Genética

Um bebê nasce com 60 a 80 mutações novas, em média: a maioria vem do pai e o número sobe com a idade dele

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Genética

Cada pessoa nasce, em média, com algumas dezenas de mutações novas de um só nucleotídeo, ausentes no DNA dos pais: 63 por criança num estudo islandês de 78 trios, 77 num estudo de três famílias que corrige as regiões não analisadas. Cerca de quatro em cada cinco vêm do pai, e cada ano a mais na idade paterna se associa a cerca de 2 mutações a mais.

Mutação de novo é uma alteração no DNA que aparece na linhagem germinativa (as células que originam óvulos e espermatozoides) e por isso está na criança, mas não no sangue dos pais. A taxa costuma ser dada por nucleotídeo por geração, na casa de 1×10⁻⁸. Aparecem por erros residuais ao copiar o DNA a cada divisão celular e por dano químico, como o da citosina metilada. Mutação, portanto, é um processo contínuo, não um evento raro: toda geração recebe um punhado. Quase todas ficam fora das regiões que codificam proteínas, e a maioria não tem efeito conhecido.

O mesmo acréscimo por ano não vale para todas as famílias

Em três famílias de irmãos nascidos com 12 a 13 anos de intervalo, o acréscimo de mutações por ano de idade do pai foi de 1,46, 3,27 e 3,65. A média de cerca de 2 por ano esconde variação entre famílias.

De onde vêm: erro de cópia e dano químico

Uma parte das mutações novas surge como erro residual quando o DNA é copiado; a hipótese principal para a diferença entre pais e mães é o número de cópias do genoma na linhagem germinativa. Outra parte é química: nos sítios CpG, a desaminação espontânea da citosina metilada eleva a taxa de transições a 18,2 vezes a dos demais sítios, segundo o estudo islandês, que a apresenta como causa provável.

Como sabemos: sequenciar pai, mãe e filho

Compara-se o genoma inteiro da criança com o dos pais (um trio) e conta-se o que só ela tem. Em 2012, Kong e colegas sequenciaram 78 trios islandeses e confirmaram por Sanger 93 de 94 mutações testadas. Para saber de qual dos pais veio cada mutação foi preciso sequenciar também um neto, o que só foi possível em cinco trios. Limites: poucas famílias e filtros que podem descartar mutações reais ou deixar passar falsas.

Por que a idade do pai pesa mais e a da mãe pesa pouco

O efeito paterno é de cerca de 2 mutações a mais por ano de idade, em média. Um ajuste exponencial do estudo islandês sugere que o ritmo acelera com a idade, mas os autores dizem que faltam dados entre pais mais velhos para decidir. Em 2016, 693 trios mostraram um efeito materno pequeno, de 0,51 mutação por ano. Rahbari e colegas propõem que a taxa por divisão celular caia depois da puberdade, um modelo ainda provisório.

Risco relativo e risco absoluto: o que o número não diz

Dois pontos devem ficar separados. O primeiro é a contagem: cerca de 2 mutações a mais por ano de idade do pai equivalem, pela conta linear (nossa), a cerca de 40 a mais entre pais de 20 e de 40 anos, quase todas fora de regiões que codificam proteínas. O segundo é a doença: a associação entre idade paterna e esquizofrenia na Islândia é relativa e vem com valor de P, não com a chance absoluta. Este texto não traz risco individual nem recomendação.

Como sabemos

Os números vêm de três estudos de sequenciamento de trios (Kong 2012 lido quase por inteiro; os outros dois lidos em parte), mas a explicação por divisões celulares é interpretação e as amostras são pequenas.

Fontes

  1. Nature — Rate of de novo mutations and the importance of father’s age to disease risk
    Kong, A. et al. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/nature11396
  2. Nature Genetics — Timing, rates and spectra of human germline mutation
    Rahbari, R. et al. · 2016 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/ng.3469
  3. Nature Communications — New observations on maternal age effect on germline de novo mutations
    Wong, W. S. W. et al. · 2016 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/ncomms10486
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 10; conferência de trechos automatizada)

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