Ciências da Terra
1909: um terremoto na Croácia mostrou onde a crosta termina e o manto começa
Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026
Em 8 de outubro de 1909, um terremoto a cerca de 40 km de Zagreb foi registrado por dezenas de estações europeias. Andrija Mohorovičić notou que, além de certa distância, a onda P chegava duas vezes, e a primeira a chegar era a que fez o caminho mais longo. Só uma camada mais profunda, onde as ondas correm mais rápido, explica isso: a base da crosta, a cerca de 50 km nas contas dele.
A crosta é a camada rochosa mais externa da Terra; o manto fica abaixo dela. Em 1909 ninguém havia medido o limite entre as duas. Terremotos geram ondas sísmicas, e a onda P (de compressão) é a primeira a chegar a uma estação. Seu tempo de percurso depende da velocidade nas rochas atravessadas: se a velocidade muda de repente em profundidade, as ondas se refratam, como a luz ao passar do ar para o vidro, e parte do trajeto passa a ser feita em rocha mais veloz. Mohorovičić, diretor do observatório meteorológico de Zagreb, reuniu os horários de chegada medidos em estações de toda a Europa e comparou-os com a distância até o epicentro. A superfície que ele identificou leva hoje o seu nome (descontinuidade de Mohorovičić, ou Moho).
Um artigo longo e sem título informativo
Segundo os historiadores da sismologia de Zagreb, o trabalho de 1910 tem 56 páginas, foi publicado em croata e alemão no boletim do observatório e conta, em forma de narrativa, as dúvidas e tentativas do autor. Mesmo assim traz a prova da descontinuidade e um modelo completo.
Por que a distância curta importou
Segundo a f1, os sismólogos anteriores usavam registros de estações a mais de 10 graus do epicentro, cerca de 1.110 km. Um terremoto raso e relativamente próximo de um observatório bem equipado, com sismógrafos Wiechert operando em Zagreb desde 1908–1909, deu a Mohorovičić registros nítidos nas distâncias em que as duas chegadas da onda P aparecem. A f1 também diz que ele foi o primeiro a aplicar dados de estações próximas; é uma afirmação de uma página divulgativa.
Da curva ao limite
A hodócrona relaciona a distância até o epicentro ao tempo de percurso de cada fase. Num meio com velocidade crescente e um salto em profundidade, a curva se divide em dois ramos, e o da onda refratada tem inclinação menor, porque corre em rocha mais veloz. A profundidade do salto sai do ponto onde os ramos se separam e da velocidade nas duas camadas. Foi assim que ele chegou a cerca de 50 km (54 km na estimativa final, segundo a f5).
Limites da descoberta
O modelo de 1909 era de duas camadas homogêneas, o que é uma simplificação. A revisão f3 lembra que o Moho sísmico é nítido em muitas regiões, mas difuso em outras, e que a espessura atual da crosta vai de 6–8 km nos oceanos a mais de 80 km em montanhas. A profundidade estimada em 1909 vale para o modelo e a região de então, não como número atual sob a Croácia.
Como sabemos
O caminho do raciocínio e os números modernos estão em fontes lidas, mas a profundidade do próprio Mohorovičić e o 'primeiro a usar estações próximas' vêm de fontes secundárias divulgativas, sem o texto de 1910.
- Fato estabelecido: Em 8 de outubro de 1909 um forte terremoto atingiu a região de Pokuplje, na Croácia, com epicentro a cerca de 40 km a sudeste de Zagreb, perto de Pokupsko. [1] seção Moho discontinuity, §1
Contexto: Terremoto do vale do Kupa (Pokuplje), Croácia. · Limitações: A f4 (resumo) data o evento em 9 de outubro; a diferença provavelmente vem do fuso/hora do registro, mas isso não foi confirmado nas fontes lidas. A f5 dá o epicentro a 39 km de Zagreb. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O observatório de Zagreb havia instalado sismógrafos horizontais Wiechert, operacionais em 1908 e 1909, que registraram o terremoto de Kupa. [2] § sobre a estação sismológica de Zagreb
Contexto: Estação sismológica de Zagreb, dirigida por Mohorovičić. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Mohorovičić pediu a colegas cópias de sismogramas ou os horários de chegada das fases do terremoto e reuniu dados de 41 estações. [1] seção Moho discontinuity, §5
Contexto: Estações sismológicas europeias, 1909. · Limitações: A f5, outra compilação, fala em uma dúzia de estações analisadas; o número de 41 é o da f1. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Segundo a f1, os sismólogos anteriores usavam registros de estações a mais de 10 graus do epicentro (cerca de 1.110 km), e Mohorovičić foi o primeiro a aproveitar dados de estações próximas. [1] seção Moho discontinuity, §4
Contexto: Prática da sismologia no início do século XX. · Limitações: O pioneirismo é afirmado pela f1, uma página divulgativa; não foi verificado em fonte independente. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Nos sismogramas, até cerca de 240 km do epicentro chegava uma só onda longitudinal (P) e uma transversal (S); entre 240 e 720 km chegavam duas de cada tipo. [1] seção Moho discontinuity, §8 [4] Resumo (esloveno)
Contexto: Registros do terremoto de 1909 em estações de até cerca de 720 km. · Limitações: As fontes divergem no limite inferior da zona de chegadas duplas: 240 km (f1) e 300 km (f4, só o resumo). O texto usa 'cerca de'. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: As duas chegadas são fases da mesma onda P que seguiram caminhos diferentes: uma direta, só pela crosta, e outra refratada numa camada inferior, mais veloz. Passada uma certa distância, a refratada chega primeiro, apesar do trajeto maior. [1] seção Moho discontinuity, §8 [4] Resumo (esloveno)
