Geografia

Como o Brasil mede a seca: o Monitor de Secas dá cinco graus, sempre em relação ao histórico de cada lugar

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Tempo e clima

No Monitor de Secas, uma região está em seca quando a chuva acumulada de alguns meses fica abaixo do que seria normal para aquele local e aquela época. A intensidade vai de fraca a excepcional, em cinco graus. O mapa é feito todo mês, com validação dos estados, e a classificação é relativa ao histórico local, não a um volume fixo de chuva.

Seca não é só falta de chuva: depende do que é normal em cada lugar. Cinquenta milímetros num mês podem ser um déficit no Sul e uma chuva boa no semiárido. Por isso o Monitor de Secas, programa coordenado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), mede a seca relativa, o desvio entre o observado e o esperado. Os indicadores são calculados a partir de séries históricas de chuva (e, em alguns casos, de temperatura e vazão) e comparados com todos os anos anteriores da mesma estação. O resultado é um número padronizado, que se traduz em uma de cinco classes, de S0 (fraca) a S4 (excepcional), e vira um mapa mensal desenhado por especialistas.

Seca excepcional no Sul, seca fraca no Nordeste

No primeiro semestre de 2023, o Monitor registrou seca excepcional, a classe mais intensa, no Sul. No mesmo período, o Nordeste, conhecido pela pouca chuva, apareceu só com seca fraca: o que conta é o desvio do normal local.

Como a chuva vira uma classe

O indicador mais conhecido é o SPI. Soma-se a chuva de uma janela de meses (por exemplo, fevereiro a abril), compara-se com a mesma janela em todos os anos da série e converte-se o resultado em uma distribuição normal, de modo que lugares muito diferentes ficam na mesma escala. Valores abaixo de -0,5 indicam período seco. Na tabela do Monitor, de -0,5 a -0,7 é seca fraca (S0) e de -2,0 para baixo é seca excepcional (S4). Quanto mais longa a janela, mais o indicador reflete reservatórios; quanto mais curta, mais o solo.

Como sabemos: o mapa é desenhado, não calculado

Os números não geram o mapa sozinhos. A ANA descreve etapas: coleta de dados, cálculo dos indicadores, rascunho do mapa pela equipe de autoria e validação pelos estados, antes da divulgação. O modelo americano de que o Monitor brasileiro se originou trabalha do mesmo modo, com 'convergência de evidências': indicadores físicos mais o conhecimento de especialistas locais. A vantagem é incluir o que o índice não vê; o custo é que parte da decisão é um julgamento, e dois mapas feitos por equipes diferentes podem divergir.

O que os dados não mostram

O SPI, em sua forma básica, usa só chuva e muda quando a série histórica é atualizada, e o ideal são 30 anos ou mais de dados contínuos, o que falta em muitas regiões. O SPEI, que inclui temperatura, depende de séries longas de temperatura e chuva no mesmo local, segundo o material do Monitor. Como a seca é relativa, uma área pode estar em seca fraca e ainda assim com pouca água em termos absolutos: o mapa diz o quanto o mês foi atípico, não quanta água há.

Monitor da ANA e boletim do Cemaden

O Mapa do Monitor de Secas da ANA e o boletim do Cemaden são produtos diferentes. O Cemaden publica o Índice Integrado de Seca (IIS-3) e conta municípios por categoria, além de acompanhar áreas indígenas, assentamentos, unidades de conservação e áreas agrícolas. O Monitor trabalha com regiões desenhadas e validadas pelos estados. Por isso um mesmo mês pode aparecer de formas diferentes em cada um, sem que um esteja errado: mudam o método, a unidade espacial e o objetivo.

Como sabemos

A estrutura do Monitor e suas cinco classes estão em páginas oficiais da ANA; a tabela de faixas do SPI vem de uma apresentação de 2019, não de uma norma vigente.

Fontes

  1. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) — Monitoramento de Secas (Monitor de Secas)
    Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) · s.d. · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  2. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) — Monitor de Secas completa dez anos registrando o fenômeno como realidade recorrente em todas as regiões brasileiras
    Assessoria Especial de Comunicação Social (ASCOM/ANA) · 2024-08-20 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  3. Governo do Espírito Santo (Alerta ES), apresentação do Monitor de Secas — Monitor de Secas: Indicadores e Produtos de Apoio (apresentação do Monitor de Secas do Nordeste)
    Equipe do Monitor de Secas do Nordeste (MSNE/FUNCEME) · s.d. (dados de março de 2019) · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  4. National Drought Mitigation Center (University of Nebraska-Lincoln), U.S. Drought Monitor — Drought Classification | U.S. Drought Monitor
    National Drought Mitigation Center, University of Nebraska-Lincoln · s.d. · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  5. Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden/MCTI) — Monitoramento de Secas e Impactos no Brasil: abril/2026
    Cemaden · 2026-05-08 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 10; conferência de trechos automatizada)

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