Ciências da Terra

Milankovitch: como sedimentos do fundo do mar ligaram as eras glaciais aos ciclos da órbita da Terra

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Tempo e clima

Em 1976, Hays, Imbrie e Shackleton analisaram sedimentos do fundo do mar no Hemisfério Sul, com 450 mil anos de registro, e viram o clima oscilar em períodos de 23 mil, 42 mil e cerca de 100 mil anos: os mesmos de precessão, obliquidade e excentricidade da órbita da Terra. O encaixe é claro nos dois ciclos mais curtos; o de 100 mil anos, o mais forte nos dados, segue sem explicação consensual.

A teoria de Milankovitch diz que três variações regulares da geometria Terra-Sol alteram a energia solar recebida em cada latitude e estação: a excentricidade (quanto a órbita se afasta do círculo), a obliquidade (a inclinação do eixo em relação ao plano da órbita) e a precessão (a direção para onde o eixo aponta). Ela não muda a luz total do Sol; muda onde e quando ela chega. A prova veio de testemunhos de sedimento marinho: a razão entre isótopos de oxigênio (δ18O) na carapaça de foraminíferos, microrganismos de concha de calcita, depende da temperatura e do volume de gelo no planeta. Isso transforma o sedimento numa curva do tamanho das calotas ao longo do tempo, que se compara com os ciclos orbitais calculados.

Dois graus e meio que mudam as estações

Num ciclo médio de cerca de 40 mil anos, o eixo da Terra varia de 22,1° a 24,5° de inclinação, uma diferença de apenas 2,4°. Segundo a NASA, mais inclinação dá verões mais quentes e invernos mais frios; menos, o contrário.

Três ciclos, uma redistribuição de luz

Excentricidade, obliquidade e precessão não alteram a quantidade total de luz do Sol; mudam como ela se distribui pelas latitudes e estações. Segundo a NASA, a excentricidade varia num ciclo de 90 mil a 100 mil anos e a obliquidade, de 22,1° a 24,5°, num ciclo de cerca de 40 mil. A precessão muda o momento do ano em que a Terra está mais perto do Sol. A combinação dos três cria um padrão de verões fracos ou fortes no Hemisfério Norte.

Por que sedimento é um bom arquivo

Os foraminíferos são microrganismos com concha de calcita; o δ18O dessa concha depende da temperatura da água e do volume de gelo no planeta. Por isso uma pilha de sedimento do fundo do mar funciona como registro das glaciações. Segundo Lisiecki e Raymo, o δ18O bentônico, de organismos do fundo, produz pilhas melhores que o planctônico, porque o oceano profundo é mais uniforme em temperatura e salinidade. O limite é que um registro isolado não separa gelo de temperatura.

O que a prova de 1976 mostrou, e o que não

O resultado central é uma coincidência de períodos: 23 mil, 42 mil e cerca de 100 mil anos nos sedimentos, os mesmos da órbita. A correlação mais firme é a de obliquidade, com fase constante. Para a excentricidade, os próprios autores disseram que seria preciso supor não linearidade. Esse é o ponto de partida do problema dos 100 mil anos: o ciclo de menor forçamento é o mais forte no clima.

Questões abertas: 100 mil anos e Pleistoceno médio

Há cerca de 1 milhão de anos, o ritmo dominante passou de 40 mil para 100 mil anos, sem mudança clara na órbita. Propostas incluem erosão sob a calota Laurentide, calotas mais espessas, terminações a cada dois ou três ciclos de obliquidade e retroalimentações do ciclo do carbono. São hipóteses concorrentes, e as explicações baseadas em registros calibrados pela órbita enfrentam risco de circularidade.

Como sabemos

O mecanismo e o resultado de Hays et al. 1976 vêm de página da NASA e do resumo do artigo; os pontos em debate vêm de duas revisões abertas e do artigo de Lisiecki e Raymo.

Em debate: Os ciclos glaciais de cerca de 100 mil anos seguem a excentricidade, cuja variação de energia solar é a menor das três, e a mudança de 40 mil para 100 mil anos, há cerca de 1 milhão de anos, não tem causa orbital clara. Explicações baseadas em gelo, carbono ou retroalimentações internas competem, sem consenso.

Fontes

  1. NASA Earth Observatory — Milutin Milankovitch
    Steve Graham (NASA Earth Observatory) · 2000 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
  2. Science, 194(4270), 1121–1132 — Variations in the Earth's Orbit: Pacemaker of the Ice Ages
    Hays, J. D.; Imbrie, J.; Shackleton, N. J. · 1976 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1126/science.194.4270.1121
  3. Paleoceanography, 20, PA1003 — A Pliocene-Pleistocene stack of 57 globally distributed benthic δ18O records
    Lisiecki, L. E.; Raymo, M. E. · 2005 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1029/2004PA001071
  4. Climate Dynamics, 60, 4083–4098 — The Mid-Pleistocene Transition: a delayed response to an increasing positive feedback?
    Shackleton, J. D.; Follows, M. J.; Thomas, P. J.; Omta, A. W. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1007/s00382-022-06544-2
  5. Journal of the Royal Society of New Zealand — A dynamical systems perspective on the Mid-Pleistocene Transition
    Golledge, N. R. · 2025 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1080/03036758.2025.2495317
Histórico de alterações
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