Zoologia
Muriqui, provável maior primata das Américas: dieta que varia com a floresta e relações sociais igualitárias
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
O muriqui (gênero Brachyteles) é provavelmente o maior primata das Américas, com mais de 1 m de corpo. Comer folhas é só parte da dieta, e a parte muda com a floresta: no Parque Estadual Carlos Botelho (SP), 33,2% do tempo de alimentação foi com folhas e 59,1% com frutos; num fragmento seco, folhas foram 55,3% dos registros. Nas observações de longo prazo do muriqui-do-norte, as relações sociais aparecem como não agressivas e igualitárias.
Muriquis são primatas da Mata Atlântica, com duas espécies reconhecidas: o muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus) e o muriqui-do-sul (B. arachnoides). Folívoro é o animal que se alimenta sobretudo de folhas, alimento de baixa energia e difícil de digerir. A pergunta da pauta tem duas partes. A da dieta: estudos com um grupo em cada floresta mostram que a proporção de folhas, frutos, flores e sementes muda bastante de um lugar para outro. A da vida social: pesquisadores que acompanham o muriqui-do-norte desde 1983 em Minas Gerais descrevem uma sociedade sem agressão e sem dominância evidente, em que as fêmeas mudam de grupo e os machos ficam.
Quem muda de grupo são as fêmeas
Nos muriquis-do-norte, as fêmeas costumam deixar o grupo onde nasceram entre 5 e 7 anos, antes da puberdade, enquanto os machos permanecem na área de nascimento. Em florestas isoladas, essa saída pode ficar impedida.
Quanto é folha? Depende da floresta e de como se mede
As duas medidas aqui vêm de amostragem por varredura: a cada poucos minutos o observador registra o que cada animal visível está fazendo. Em Carlos Botelho (floresta contínua), o grupo gastou 33,2% do tempo comendo folhas e 59,1% comendo frutos. No fragmento semidecíduo de Barreiro Rico, 55,3% dos registros foram de folhas (534 horas, 2.532 registros). São um grupo por local, e a base de contagem muda (tempo de alimentação, registros), então os percentuais não se somam como uma média da espécie.
O que a folha exige do corpo
Segundo Martins (2005), que cita trabalhos de Milton e de Rosenberger e Strier, a fermentação no ceco (parte do intestino onde microrganismos digerem o material vegetal) e os dentes pós-caninos largos permitem aproveitar alimentos de baixa energia. Martins propõe, como hipótese, que o uso de sementes imaturas e a flexibilidade da dieta ajudaram a espécie a viver em florestas com estação seca. Na estação seca daquele fragmento, o consumo de folhas aumentou de forma significativa.
O que 'igualitário' quer dizer nos dados
Strier e Ives (2012) escrevem que as relações sociais do muriqui-do-norte são não agressivas e igualitárias, e por isso a posição de dominância não confunde as análises de nascimentos e mortes, como ocorre em outros primatas de grupos grandes. A afirmação vem do acompanhamento iniciado em 1983 numa floresta de 957 ha. Aqui, 'sem hierarquia aparente' descreve o que foi observado em uma população, e não prova que não exista nenhuma diferença entre os indivíduos.
Fêmeas se dispersam, machos ficam, e o isolamento pesa
Chaves e colegas (2011) descrevem grupos de vários machos e várias fêmeas que podem passar de 100 membros, nos quais as fêmeas saem antes da puberdade e os machos permanecem. Strier e Ives relatam que, numa floresta isolada, não houve dispersão de fêmeas durante o período analisado, e que a mudança nos números de nascimentos e mortes acompanhou esse confinamento. Já o grupo de muriquis-do-sul de Barreiro Rico tinha 25 a 30 indivíduos: o tamanho varia.
Como sabemos
Os números de dieta e as descrições sociais vêm de poucos grupos estudados, e o estudo de Carlos Botelho foi lido só no resumo.
- Evidência forte: O gênero Brachyteles (os muriquis) inclui provavelmente o maior primata neotropical vivo, com mais de 1,0 m de comprimento de corpo. [4] Introduction
Contexto: Primatas das Américas Central e do Sul; o artigo usa 'provavelmente'. · Limitações: A fonte não afirma o 'maior' sem ressalva; por isso o título diz 'provável'. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Considerado inicialmente uma espécie só, o gênero tem hoje duas espécies reconhecidas: o muriqui-do-norte (B. hypoxanthus) e o muriqui-do-sul (B. arachnoides). [4] Introduction
Contexto: Mata Atlântica do Sudeste do Brasil. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Num grupo de muriquis-do-sul do Parque Estadual Carlos Botelho (SP), acompanhado de fevereiro de 1992 a novembro de 1993, 59,1% do tempo de alimentação foi com frutos, 33,2% com folhas, 4,1% com flores e 3,6% com outros itens. [1] Resumo
Contexto: Um grupo, em floresta primária contínua (380 km²) da Serra do Mar. · Limitações: Um único grupo em dois anos; só o resumo foi lido. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Segundo os autores do estudo de Carlos Botelho, os resultados contrastam com todos os estudos anteriores de Brachyteles, em que o consumo de folhas era em geral o dobro do de frutos. [1] Resumo
Contexto: Comparação feita pelos próprios autores em 2004, com os estudos então disponíveis. · Limitações: Estudos posteriores podem ter alterado o quadro; só o resumo foi lido. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Num fragmento de floresta semidecídua (Fazenda Barreiro Rico, SP), em 2001–2002, folhas somaram 55,3% dos registros de alimentação de um grupo de muriquis-do-sul, flores 16,1%, frutos 12,1% e sementes 16,5%. [2] Resumo
