Zoologia

Enguia-europeia: o mar dos Sargaços é o berço, mas ninguém viu a desova

Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

A enguia-europeia (Anguilla anguilla) cresce em rios e lagoas da Europa e, há um século, se sabe que desova no mar dos Sargaços, no Atlântico, perto das Bermudas, porque as menores larvas foram pescadas ali. Mas nenhum ovo e nenhum adulto em desova foi coletado ou filmado. Em 2022, etiquetas de satélite mostraram adultos chegando à área, sem registrar a reprodução.

Em 1922, o dinamarquês Johannes Schmidt publicou "The breeding places of the eel", resultado de cerca de duas décadas de pesquisa e das expedições do navio Dana. Ele seguiu as larvas, chamadas leptocéfalos, rumo ao oeste: quanto mais longe da Europa, menores elas eram. A pista apontou o sul do mar dos Sargaços, onde vivem as enguias europeia e americana, com sobreposição parcial. A conclusão foi inferida das larvas e da rota dos adultos. Ovos e desova nunca foram vistos. Etiquetas eletrônicas só confirmaram, em 2022, que adultos chegam à região, e os cientistas ainda discutem se há outros pontos de desova.

Quase metade some no caminho

Num estudo com etiquetas que registram a rota, cerca de metade das enguias que migraram por mais de uma semana foi predada, em média 32 dias após a soltura. Dez ataques (cerca de 25%) ocorreram em mar aberto.

Duas espécies, um mar

A enguia-americana (Anguilla rostrata) também nasce no mar dos Sargaços. As duas espécies desovam em área parcialmente comum: a americana predomina no oeste, com cerca de 75% das capturas ali, e a europeia no leste, com cerca de 95%. As larvas tomam rumos opostos, para a América do Norte ou para a Europa.

Um pesquisador, duas décadas

Ernst Johannes Schmidt (1876–1933) passou cerca de 20 anos tentando descobrir onde nascem as enguias. Comandou expedições do Dana entre 1920 e 1922, financiadas pela Fundação Carlsberg, e voltou ao mar em 1928–1930. Em 1922, ele publicou a conclusão sobre o mar dos Sargaços.

A viagem dos adultos

Em 707 enguias etiquetadas, 87 deixaram a costa com dados utilizáveis. Seguiram em média 19,4 km por dia, mergulhando de dia e subindo à noite. Uma delas chegou aos Açores após 280 dias. Parte das enguias talvez chegue a tempo de desovar na primeira temporada, e parte só na seguinte.

Por que ainda não foi visto

A desova ocorre em alto-mar, em águas profundas e remotas, no inverno e primavera do hemisfério norte. Acompanhar um animal ao longo de milhares de quilômetros é difícil, e a etiqueta se solta ou o bicho é predado. Cada resposta nova mostra uma lacuna menor, mas a cena da desova segue sem registro.

Como sabemos

Os fatos centrais vêm de estudos revisados por pares e de biografia de Schmidt; a incerteza sobre o local exato está declarada no texto.

Em debate: A área clássica de Schmidt segue como a mais aceita, mas há quem proponha desova também perto da Dorsal Mesoatlântica. Sem ovos nem adultos em desova, a questão fica em aberto.

Fontes

  1. Science Advances (via PubMed Central) — Empirical observations of the spawning migration of European eels: the long and dangerous road to the Sargasso Sea
    consultada em 06/10/2026
  2. Scientific Reports, via DTU Orbit (Universidade Técnica da Dinamarca) — First direct evidence of adult European eels migrating to their breeding place in the Sargasso Sea
    consultada em 06/10/2026
  3. Linda Hall Library — Scientist of the Day: Johannes Schmidt
    consultada em 06/10/2026
  4. Proceedings of the Royal Society B (via PubMed Central) — Oceanic fronts in the Sargasso Sea control the early life and drift of Atlantic eels
    consultada em 06/10/2026
  5. Scientific Reports (via PubMed Central) — New clues on the Atlantic eels spawning behavior and area: the Mid-Atlantic Ridge hypothesis
    consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 2 · 06/10/2026 — Galeria ampliada: +1 imagem(ns)
  • Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão

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