Física

Como o tremor de grãos visíveis provou os átomos: a previsão de Einstein (1905) e as medições de Perrin

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Ciência do cotidiano

Grãos microscópicos num líquido tremem sem parar porque moléculas invisíveis os empurram de forma irregular. Em 1905 Einstein calculou que o deslocamento dos grãos permite achar o número de Avogadro. Jean Perrin mediu isso por cinco métodos com emulsões e obteve valores de 6,0 a 6,8 × 10²³ por mol, concordantes entre si e com outras vias.

O número de Avogadro é a quantidade de moléculas num mol de substância, por exemplo em 2 g de hidrogênio. A química do século XIX explicava reações com átomos, mas ninguém os via. Em 1827 o botânico Robert Brown observou grãos de pólen em água em agitação contínua e mostrou que o mesmo ocorria com matéria inorgânica, o que enfraquecia a ideia de que fosse sinal de vida. Faltava uma previsão numérica: a ideia de que choques moleculares causavam o tremor falhava no teste da velocidade, porque as energias cinéticas estimadas diferiam por um fator de cerca de 100.000. Einstein contornou o impasse prevendo o deslocamento, não a velocidade.

Einstein previu o fenômeno sem conhecê-lo bem

Em 1905 Einstein escreveu que os movimentos previstos talvez fossem idênticos ao chamado movimento molecular browniano, mas que sua informação sobre ele era imprecisa demais para julgar. Depois contou que chegou à previsão sem saber que as observações eram antigas.

Brown viu o movimento, mas sem teoria

Em 1827 Robert Brown observou ao microscópio grãos de pólen em água em agitação rápida e irregular. Não foi o primeiro a ver partículas dançando: ele mesmo cita precursores, a começar por Leeuwenhoek. Testou se o movimento indicava vida e achou o mesmo tremor em rochas moídas, inclusive granito. Uma gota microscópica de água dentro de óleo, com uma só partícula, mantinha a agitação, o que descartava correntes no líquido. Brown evitou concluir que as partículas estivessem vivas: sua hipótese eram moléculas ativas com movimento próprio.

O que Einstein previu e por que a conta importava

Einstein partiu da ideia de que o líquido é feito de moléculas em agitação térmica e que um grão suspenso sofre choques irregulares. Em vez de medir a velocidade instantânea, que a trajetória errática torna indefinida, trabalhou com o deslocamento num intervalo. Previu que o quadrado médio do deslocamento cresce com o tempo e que a difusão do grão depende de temperatura, viscosidade, raio e número de Avogadro. Com esse número como incógnita, o tremor visível passava a medir o invisível.

Por que o resultado convenceu, e seus limites

Perrin não parou num valor: a mesma conta, com gamboge e mastique, em água, glicerol, açúcar ou ureia, de −9 °C a +60 °C, apontou para o mesmo N. O argumento é de convergência: cada método traz hipóteses próprias, e a coincidência entre eles pesa mais que qualquer um. Há limites. A parede do recipiente freia o movimento, o que fez a melhor medida passar de 69 para 64 × 10²². Já na teoria cinética dos gases, a incerteza chegava a 100%. A média das emulsões, 6,4 × 10²³, fica cerca de 6% acima do valor atual (cálculo nosso).

Por que o ceticismo sobre átomos durou tanto

A química de Dalton explicava proporções fixas nas reações com átomos, mas ninguém os via. Perrin lembra que, no fim do século XIX, alguns estudiosos julgavam inútil especular sobre o que escapa aos sentidos. Einstein atribuiu o ceticismo de Ostwald e Mach a uma postura positivista e disse que a concordância de sua teoria com a experiência os convenceu. Em 1926, Perrin escreveu que a realidade de átomos e moléculas, duvidada vinte anos antes, podia ser aceita como princípio.

Como sabemos

Os resultados de Perrin e a previsão de Einstein vêm do texto do Nobel de Perrin e do livro de Nelson; os trechos foram copiados dos documentos abertos.

Fontes

  1. Nobel Foundation / NobelPrize.org — Discontinuous Structure of Matter (Nobel Lecture)
    Perrin, J. · 1926 · Fonte histórica primária · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. Nobel Foundation / NobelPrize.org — Award ceremony speech, Nobel Prize in Physics 1926
    Orador da Academia Sueca de Ciências · 1926 · Fonte histórica primária · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. Princeton University (Departamento de Matemática) — Dynamical Theories of Brownian Motion, 2ª ed., caps. 1 a 4
    Nelson, E. · 2001 · Livro ou obra de referência · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  4. National Institute of Standards and Technology (EUA) — CODATA Value: Avogadro constant
    NIST · 2022 · Base de dados · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  5. Nobel Foundation / NobelPrize.org — Jean Baptiste Perrin – Biographical
    Nobel Foundation · 1926 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 9; conferência de trechos automatizada)

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