Contexto: Interpretação de Mohorovičić, aceita desde então; as fases têm hoje os nomes Pg/Sg (crosta) e Pn/Sn (topo do manto). · Limitações: A f1 chama as fases de P e Pa; a nomenclatura moderna (Pg, Pn) aparece na f4 e na f2. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Como não pode haver dois tipos de onda P viajando com velocidades diferentes na mesma rocha, a explicação exige que a velocidade cresça continuamente com a profundidade até uma superfície onde dá um salto brusco. [1] seção Moho discontinuity, §8
Contexto: Raciocínio por eliminação a partir das curvas de tempo de percurso (hodócronas). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Mohorovičić adotou 50 km (valor arredondado) para a profundidade dessa superfície e, segundo a f5, estimou a espessura da crosta em 54 km. [5] citação do anuário do Observatório de Zagreb, 1909
Contexto: Valor obtido com o modelo de duas camadas e as estações croatas e europeias de 1909. · Limitações: Duas cifras (50 e 54 km) na mesma fonte secundária; o texto original de 1910 não foi lido (a tradução de 1992 na Geofizika existe, mas é um PDF digitalizado sem texto). A f5 também cita o raio do raio sísmico mais profundo em 49 km. Hoje a profundidade varia de lugar para lugar. · Estimativa histórica feita com um modelo simples; não é o valor atual para a região. · Conferida em parte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: O trabalho de 1910, em 56 páginas, publicado em croata e alemão no boletim do observatório, é uma narrativa das dúvidas, observações e tentativas do autor. [2] § sobre a descoberta
Contexto: Mohorovičić (1910), relatório anual do Observatório Meteorológico de Zagreb para 1909. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O método seguiu a lógica de tentativa e erro: propor um modelo de Terra, calcular os tempos de chegada que ele prevê e compará-los com os observados; é um problema inverso, e essa abordagem ainda hoje é muitas vezes a escolhida. [2] § sobre a descoberta
Contexto: Avaliação dos historiadores Herak e Herak (2007), da Universidade de Zagreb. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Os registros do terremoto de Kupa, somados a sismogramas de toda a Europa, permitiram a Mohorovičić provar a existência do limite entre crosta e manto, depois chamado descontinuidade de Mohorovičić ou Moho. [2] § sobre a descoberta
Contexto: Historiografia da sismologia croata. · Limitações: O texto da f2 fala em 'primeiro no mundo' em outros pontos; a página f1 é a que diz que ele foi o primeiro a usar estações próximas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Hoje o Moho sísmico é reconhecido como o salto da velocidade das ondas P, de tipicamente menos de 7 km/s na crosta para 7,6 a 8,1 km/s no manto. [3] §2, The Moho Discontinuity
Contexto: Onde o Moho é nítido; a definição sísmica é a usada como padrão. · Limitações: Valores típicos; a f3 trata de casos em que o salto é gradual. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: A espessura da crosta continental atual vai de poucos quilômetros acima da crosta oceânica (6 a 8 km) a mais de 80 km em regiões de orogenia; em escudos e plataformas antigos, converge para 40 a 43 km. [3] §1, Introduction
Contexto: Modelo global CRUST 1.0 (resolução de 1° × 1°) citado pela revisão. · Limitações: Valores aproximados de uma revisão, não medidas em cada ponto. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: O aumento da velocidade sísmica nesse limite indica uma mudança importante na composição das rochas, entre a crosta e o manto superior. [5] parágrafo introdutório
Contexto: Interpretação geral; a revisão f3 menciona ainda o 'Moho petrológico', definido pela composição. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Consenso científico: Nem sempre o limite é uma linha nítida: sob arcos vulcânicos e orógenos o Moho pode ser difuso, e o Moho sísmico e o petrológico podem diferir em vários quilômetros. [3] §2, The Moho Discontinuity
Contexto: Placas superiores em zonas de subducção, como os Andes centrais. · Limitações: O 'vários quilômetros' vem de outra passagem do mesmo §2 (diferença de 'several or tens of kilometers' entre os dois Mohos em arcos); descrição qualitativa. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Geotech d.o.o., Rijeka (empresa de engenharia geotécnica) — Discovery of Mohorovičić's (Moho) Discontinuity
Tomiša, A. (Geotech d.o.o.) · 2021 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Seismological Research Letters 78(6), Seismological Society of America; Instituto Geofísico Andrija Mohorovičić, Universidade de Zagreb — Andrija Mohorovičić (1857–1936) — On the occasion of the 150th anniversary of his birth (Historical Seismologist)
Herak, D.; Herak, M. · 2007 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Reviews of Geophysics (AGU) — Chemical Mohometry: Assessing Crustal Thickness of Ancient Orogens Using Geochemical and Isotopic Data
Luffi, P.; Ducea, M. N. · 2022 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1029/2021RG000753 - Ujma, n. 23, p. 314-321 (ZRC SAZU, Eslovênia) — Stoletnica odkritja Mohorovičićeve diskontinuitete (meja med Zemljino skorjo in plaščem)
Gosar, A. · 2009 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 - IGCP Project 559/599 – Crustal Architecture and Images (história) — Andrija Mohorovicic (1857-1936) – defining the Earth's crust
Finlayson, D. M. (compilação, a partir de Skoko e Herak) · 2024 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 3; conferência de trechos automatizada)