Zoologia

Como o morcego-vampiro encontra sangue e raramente acorda a presa?

Publicado em 11/10/2026 · Última alteração em 11/10/2026

O morcego-vampiro-comum (Desmodus rotundus) alimenta-se só de sangue. Em 2011, uma equipe mostrou que ele sente calor com um canal chamado TRPV1, ajustado para disparar a cerca de 30 °C, bem abaixo dos cerca de 43 °C do calor que dói. Isso ajuda a achar pontos quentes na pele da presa. Ele faz um corte de cerca de 3 mm, lambe o sangue, e a saliva impede a coagulação.

O morcego-vampiro-comum vive do México à Argentina e ao Chile, pesa de 15 a 50 g e é um parasita obrigatório de sangue: não come mais nada. Isso exige várias adaptações ao mesmo tempo. No focinho há fossetas ligadas a fibras nervosas sensíveis a calor, ausentes em morcegos frugívoros próximos. A mordida é uma incisão pequena, relativamente indolor, que raramente acorda a vítima. A saliva contém moléculas que atrapalham a coagulação, e os rins lidam com uma dieta de proteína e ferro. Parte do conhecimento sobre a saliva e os rins vem de grupos brasileiros, como a UNESP e a Universidade Federal de Viçosa.

Sangue que se divide

Morcegos-vampiros regurgitam sangue para companheiros que não conseguiram se alimentar. Num experimento de dois anos com 20 morcegos, o que um recebeu foi o melhor previsor do que ele doou, e cerca de 64% dos pares que dividiram sangue não eram parentes.

Um termômetro ajustado

O canal TRPV1 existe em muitos mamíferos e dispara com calor doloroso, acima de cerca de 43 °C. No morcego-vampiro, o mesmo gene gera, por splicing alternativo, uma versão encurtada que ativa a cerca de 30 °C. Ela aparece principalmente nos gânglios do nervo trigêmeo, que serve a face, e quase não nos gânglios da raiz dorsal, que servem o corpo. Assim o animal ganha um sensor de calor sensível no focinho sem perder o alarme de calor nocivo.

Um corte discreto

Segundo o Animal Diversity Web, o morcego faz uma incisão de cerca de 3 mm com incisivos e caninos afiados e lambe o sangue. A mordida é relativamente indolor e raramente acorda a vítima. O que a literatura descreve é o resultado; os mecanismos de analgesia, se existirem, não foram confirmados nas fontes consultadas e por isso não são afirmados aqui.

Saliva que mantém o sangue correndo

A saliva contém a draculina, associada à inibição do fator Xa da coagulação, e uma família de ativadores de plasminogênio (DSPA), da qual a desmoteplase foi a mais estudada. O catálogo de 2013, com coautores da UNESP e do Projeto Morcegos Brasileiros, previu mais de 14 mil proteínas secretadas pelas glândulas. A maioria dessas moléculas ainda não foi testada, e a identidade molecular exata da draculina segue em discussão.

Rins e cooperação

Uma dieta de sangue traz muita proteína e ferro. Pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa mediram rins maiores em glomérulo no morcego-vampiro do que no frugívoro Artibeus lituratus e sugeriram que isso se relaciona à excreção de nitrogênio e ao excesso de ferro. Como a alimentação falha com frequência, entra a partilha: morcegos regurgitam sangue para quem ficou sem comer, com base mais em favores anteriores do que em parentesco.

Como sabemos

Calor, mordida, saliva e partilha de sangue têm fonte primária ou institucional; a ideia de que os rins eliminam a água do sangue não foi confirmada em fonte primária e ficou de fora.

Fontes

  1. Nature (Gracheva et al., 2011), via PubMed Central — Ganglion-specific splicing of TRPV1 underlies infrared sensation in vampire bats
    consultada em 11/10/2026
  2. Animal Diversity Web, Universidade de Michigan — Desmodus rotundus (common vampire bat)
    consultada em 11/10/2026
  3. Journal of Proteomics (Francischetti, Assumpção, Ma, Li, Vicente, Uieda, Ribeiro, 2013), via PubMed Central — A transcriptome and proteome analysis (the Vampirome) of the principal and accessory submaxillary salivary glands of the vampire bat Desmodus rotundus
    consultada em 11/10/2026
  4. Proceedings of the Royal Society B (Carter e Wilkinson, 2013) — Food sharing in vampire bats: reciprocal help predicts donations more than relatedness or harassment
    consultada em 11/10/2026
  5. Zoology (Linhares et al., Universidade Federal de Viçosa, 2021), via Europe PMC — Aspects regarding renal morphophysiology of fruit-eating and vampire bats
    consultada em 11/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 11/10/2026 — primeira versão

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