Genética
Como a mistura de ancestrais varia no Brasil: o que o EPIGEN mostrou em 6.487 pessoas de três regiões
Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026
O estudo EPIGEN analisou o genoma de 6.487 brasileiros de três coortes e encontrou ancestralidade africana, europeia e ameríndia em proporções diferentes: 50,8% africana em Salvador, 14,7% em Bambuí e 15,9% em Pelotas. A mistura teve dinâmicas distintas por região, com dois componentes africanos, origem europeia mais ampla no Sudeste e no Sul e preferência por parceiros de ancestralidade parecida.
Neste estudo, "ancestralidade" é a fração do genoma que se assemelha a populações de referência da África, da Europa e das Américas, não uma raça nem uma identidade (veja o post sobre o que os testes de ancestralidade estimam). O EPIGEN Brasil é um estudo de 2015 da UFMG e parceiros: cerca de 2,2 milhões de marcadores em pessoas de Salvador, Bambuí e Pelotas, e genoma inteiro de 30 delas. Cada cidade representa uma região, mas não o país. O comprimento dos trechos de cromossomo de ancestralidade contínua, cuja distribuição informa quando a mistura ocorreu, foi usado para datar as ondas de mistura.
A coorte mais africana é a menos polarizada
Em Salvador, onde a ancestralidade africana média é a maior das três coortes, os indivíduos são mais misturados entre si; em Pelotas e Bambuí há mais gente com uma ancestralidade claramente predominante, europeia ou africana.
Como sabemos: de milhões de marcadores a uma data de mistura
Cada genoma foi lido em cerca de 2,2 milhões de marcadores. Para datar a mistura, os autores mediram o comprimento de trechos de cromossomo de ancestralidade contínua e simularam, por computação bayesiana aproximada (ABC), um modelo com três pulsos de mistura entre 18 e 4 gerações atrás. Trechos europeus mais longos no Sudeste e no Sul são a assinatura de imigração mais recente. O resultado vale dentro desse modelo, que os autores descrevem como um equilíbrio entre complexidade estatística e história real.
Mistura e sexo: o que as fontes dizem
Comparando DNA autossômico, mitocondrial e cromossomo X, o EPIGEN encontrou nas três coortes o sinal de uniões preferenciais entre homens de ancestralidade predominantemente europeia e mulheres de ancestralidade predominantemente africana ou ameríndia. A revisão de 2019 descreve a mesma assimetria, e Pena e colegas situam o período no tráfico, com deslocamento forçado de cerca de 4 milhões de africanos. O DNA mostra a assimetria entre linhagens; não informa as circunstâncias de cada união, que as fontes aqui usadas não detalham.
Por que os números mudam de um estudo para outro
Uma revisão de 2019, com 51 estudos, concluiu que as estimativas dependem do tipo de marcador e da amostragem. Seu resumo nacional (68,1% europeia, 19,6% africana, 11,6% ameríndia) mistura métodos diferentes, e o de Pena e colegas (2011), com 40 marcadores e ponderação pelo censo, deu de 60,6% (Nordeste) a 77,7% (Sul) de ancestralidade europeia. Os autores do EPIGEN usaram milhões de marcadores em três cidades. Por isso, valores de cidades e estudos diferentes não são intercambiáveis.
O que a mistura não diz
Frações de ancestralidade medem semelhança genética com populações de referência; não definem raças nem identidades, e a cor autodeclarada tem outra relação com elas (outro post trata disso). A cor da pele tem genes próprios, descritos em outro texto. As três coortes do EPIGEN não incluem o Norte nem o Centro-Oeste, onde os próprios autores supõem que a dinâmica da ancestralidade ameríndia pode ser diferente.
Como sabemos
Resultados numéricos conferidos nos textos integrais de um estudo de 2015, um de 2011 e uma revisão de 2019; as datas de mistura e a história por trás dos padrões são inferências por modelo ou interpretação dos autores.
