Zoologia
Mimetismo: Bates (Amazônia, 1862) e Müller (Santa Catarina, 1879) explicaram por que borboletas se imitam
Publicado em 11/10/2026 · Última alteração em 11/10/2026
Na Amazônia, o inglês Henry Walter Bates viu que borboletas comestíveis podem copiar o visual de espécies de gosto ruim, e os predadores as poupam: é o mimetismo batesiano (1862). Em Santa Catarina, o alemão Fritz Müller mostrou o outro caso: espécies igualmente intragáveis que convergem para o mesmo padrão dividem o custo de ensinar os predadores (1879). É o mimetismo mülleriano.
Bates passou 11 anos na Amazônia, a partir de 1848, e enviou à Inglaterra mais de 14.000 exemplares, em sua maioria insetos; mais da metade era de espécies novas. Depois de ler Darwin, explicou pela seleção natural por que borboletas sem defesa se parecem com outras protegidas. Müller, que vivia em Santa Catarina, notou que Ituna e Thyridia, duas borboletas de grupos protegidos pelo gosto ruim, também se parecem, o que a explicação de Bates não cobria. Ele propôs que predadores jovens precisam aprender por experiência, e que um padrão compartilhado reparte as perdas. Hoje os dois mecanismos são ensinados lado a lado, e as borboletas Heliconius e Ithomiini são exemplos clássicos do segundo.
A conta de Müller
No exemplo numérico de Müller, 1.200 borboletas intragáveis precisam ser sacrificadas para as aves aprenderem. Se duas espécies se parecem, a perda é dividida por abundância: a de 2.000 indivíduos poupa 1.000 (50%); a de 10.000 poupa 200 (2%). A rara ganha 25 vezes mais.
Bates e a Amazônia
Bates chegou à Amazônia em 1848 e ficou 11 anos. Voltou em novembro de 1859, ano da publicação de A origem das espécies, e usou a seleção natural para explicar o que vira entre as borboletas. Na prancha de seu artigo de 1862, Dismorphia, comestíveis, aparece ao lado de Mechanitis, de Tefé, hoje conhecidas como protegidas por substâncias químicas.
Müller e o que faltava
Müller notou que Ituna e Thyridia se parecem, mas ambas pertencem a grupos já protegidos pelo gosto ruim. Quem seria então o enganado? Ninguém: a semelhança serve de alerta comum. Ele escreveu de Itajaí, tinha recursos mínimos e correspondência como principal contato científico; Darwin chamou a atenção de Meldola para o artigo, que foi traduzido em Londres.
Os anéis de Heliconius e Ithomiini
Em uma mesma região, muitas espécies compartilham um padrão e formam um anel de mimetismo; em alguns há mais de dez espécies. Heliconius é dos gêneros mais estudados desse fenômeno, e H. erato e H. melpomene mudam de padrão de uma região para outra, com até 30 padrões de cor descritos. Entre as Ithomiini, as defesas são alcaloides.
Duas categorias ou um espectro
Os manuais separam os dois tipos, mas a distinção não é tão limpa. Sherratt (2008) lembra que a defesa varia de espécie para espécie, e que uma espécie pouco defendida pode se aproveitar do sinal de outra bem defendida. Nesses casos, o mimetismo se comporta como batesiano, mesmo entre espécies tidas como müllerianas.
Como sabemos
Os fatos históricos e o argumento de Müller vêm do texto original traduzido (1879) e de fontes acadêmicas.
