausência de um deles numa população indica clonalidade. · Limitações: Amostra pequena; a leitura "gargalo recente" é interpretação dos autores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Emerging Infectious Diseases (CDC) — White-Nose Syndrome Fungus in a 1918 Bat Specimen from France
Campana, M. G.; Kurata, N. P.; Foster, J. T.; Helgen, L. E.; Reeder, D. M.; Fleischer, R. C.; Helgen, K. M. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3201/eid2309.170875 - mBio (American Society for Microbiology) — Phylogenetics of a Fungal Invasion: Origins and Widespread Dispersal of White-Nose Syndrome
Drees, K. P. et al. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 - Scientific Reports (Springer Nature) — White-nose syndrome without borders: Pseudogymnoascus destructans infection tolerated in Europe and Palearctic Asia but not in North America
Zukal, J. et al. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/srep19829
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 12; conferência de trechos automatizada)