- Fato estabelecido: O EPIGEN Brasil genotipou cerca de 2,2 milhões de marcadores (SNPs) em 6.487 pessoas de três coortes de base populacional, de regiões com históricos demográficos e socioeconômicos diferentes, e sequenciou o genoma inteiro de 30 delas. [1] Resumo
Contexto: Coortes de Salvador (BA), Bambuí (MG) e Pelotas (RS), com participantes recrutados por base populacional; estudo publicado em 2015. · Limitações: São três cidades, uma por região; não são amostra do país. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em Salvador, a ancestralidade estimada foi de 50,8% africana, 42,9% europeia e 6,4% ameríndia. Apesar da maior média africana, os indivíduos são mais misturados entre si do que em Bambuí e Pelotas, onde há mais gente com uma ancestralidade claramente predominante. [1] Results and Discussion, Populations
Contexto: Coorte SCAALA, 1.309 pessoas de Salvador (BA). · Limitações: Os autores atribuem a maior mistura individual, com "probably", a uma história de mistura mais longa e a um nível socioeconômico mais homogêneo; é interpretação deles, não medida. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em Bambuí (interior de Minas Gerais), a ancestralidade estimada foi de 78,5% europeia, 14,7% africana e 6,7% ameríndia; em Pelotas (Rio Grande do Sul), de 76,1% europeia, 15,9% africana e 8% ameríndia. [1] Results and Discussion, Populations
Contexto: Bambuí: 1.442 pessoas com mais de 60 anos (82% dos moradores nessa faixa no início do estudo); Pelotas: 3.736 nascidos em 1982. · Limitações: Bambuí tem a maior estrutura familiar e endogamia entre as três coortes; as faixas etárias das duas coortes são diferentes. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: A ancestralidade ameríndia é baixa nas três coortes (6 a 8%). A modelagem indica que ela entrou, na maior parte, logo após a conquista europeia; os autores supõem que estudos no Norte e no Centro-Oeste possam mostrar dinâmicas ameríndias diferentes. [1] Conclusion
Contexto: Resultado de inferência por computação bayesiana aproximada (ABC) sobre as três coortes. · Limitações: Depende do modelo de três pulsos assumido. Norte e Centro-Oeste não foram amostrados; a segunda frase é conjectura dos autores. · Inferência por modelo (ABC); a parte sobre Norte e Centro-Oeste é especulação declarada pelos autores ("We speculate"). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Os autores medem o comprimento de trechos de cromossomo de ancestralidade contínua, cuja distribuição informa quando a mistura ocorreu. Num modelo de três pulsos de mistura (de 18 a 4 gerações atrás), inferem imigração europeia mais recente no Sudeste e no Sul do que no Nordeste, e uma contribuição africana decrescente no tempo nas três coortes. [1] Conclusion
Contexto: Modelo de simulação com nove parâmetros, condicionado às proporções de ancestralidade observadas em cada coorte. · Limitações: Os próprios autores descrevem o modelo como um equilíbrio entre complexidade estatística e história real; as datas valem dentro dele. A leitura da tendência africana (por exemplo, migração local vinda de comunidades como quilombos) é uma explicação complementar que eles propõem. · Datas de mistura são inferência por simulação, condicionada a um modelo de três pulsos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os brasileiros do estudo têm dois componentes de ancestralidade africana: um associado a populações não bantas do oeste da África, que responde por 75% da ancestralidade africana em Salvador, e outro associado a populações bantas do leste africano, que responde por 36% em Bambuí e 44% em Pelotas. [1] Brazil, the Main Destination of the African Diaspora
Contexto: Comparação com populações africanas de referência (iorubá e mandenka; luhya e populações bantas do HGDP) nas três coortes. · Limitações: Os rótulos "oeste" e "leste" são os dos autores e se referem às populações de referência usadas; os grupos não são fronteiras fixas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Os autores veem essa diferença como compatível com o que se sabe do tráfico: grande parte dos iorubás chegou a Salvador, e os bantos de Moçambique desembarcaram sobretudo no Rio de Janeiro. A associação é por consistência com registros históricos, não uma prova de origem de cada pessoa. [1] Brazil, the Main Destination of the African Diaspora
Contexto: Interpretação dos autores para o padrão regional dos dois componentes africanos. · Limitações: Nenhuma das coortes estudadas fica no Rio de Janeiro. Migrações internas posteriores também moldam a distribuição atual. · Os autores escrevem "consistent with": interpretação compatível com registros, não demonstrada pelos dados genéticos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Na análise da estrutura genética, o componente europeu da maioria dos brasileiros se assemelha ao de ibéricos. Em Pelotas e Bambuí, ele remonta a uma região mais ampla (inclusive norte da Europa e Oriente Médio) do que em Salvador, mais restrita à Península Ibérica; a fração de ancestralidade europeia ligada ao norte da Europa foi de 40,2% em Pelotas, 35,8% em Bambuí e 36,7% em Salvador. [1] Dissecting European Ancestry
Contexto: Dados de 5.825 brasileiros sem parentesco próximo (Dataset U) e 1.780 indivíduos de populações do mundo. · Limitações: As diferenças entre as três coortes na fração do norte da Europa são de poucos pontos percentuais; "ligada ao norte da Europa" é o nome do agrupamento estatístico, não a origem de cada pessoa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A estrutura genética sugere que os brasileiros ainda tendem a ter filhos com pessoas de ancestralidade parecida (acasalamento seletivo positivo por ancestralidade). Esse padrão cria um desvio do equilíbrio de Hardy-Weinberg, o que afeta o desenho de estudos de associação genômica. [1] Conclusion