Em debate:
- Fato estabelecido: Bates viajou à Amazônia em 1848, ficou 11 anos na região e enviou mais de 14.000 exemplares, principalmente insetos; mais da metade eram espécies ainda não registradas. [1]
- Fato estabelecido: Bates voltou à Inglaterra em novembro de 1859 e publicou o trabalho nos Transactions of the Linnean Society, vol. 23, em 1862. [1]
- Fato estabelecido: Bates propôs que borboletas pouco defendidas podem evoluir para se parecer com espécies bem protegidas que os predadores evitam, e que a seleção natural aprimora uma semelhança inicial. [1] [4]
- Fato estabelecido: Na prancha de Bates, Dismorphia (Pieridae) e Mechanitis (Nymphalidae) de Tefé e Patia (Pieridae) e Methona (Nymphalidae) do rio Cupari ilustram o mimetismo; as ninfalídeas são hoje conhecidas como quimicamente protegidas. [1]
- Fato estabelecido: No mimetismo batesiano, uma espécie comestível imita uma defendida; no mülleriano, espécies defendidas compartilham o mesmo padrão de alerta. [3] [4]
- Fato estabelecido: Müller publicou na revista Kosmos, em maio de 1879, o artigo sobre Ituna e Thyridia, traduzido por Raphael Meldola para a Sociedade Entomológica de Londres. [2] [5]
- Fato estabelecido: Müller afirmou que a semelhança entre Ituna e Thyridia não vem de parentesco próximo, mas de imitação, e que ambas pertencem a grupos protegidos pelo gosto ruim, caso que a explicação usual não cobria. [2]
- Fato estabelecido: Müller escreveu de Itajaí, em Santa Catarina, e comparou a abundância de borboletas parecidas naquela região com a de outras áreas da província. [2]
- Fato estabelecido: Müller argumentou que, se cada ave aprende por experiência, certo número de borboletas intragáveis precisa morrer; duas espécies parecidas dividem essa perda, e a vantagem relativa segue o quadrado da razão entre suas abundâncias. [2]
- Fato estabelecido: No exemplo numérico de Müller, com 1.200 vítimas necessárias, espécies de 2.000 e 10.000 indivíduos perdem 200 e 1.000; a vantagem relativa da rara é 25 vezes maior, para populações na razão de 1 para 5. [2]
O valor de 2.000 indivíduos foi reconstituído a partir da razão 1:5 e do total de 10.000 citados no texto, pois a digitalização do original traz um erro de leitura nesse número. - Fato estabelecido: Para Müller, quando várias espécies intragáveis são igualmente comuns, a semelhança traz vantagem quase igual a todas e já não se pode dizer qual serviu de modelo. [2] [5]
- Fato estabelecido: Müller emigrou para o Brasil em 1852 e foi professor no Liceu Provincial do Desterro (1856-1865), pesquisador em Blumenau (1865-1876) e naturalista viajante do Museu Nacional (1876-1891). [3] [5]
- Interpretação: Para Sherratt, a hipótese de Müller é possivelmente o primeiro modelo matemático formal em apoio a uma hipótese evolutiva. [3]
Atribuição feita por revisões e por historiadores; é interpretação, não consenso formal. - Fato estabelecido: Heliconius está entre os exemplos mais celebrados de mimetismo mülleriano; H. erato e H. melpomene variam ao longo da distribuição, com até 30 padrões de cor. [3]
- Fato estabelecido: Borboletas Dismorphiinae (Pieridae), comestíveis, imitam Ithomiini (Nymphalidae), defendidas por alcaloides; as duas famílias divergiram há mais de 90 milhões de anos. [4]
- Interpretação: Os dois tipos de mimetismo podem ser extremos de um contínuo, e alguns casos tidos como müllerianos podem ser quase batesianos. [3]
Proposta de Sherratt (2008), não posição consensual.
Fontes
- Linnean Society of London — Henry Walter Bates (1825–1892)
consultada em 11/10/2026 - Darwin Online / Entomological Society of London — Ituna and Thyridia; a remarkable case of mimicry in butterflies (tradução de Meldola, Proc. Ent. Soc. London, 1879)
consultada em 11/10/2026 - PubMed Central — The evolution of Müllerian mimicry (Sherratt, Naturwissenschaften, 2008)
consultada em 11/10/2026 - Encyclopédie de l'environnement (Univ. Grenoble Alpes) — Mimicry: butterflies of a feather flock together
consultada em 11/10/2026 - Revista História da Ciência e Ensino (PUC-SP) — Os poemas de Fritz Müller como fonte e inspiração para estudos em história da ciência e educação ambiental
consultada em 11/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 11/10/2026 — primeira versão