Paleontologia
Microraptor tinha asas nos braços e nas pernas, e reabriu o debate sobre como o voo começou
Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Em 2003, fósseis do Cretáceo da China mostraram um dromeossaurídeo, o Microraptor, com penas longas nas quatro patas. Os autores concluíram que ele provavelmente planava, um estágio intermediário antes do voo batido. Testes com modelos e simulações de computador mantêm viva a velha disputa: o voo veio de planadores nas árvores ou de corredores que usavam as asas no chão?
Há mais de um século duas ideias disputam a origem do voo das aves. Na versão "das árvores para baixo", ancestrais pequenos subiam em galhos e planavam. Na versão "do chão para cima", ancestrais corredores usavam asas incipientes para ganhar tração, saltar ou subir inclinações. O Microraptor, de cerca de 130 a 110 milhões de anos, entrou na conversa em 2003 porque tem penas assimétricas de voo também nas pernas. Isso não resolveu o debate: o que um animal extinto fazia com essas penas só pode ser inferido, e os modelos usados partem de escolhas sobre a postura das asas traseiras. As penas em si, sozinhas, não surgiram para voar; essa é outra história, contada em outro post.
Quatro asas que nenhuma ave tem
Num estudo de 16 espécimes, as penas das pernas do Microraptor formam duas camadas, com penas longas e assimétricas ligadas ao metatarso. Os autores dizem que essa configuração não existe em nenhuma ave, atual ou fóssil, nem em outro parente próximo.
Quatro asas, uma ideia de 2003
Em 2003, Xu Xing e colegas descreveram dromeossaurídeos basais da China como animais de quatro asas, que provavelmente planavam. O Microraptor tinha penas longas nos braços, na cauda e nas pernas. Para os autores, aquilo era um estágio intermediário entre animais sem voo e o voo batido. Foi uma inferência a partir da forma das penas, não uma observação de voo.
Como as asas traseiras ficavam
O debate ficou na postura das penas das pernas. Chatterjee e Templin propuseram em 2007 uma configuração em biplano, com o par traseiro abaixo do dianteiro. Em 2010, Alexander e colegas testaram modelos de tamanho natural: as asas traseiras abertas para os lados foram a opção mais viável. O mesmo estudo reconhece que essas penas atrapalhariam a corrida em terra.
Simulação e fósseis novos
Em 2025, uma equipe analisou 16 espécimes com luz fluorescente induzida por laser e descreveu seis tipos de penas na perna, uma disposição que não existe em nenhuma ave conhecida. Em 2026, uma simulação por computador sugeriu que o animal explorava vórtices de ar nas bordas das asas. Os autores leem isso como apoio a um voo que começou pelo planeio, mas é uma interpretação.
O argumento do chão
O outro lado tem base em animais vivos. Em aves galiformes, o bater de asas aumenta a tração das patas quando elas sobem uma inclinação, a corrida em rampa assistida por asas. Kenneth Dial, em 2003, usou esse comportamento para discutir o papel de asas incipientes em terópodes com penas. Isso mostra uma função possível, não a que de fato ocorreu.
Como sabemos
Os fósseis e as medidas são sólidos; a origem do voo continua sendo uma disputa em aberto e o texto a trata assim.
Em debate: O Microraptor foi usado como argumento para o planeio a partir de árvores, mas a posição das asas traseiras é inferida e modelos diferentes dão cenários diferentes. Aves vivas que usam as asas para subir inclinações sustentam a ideia de que asas incipientes ajudavam no chão. Estudos recentes apontam para um animal que fazia as duas coisas ou algo intermediário.