Contexto: Um grupo de 25 a 30 indivíduos, 534 horas de observação, 2.532 registros de alimentação, 47 espécies de plantas. · Limitações: Um só grupo; a autora estima o tamanho do grupo por contagem, pois não conseguiu identificar todos os indivíduos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Nesse fragmento, o consumo de folhas foi significativamente maior na estação seca; flores, frutos e sementes não mostraram diferença entre as estações. [2] Resumo
Contexto: Floresta semidecídua, com estação seca de abril a setembro (chuva mensal abaixo de 70 mm). · Limitações: Teste ANOVA com poucos dias por mês (3 a 4 dias de observação completa por mês). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: As espécies de plantas usadas pelo grupo do fragmento seco e pelos grupos de florestas úmidas quase não coincidem: das 47 espécies do grupo estudado, só 11 também aparecem nos estudos de Carlos Botelho e Intervales. [2] Resumo
Contexto: Comparação entre um fragmento semidecíduo e florestas ombrófilas (sempre-verdes) montanas. · Limitações: A autora atribui a baixa sobreposição principalmente à composição florística diferente das duas florestas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Segundo Martins (2005), a proporção anual de folhas no grupo dela e no estudado por Milton (1984), nos dois casos acima de 50%, é bem maior que a registrada em Carlos Botelho (33%) e por Talebi e colegas (24%). [2] Discussão
Contexto: Comparação feita por Martins entre estudos de grupos de muriquis-do-sul; Milton e Talebi não foram lidos diretamente. · Limitações: Fonte de segunda mão para Milton (1984) e Talebi et al. (2005); métodos de contagem podem diferir entre estudos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Segundo Martins (2005), que cita Milton (1984) e Rosenberger e Strier (1989), a fermentação no ceco e os dentes pós-caninos largos permitem aos muriquis processar alimentos de baixa energia, como folhas. [2] Discussão
Contexto: Explicação funcional atribuída a trabalhos anteriores. · Limitações: Fonte de segunda mão: Milton (1984b) e Rosenberger & Strier (1989) não foram lidos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Martins propõe que a dependência de sementes e a flexibilidade da dieta foram provavelmente decisivas para o muriqui-do-sul ocupar florestas sazonais semidecíduas. [2] Discussão
Contexto: Muriqui-do-sul em florestas semidecíduas do planalto de São Paulo. · Limitações: A própria autora escreve 'probably' e nota que uma comparação com florestas semidecíduas extensas e não fragmentadas é impossível, pois não restam. · Interpretação da autora, não testada diretamente. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Nos muriquis-do-norte, as relações sociais são descritas pelos pesquisadores como não agressivas e igualitárias, o que elimina a influência da posição de dominância sobre os dados de história de vida, comum em outros primatas de grupos com vários machos e várias fêmeas. [3] Introduction
Contexto: Muriqui-do-norte, população da RPPN Feliciano Miguel Abdala (MG). · Limitações: A caracterização vem de um grupo de pesquisa e de uma população; para o muriqui-do-sul as fontes lidas trazem menos detalhe. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os muriquis-do-norte vivem em grupos de vários machos e várias fêmeas que podem passar de 100 membros. [4] Introduction
Contexto: Muriqui-do-norte. · Limitações: O tamanho varia entre populações; na Fazenda Barreiro Rico o grupo de muriquis-do-sul tinha 25 a 30 indivíduos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: As fêmeas de muriqui-do-norte deixam o grupo em que nasceram, em média aos seis anos, antes da puberdade, enquanto os machos permanecem na área de nascimento (patrilocalidade). [4] Introduction
Contexto: Muriqui-do-norte. · Limitações: Em florestas isoladas a dispersão das fêmeas pode ser impedida: na RPPN Feliciano Miguel Abdala não houve dispersão no período analisado por Strier e Ives. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: As fêmeas costumam deixar o grupo natal entre 5 e 7 anos de idade, antes do início da puberdade. [3] Introduction
Contexto: Muriqui-do-norte. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O acompanhamento de campo do muriqui-do-norte na RPPN Feliciano Miguel Abdala (floresta de 957 ha, em Minas Gerais) começou em 1983 e rendeu 28 anos de dados na análise de Strier e Ives. [3] Métodos
Contexto: Uma floresta de 957 ha em Minas Gerais. · Limitações: Chaves e colegas (2011) datam o início do monitoramento sistemático em 1982; usamos 1983, ano indicado por Strier e Ives. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Primates — Diet of a muriqui group (Brachyteles arachnoides) in continuous primary forest
Carvalho Jr., O.; Ferrari, S. F.; Strier, K. B. · 2004 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1007/s10329-004-0079-7 - Neotropical Primates 13 (Suppl.) — The southern muriqui, Brachyteles arachnoides: ecology of a population in a semideciduous forest fragment
Martins, M. M. · 2005 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.62015/np.2005.v13.623 - PLoS ONE — Unexpected Demography in the Recovery of an Endangered Primate Population
Strier, K. B.; Ives, A. R. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0044407 - PLoS ONE — Genetic Diversity and Population History of a Critically Endangered Primate, the Northern Muriqui (Brachyteles hypoxanthus)
Chaves, P. B.; Alvarenga, C. S.; Possamai, C. B.; Dias, L. G.; Boubli, J. P.; Strier, K. B.; Mendes, S. L.; Fagundes, V. · 2011 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0020722
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 11; conferência de trechos automatizada)