Corpo humano
O corpo tem mais ou menos tantas bactérias quanto células humanas, não 10 vezes mais
Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Por décadas, repetiu-se que as bactérias do corpo superam as células humanas numa proporção de 10 para 1. A conta nasceu num cálculo de cabeça de 1972. Em 2016, pesquisadores do Instituto Weizmann refizeram a estimativa para um homem de referência de 70 kg: cerca de 38 trilhões de bactérias e 30 trilhões de células humanas, uma razão de aproximadamente 1,3 para 1.
O número antigo vinha de uma premissa simples: cerca de 100 bilhões de bactérias por grama de conteúdo intestinal, multiplicadas por um litro de volume do trato digestivo. Ninguém o havia conferido, e ele foi citado por décadas. A revisão separou o que cada lado do cálculo contém. Quase todas as bactérias estão no cólon. Do lado humano, cerca de 84% das células são hemácias, minúsculas, que ocupam pouco espaço, mas somam muitas unidades. O resultado é uma proporção próxima de 1 para 1, com incerteza considerável: a contagem bacteriana pode ir de cerca de 30 a 50 trilhões e varia de pessoa para pessoa. A estimativa vale só para bactérias; vírus e outros microrganismos não entram na conta.
A razão muda com o banheiro
Como o número de bactérias e o de células humanas são tão próximos, o resultado pode depender do momento. Segundo os autores, cada evacuação retira entre um quarto e um terço do conteúdo do cólon, o que bastaria para a razão passar, por um tempo, a favorecer as células humanas.
De onde veio o 10 para 1
A razão de 10 para 1 tem origem num texto de 1972. Seu autor, Thomas Luckey, supôs cerca de 100 bilhões de bactérias por grama de conteúdo intestinal e um litro de capacidade do trato digestivo. Era uma conta de ordem de grandeza, nunca pensada para ser citada com precisão. Mesmo assim, o número passou de artigo em artigo, sem ser refeito, até virar uma frase comum em livros e palestras. O biólogo molecular Judah Rosner chamou o caso de 'fato falso', que teria sobrevivido por ser um número redondo e de forte efeito retórico.
Como a conta foi refeita
Ron Sender, Shai Fuchs e Ron Milo, do Instituto Weizmann, partiram da pergunta de quantas células de cada tipo cabem num homem de referência de 70 kg. Do lado humano, somaram os tipos celulares com dados de volume de sangue e concentrações. Do lado bacteriano, calcularam o volume do cólon e a densidade de bactérias no conteúdo. O trabalho surgiu durante a preparação do livro Cell Biology by the Numbers. Saiu na Cell, em janeiro de 2016, e foi detalhado na PLoS Biology em agosto.
Por que as hemácias pesam na conta
A razão 10 para 1 supunha que as bactérias fossem cerca de mil vezes menores que as células humanas. Mas as células do corpo são muito variadas. As hemácias são bem menores que as de músculo ou gordura, e respondem por cerca de 84% das células humanas. Já as bactérias do intestino são maiores do que o tamanho padrão usado na conta antiga. Ao corrigir os dois lados, a razão cai para cerca de 1,3 bactéria para cada célula humana.
O que a revisão não diz
A correção não diminui o papel do microbioma. Ela só ajusta a contagem de células, e apenas de bactérias: vírus e outros microrganismos não entraram. Os próprios autores reconhecem incerteza e variação entre pessoas; a razão pode ser cerca de 30% maior em mulheres, que têm menos sangue. Como as duas populações são próximas, a razão pode mudar de um dia para o outro, já que cada evacuação retira de um quarto a um terço do conteúdo do cólon.
Como sabemos
A revisão de 2016 é publicada em periódicos de referência e confirmada por três textos independentes; os valores aparecem como estimativas com incerteza.
Em debate: A razão de 1,3 para 1 é uma estimativa para um homem adulto de referência, com incerteza declarada pelos próprios autores. Para pessoas reais, ela varia com o sexo, o volume de sangue e o conteúdo do intestino. O que a revisão derrubou é o 10 para 1, não a importância do microbioma.
- Fato estabelecido: Durante décadas, a literatura citou que as bactérias do corpo humano superam as células humanas numa razão de 10 para 1. [1] [2]
- Fato estabelecido: A origem da razão de 10 para 1 é um cálculo aproximado de 1972, de Thomas Luckey, que multiplicou 10^11 bactérias por grama de conteúdo intestinal por 1 litro de capacidade do trato digestivo. [1] [2]
- Estimativa: Em 2016, Sender, Fuchs e Milo, do Instituto Weizmann, estimaram para um homem de referência de 70 kg cerca de 3,8 x 10^13 bactérias e 3,0 x 10^13 células humanas. [1] [2]
Estimativa com incerteza declarada (25%) e variação de cerca de 50% entre indivíduos; o número arredondado costuma ser citado como 38 e 30 trilhões. - Estimativa: A razão entre bactérias e células humanas estimada é de cerca de 1,3 para 1. [1] [2]
Vale para o homem de referência de 70 kg; a razão difere entre pessoas e pode ser cerca de 30% maior em mulheres, por terem menos sangue. - Estimativa: A estimativa bacteriana pode ir de cerca de 30 a 50 trilhões. [2]
Faixa de incerteza citada pela Science News. - Estimativa: Cerca de 84% das células humanas do corpo são hemácias. [1]
Contagem derivada de dados de volume sanguíneo e concentração celular. - Evidência forte: A grande maioria das bactérias do corpo está no cólon; os demais locais contribuem de forma desprezível. [1]
- Estimativa: As bactérias somam cerca de 0,2 kg, aproximadamente 0,3% da massa do homem de referência. [1]
Cálculo do artigo da PLoS Biology para o homem de referência. - Estimativa: Cada evacuação reduz o conteúdo do cólon de um quarto a um terço, o suficiente para alterar a razão a favor das células humanas por algum tempo. [1] [3]
A redução do conteúdo do cólon está no artigo original; a consequência para a razão é a leitura dos autores, apresentada no comunicado do Weizmann. - Fato estabelecido: A estimativa considera só bactérias; vírus e outros microrganismos não entram na contagem. [2]
- Fato estabelecido: O trabalho foi publicado na revista Cell, em janeiro de 2016, e detalhado na PLoS Biology, em agosto de 2016. [1] [3]
- Evidência forte: A estimativa antiga assumia bactérias muito menores que as células humanas, e as bactérias intestinais são maiores do que o volume padrão usado naquela conta. [3]
Fontes
- PLoS Biology, via PubMed Central — Revised Estimates for the Number of Human and Bacteria Cells in the Body
consultada em 04/10/2026 - Science News (Society for Science) — Body's bacteria don't outnumber human cells so much after all
consultada em 04/10/2026 - Weizmann Institute of Science, via ScienceDaily — Germs, humans and numbers: New estimate revises our microbiome numbers downwards
consultada em 04/10/2026
Histórico de alterações
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