Contexto: Inferência a partir da correlação, nas três coortes, entre o quanto um SNP distingue africanos de europeus (FST) e o desvio dele do equilíbrio de Hardy-Weinberg (FIT). · Limitações: É padrão populacional estatístico; não descreve escolhas individuais. Os autores observam que a ancestralidade se correlaciona com fenótipos como cor da pele e com características socioeconômicas, de modo que o padrão pode refletir esses fatores juntos. · A correlação é entre medidas de SNPs; "mate preferentially" é a interpretação dos autores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Comparando DNA autossômico, mitocondrial e cromossomo X, o EPIGEN encontrou nas três coortes o sinal de uniões preferenciais entre homens de ancestralidade predominantemente europeia e mulheres de ancestralidade predominantemente africana ou ameríndia. A revisão de 2019 descreve o mesmo padrão assimétrico por sexo em estudos de linhagens maternas e paternas, e Pena e colegas situam o período no tráfico, com o deslocamento forçado de cerca de 4 milhões de africanos. [1] Results and Discussion, Populations [2] Introduction [3] Introduction
Contexto: Padrão populacional de longa duração, desde o período colonial até o século XIX; vale para as médias das linhagens, não para cada família. · Limitações: Os dados genéticos mostram a assimetria entre linhagens paternas e maternas; não informam as circunstâncias de cada união, e as fontes usadas aqui não as detalham. "Consenso" refere-se à existência da assimetria, não a cada interpretação histórica. · Fraseado fiel às fontes: "sex-biased preferential mating" (Kehdy), "asymmetric genetic sex-biased admixture" (Souza). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: No século XIX e começo do XX, o Brasil recebeu uma grande imigração europeia, incentivada por autoridades como forma de "branquear" a população. As estimativas de número variam por fonte e período: cerca de 4 milhões (Kehdy e colegas) e cerca de 5,4 milhões de europeus e do Oriente Médio entre 1872 e 1975 (Pena e colegas); Pena propõe que essa imigração dissipou em boa parte diferenças regionais anteriores. [1] Conclusion [2] Abstract
Contexto: Imigração para o Brasil, séculos XIX e XX. · Limitações: As fontes dão números diferentes (cerca de 4 milhões, 5,4 milhões e 6 milhões) porque cobrem períodos e origens distintos; "branqueamento" é o termo usado pelas fontes para a política, descrita por Pena e colegas como "tinged with racist ideology". A proposta de que isso dissipou diferenças regionais é hipótese de Pena e colegas. · O texto "We propose" na fonte é hipótese; os números de imigrantes variam entre fontes. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Num estudo de 2011 com 40 marcadores em 934 brasileiros, a ancestralidade europeia total foi a predominante em todas as quatro regiões estudadas, de 60,6% no Nordeste a 77,7% no Sul. [2] Abstract
Contexto: Quatro regiões mais populosas do país; estimativa ponderada pelas categorias de cor do censo, para escapar da semântica regional da autoclassificação. · Limitações: Método e amostra diferentes dos do EPIGEN (marcadores INDEL, amostra por autoclassificação de cor, ponderação pelo censo); os dois trabalhos não são diretamente comparáveis cidade a cidade. · O artigo trata a relação entre cor autodeclarada e ancestralidade; esse tema está em outro post. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Uma revisão de 2019 reuniu 51 estudos, com 81 populações de 19 estados e das cinco regiões, e calculou médias ponderadas pelo número de pessoas: 68,1% de ancestralidade europeia, 19,6% africana e 11,6% ameríndia. [3] Abstract
Contexto: Estudos com marcadores autossômicos; revisão de escopo, não amostra aleatória do país. · Limitações: A média sem ponderação foi diferente (62,4% europeia, 22,6% africana e 14,7% ameríndia), e a diferença entre as duas não foi estatisticamente significativa; sete estados ficaram de fora. · A revisão de escopo soma estudos com amostragens diferentes; a média ponderada reduz, mas não elimina, o viés. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Na revisão de 2019, a contribuição europeia foi mais alta no Sul, a africana no Nordeste e a ameríndia no Norte. [3] Abstract
Contexto: Padrão entre regiões na média dos estudos incluídos. · Limitações: Há muita variação dentro das regiões (os autores citam diferenças entre Bahia e Ceará, ambos no Nordeste). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: As estimativas de ancestralidade dependem do tipo de marcador molecular e do método de amostragem usados. [3] Discussion
Contexto: Conclusão da revisão sobre estudos brasileiros. · Limitações: Em cidades com mais de um estudo, metade teve diferenças significativas entre tipos de marcador; mas as comparações envolvem amostras diferentes e devem ser lidas com cautela, segundo os autores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Origin and dynamics of admixture in Brazilians and its effect on the pattern of deleterious mutations
Kehdy, F. S. G.; Gouveia, M. H.; Machado, M. et al. (EPIGEN Brazil Consortium) · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1504447112 - PLOS ONE — The Genomic Ancestry of Individuals from Different Geographical Regions of Brazil Is More Uniform Than Expected
Pena, S. D. J. et al. · 2011 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0017063 - Genetics and Molecular Biology — A systematic scoping review of the genetic ancestry of the Brazilian population
Souza, A. M.; Resende, S. S.; Sousa, T. N.; Brito, C. F. A. · 2019 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1590/1678-4685-gmb-2018-0076
Histórico de alterações
- Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 19; conferência de trechos automatizada)