- Consenso científico: Em 2003, Xu Xing e colegas descreveram dromeossaurídeos basais da China como animais de quatro asas que provavelmente planavam, o que representaria um estágio intermediário rumo ao voo batido. [1]
A conclusão original de 2003 é de planeio provável; ela é posta à prova desde então. - Fato estabelecido: O Microraptor viveu no Cretáceo Inferior, entre cerca de 130 e 110 milhões de anos atrás. [3]
- Fato estabelecido: A pesquisa de 2025 com 16 espécimes de Microraptor descreve penas ao longo de toda a perna, exceto nos dedos do pé, em duas camadas de penas longas e de vexilo assimétrico ligadas ao metatarso. [4]
- Evidência forte: Segundo os autores de 2025, a disposição das penas da perna do Microraptor não existe em nenhuma ave atual ou fóssil, nem em outro parvo não aviano descrito. [4]
Afirmação dos autores do estudo, com base em 16 espécimes. - Estimativa: As estimativas de massa dos 16 espécimes variam de 0,213 kg a 2,13 kg, o que sugere grande variação entre indivíduos ou mais de uma espécie na amostra. [4]
Massas calculadas, não medidas. - Evidência forte: Em testes com modelos de tamanho natural baseados em um molde de esqueleto, a configuração de asas traseiras abertas para os lados foi a mais viável aerodinâmica e estruturalmente; o ângulo médio de planeio foi de 13,7° e a razão sustentação-arrasto, de 4,1 para 1. [2]
Resultados de modelos físicos, não de um animal vivo; o molde representa um indivíduo maior, provavelmente de outra espécie semelhante ao M. gui. - Estimativa: O planeio mais longo medido nos modelos foi de 23,9 m a partir de 3,33 m de altura, e a velocidade estimada para o animal vivo foi de 10,6 m/s. [2]
Valores extrapolados de modelos. - Em debate: Os autores do estudo de 2010 afirmam que penas nas asas traseiras, embora eficazes no planeio, atrapalhariam seriamente a locomoção em terra, e concluem que o protoave era arborícola. [2]
É a conclusão dos autores do estudo; outros pesquisadores contestam o espécime usado e a inferência. - Fato estabelecido: Uma configuração alternativa, em biplano, com as asas traseiras abaixo das dianteiras, foi proposta por Chatterjee e Templin em 2007. [2]
- Hipótese: Uma simulação de dinâmica de fluidos publicada em 2026 sugere que o Microraptor aproveitava vórtices na borda de ataque das asas dianteiras e traseiras e nas pontas das asas traseiras durante o planeio. [3]
Modelo computacional de asas rígidas, testado com ângulos de ataque de 0° a 60° e velocidades de 5 a 15 m/s. - Interpretação: Os autores da simulação de 2026 interpretam o resultado como apoio à hipótese de que o voo começou pelo planeio. [3]
Interpretação dos autores, não consenso. - Fato estabelecido: Em aves galiformes vivas, o bater das asas gera forças voltadas para o substrato e melhora a tração das patas ao subir inclinações, comportamento chamado de corrida em rampa assistida por asas (WAIR). [5]
- Hipótese: Para o autor da pesquisa sobre WAIR, o comportamento ajuda a pensar no papel de asas incipientes em dinossauros terópodes com penas. [5]
Inferência a partir de aves vivas; não prova o que os dinossauros faziam. - Interpretação: Os autores de 2025 sugerem que a disposição das penas do Microraptor indica comportamento complexo, adaptado a ambientes arborícolas e terrestres. [4]
Inferência dos autores sobre o comportamento de um animal extinto.
Fontes
- Nature (Xu et al., 2003), registro no Europe PMC/PubMed — Four-winged dinosaurs from China
consultada em 06/10/2026 - PNAS (Alexander et al., 2010), PubMed Central — Model tests of gliding with different hindwing configurations in the four-winged dromaeosaurid Microraptor gui
consultada em 06/10/2026 - PNAS (Hefler et al., 2026), PubMed Central — Microraptor reveals specialized gliding capabilities in multiwinged early paravians
consultada em 06/10/2026 - BMC Ecology and Evolution (Chotard et al., 2025), PubMed Central — New information on the Hind limb feathering, soft tissues and skeleton of Microraptor (Theropoda: Dromaeosauridae)
consultada em 06/10/2026 - Science (Dial, 2003), registro no PubMed — Wing-assisted incline running and the evolution of flight
consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão