Genética

Um corpo, mais de um genoma: mosaicismo, quimerismo e as células que passam do filho para a mãe

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Genética

Nem todas as células de uma pessoa têm o mesmo DNA. No mosaicismo, mutações surgidas depois da fecundação ficam só nas descendentes de uma célula: em pálpebras de quatro adultos, a pele era um mosaico de clones. No quimerismo, há células de outro indivíduo: de um gêmeo, via placenta, ou do filho, achadas no sangue da mãe 27 anos depois.

Mosaicismo e quimerismo quebram a ideia de um genoma único por pessoa, de modo diferente. No mosaicismo, todas as células vêm do mesmo zigoto (o óvulo fecundado) e divergem por erros genéticos ocorridos depois; no quimerismo, as células vêm de zigotos distintos. Mutação somática é a que ocorre fora da linhagem que dá origem a óvulos e espermatozoides, por isso não é herdada pelos filhos. Microquimerismo é o quimerismo em baixa proporção, como o das células do feto que persistem na mãe. Nada disso é, em si, doença: o glossário do NHGRI diz que o mosaicismo nem sempre causa doença.

Um exame de paternidade que exclui o pai de verdade

Em 2018, médicos publicaram um caso em que dois testes de 15 marcadores deram 0% de chance de paternidade para um homem que, de fato, era o pai. Ele tinha dois genomas: o das amostras testadas era mais parecido com o de um tio do que com o de um pai.

Mosaicismo: erros que ocorrem depois da fecundação

O glossário do NHGRI define mosaicismo como a presença, numa pessoa, de células com genoma diferente do das demais. O erro pode ter origem logo no embrião ou mais tarde, afeta qualquer tipo de célula e não causa doença sempre. Todas as células do mosaico descendem do mesmo zigoto, o que o separa do quimerismo, em que células vêm de zigotos distintos. A diferença pode ser de uma só letra do DNA ou de um cromossomo inteiro.

Como sabemos: sequenciar pedaços minúsculos de pele

Em 2015, Martincorena e colegas sequenciaram 74 genes ligados a câncer em 234 biópsias de pálpebra de quatro adultos, com cobertura média de 500 vezes, o que permitiu achar mutações em apenas 1% das células de cada biópsia. Acharam clones de células em expansão com mutações em genes de câncer, em pele sem lesão. Limites: quatro doadores, um só local do corpo, 74 genes em vez do genoma inteiro, e 'mutação motora' é uma inferência estatística de seleção positiva.

Quimerismo: troca pela placenta ou fusão de embriões

Há duas rotas descritas. Na primeira, gêmeos trocam células-tronco do sangue por conexões dos vasos da placenta; num par de sexos diferentes, o sangue tinha células XX e XY, mas a pele de cada um tinha só o próprio cariótipo. Na segunda, células de embriões de gêmeos dizigóticos se fundem cedo, e o bebê único tem duas linhagens de genomas distintos. Os dois casos aqui são relatos individuais: a frequência é desconhecida, e a maioria dos quiméricos provavelmente nunca é diagnosticada.

Microquimerismo: células do filho que ficam na mãe

Em 1996, Bianchi e colegas procuraram DNA do cromossomo Y no sangue de mães de meninos e o encontraram em células-tronco de 6 de 8 mulheres não grávidas, inclusive 27 anos após o parto. A revisão de 2022 descreve a troca de células entre feto e mãe a partir da quarta a sexta semana de gestação. Para que servem essas células é hipótese: a presença persistente sugere um papel possível na saúde materna, não demonstrado. O método com Y só enxerga filhos homens.

Como sabemos

Definições e mecanismos vêm de glossário institucional, relatos de caso e revisão; o mosaico da pele vem de um estudo de 4 pessoas e as microquimeras, de um estudo de 1996 com 8 mulheres, lido só no resumo.

Fontes

  1. National Human Genome Research Institute (NHGRI), EUA — Mosaicism (Genetics Glossary)
    National Human Genome Research Institute · s.d. · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  2. Science — Tumor evolution. High burden and pervasive positive selection of somatic mutations in normal human skin
    Martincorena, I. et al. · 2015 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/science.aaa6806
  3. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Male fetal progenitor cells persist in maternal blood for as long as 27 years postpartum
    Bianchi, D. W. et al. · 1996 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.93.2.705
  4. Journal of Assisted Reproduction and Genetics — A case of chimerism-induced paternity confusion: what ART practitioners can do to prevent future calamity for families
    Sheets, K. M. et al. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1007/s10815-017-1064-6
  5. AJP Reports — Confined blood chimerism in monochorionic dizygotic twins conceived spontaneously
    Kanda, T.; Ogawa, M.; Sato, K. · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1055/s-0032-1331377
  6. iScience — Feto-maternal microchimerism: Memories from pregnancy
    Cómitre-Mariano, B. et al. · 2022 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/j.isci.2021.103664
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 11; conferência de trechos automatizada)

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