Ecologia
Metarhizium em pasto de Rondônia: ninfas de cigarrinha caíram até 94%, mas a área sem fungo também despencou
Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026
Em ensaio de campo em Corumbiara (RO), as ninfas de cigarrinha-das-pastagens caíram de cerca de 153 para 10 a 23 por m² em 75 dias nas parcelas com Metarhizium anisopliae, queda de 85% a 94%. Mas a área sem fungo também caiu, de 154,5 para 28,5 por m²; descontada essa queda, o efeito atribuível ao fungo seria de cerca de 20% a 66% (cálculo nosso). Um só ensaio, numa estação, não diz como o clima altera o resultado.
As cigarrinhas-das-pastagens (família Cercopidae) são insetos sugadores; as ninfas sugam a seiva de raízes e caules na base do capim, escondidas sob uma espuma. Em Rondônia, os picos ocorrem de dezembro a fevereiro, no período chuvoso. Metarhizium anisopliae é um fungo entomopatogênico, isto é, que infecta e mata insetos; em cana-de-açúcar, é usado em larga escala contra a cigarrinha-da-raiz. Em pastagens, a principal limitação apontada na literatura brasileira é a inconsistência dos resultados a campo. O ensaio de Corumbiara, uma dissertação da UFSCar com apoio da Embrapa Meio Ambiente, testou três doses, duas formulações e uma ou duas aplicações do isolado ESALQ 1037.
A espuma é abrigo, não sujeira
A espuma branca na base do capim abriga a ninfa: segundo a dissertação, ela a protege da dessecação e dos inimigos naturais. Por isso as contagens do ensaio exigiram abrir a touceira e retirar as ninfas com uma espátula, quadrado a quadrado.
Como foi medido
Havia 13 tratamentos (três doses, duas formulações, uma ou duas aplicações, mais a testemunha) em quatro repetições, com parcelas de 100 m². Em cada parcela, um quadrado de 0,25 m x 0,25 m era lançado ao acaso em quatro pontos e as ninfas eram contadas, no dia zero e aos 15, 32, 45, 61 e 75 dias. A eficiência divulgada compara cada contagem com a contagem inicial da própria parcela.
O que a testemunha mostra
A área só com água caiu de 154,50 para 28,50 ninfas por m², cerca de 82%. Parte da queda pode ser sazonal, parte pode ser dispersão do fungo das parcelas vizinhas (hipótese dos autores, não medida). Descontada a testemunha com uma correção do tipo Abbott, nosso cálculo dá de 20% a 66% de redução atribuível ao fungo aos 75 dias, em vez de 85% a 94%.
Dose, formulação e número de aplicações
Segundo a dissertação, a maior dose foi a mais eficiente e as formulações pó molhável e concentrado emulsionável não diferiram. O trabalho curto da Embrapa sobre o mesmo ensaio ressalva que as maiores reduções, com duas aplicações na dose maior, não diferiram de modo significativo dos demais tratamentos. Isso limita o peso da conclusão sobre dose.
Por que o resultado varia a campo
A literatura citada lista isolado, dose, formulação, método de aplicação e variações ambientais como fontes possíveis de inconsistência, mas o ensaio não comparou climas. Em cana-de-açúcar, estudos anteriores obtiveram infecção de 16% a 88%, e num campo paulista metade dos isolados de M. anisopliae vinha de cepas nativas. Em outro lugar, as cigarrinhas sumiram sozinhas com o fim das chuvas.
Como sabemos
Dados do ensaio vêm de uma dissertação lida integralmente nos capítulos de resultados, mas há inconsistências internas (datas, doses) e a correção pela testemunha é cálculo nosso.
- Fato estabelecido: O ensaio foi feito em pasto de capim-Marandu em Corumbiara (RO), em blocos casualizados com 13 tratamentos e quatro repetições; a infestação inicial era de 152,75 a 156,00 ninfas vivas por m², bem acima do nível de controle de 20 a 25 por m² citado pela dissertação. [1] Cap. 4.2, Eficiência de controle
Contexto: Um único ensaio, em uma propriedade (Sítio Daiane), com pasto de cerca de quatro anos sob pastejo rotacionado e histórico de altas infestações. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em Rondônia os picos populacionais das cigarrinhas-das-pastagens ocorrem entre dezembro e fevereiro, no período chuvoso, e o ensaio foi conduzido nessa época (dezembro de 2008 a março de 2009). [1] Cap. 3.1, Caracterização do local
Contexto: Rondônia; clima Aw de Köppen, com estação chuvosa de outubro a abril. · Limitações: O resumo da dissertação e o resumo em português do trabalho da Embrapa dão dezembro de 2007 a fevereiro de 2008; as datas dos tratamentos e das tabelas (14/12/2008, 17/01/2009) indicam 2008-2009, que adotamos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Nas parcelas tratadas com Metarhizium anisopliae, as ninfas vivas caíram de cerca de 153 para 9,75 a 22,50 por m² aos 75 dias, o que a dissertação descreve como eficiência de controle de 85,30% a 93,72%. [1] Cap. 4.2, Tabela 2, coluna dos 75 dias, T01 a T13
Contexto: Isolado ESALQ 1037, produto Metarril, três doses, duas formulações, uma ou duas aplicações; contagens aos 0, 15, 32, 45, 61 e 75 dias. · Limitações: A percentagem é a queda em relação à contagem inicial da própria parcela, não corrigida pela testemunha (ver a4 e a5). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A área testemunha, pulverizada só com água, também teve queda forte: de 154,50 ninfas por m² no início para 28,50 aos 75 dias, uma redução de cerca de 82% pelo nosso cálculo. [1] Cap. 4.2, Tabela 2, coluna dos 75 dias, T01 a T13 (a última é a testemunha)
Contexto: Testemunha pulverizada apenas com água (cap. 3.5). · Limitações: A porcentagem de queda da testemunha (1 - 28,50/154,50 = 0,82) é cálculo nosso a partir da Tabela 2. A dissertação não discute a causa da queda; a hipótese que ela apresenta é a dispersão horizontal do fungo (ver a8). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Descontando a queda da testemunha (correção do tipo Abbott, feita por nós), a redução atribuível ao fungo aos 75 dias fica entre cerca de 20% (menor dose, pó molhável, tratamento T01) e cerca de 66% (maior dose, concentrado emulsionável, T12), bem abaixo dos 85% a 94% divulgados. [1] Cap. 4.2
Contexto: Aplica-se ao ensaio de Corumbiara, aos 75 dias. · Limitações: Cálculo nosso: 1 - (contagem aos 75 dias / contagem inicial do tratamento) / (28,50 / 154,50). T01: 1 - (22,50/152,75)/(28,50/154,50) = 0,20; T12: 1 - (9,75/155,25)/(28,50/154,50) = 0,66. A dissertação não faz essa correção. As letras de Tukey da Tabela 2 indicam que todos os tratados diferem da testemunha aos 75 dias, o que não equivale a dizer que o fungo causou toda a diferença. · Estimativa nossa, não resultado da fonte. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Entre as doses testadas (1,0, 1,5 e 2,0 x 10^9 conídios viáveis por hectare), a maior foi a mais eficiente, e as formulações pó molhável e concentrado emulsionável não diferiram de modo significativo. [1] Cap. 4.2 [2] Resultados e Discussão
Contexto: Ensaio de Corumbiara; o número de aplicações (uma ou duas) também foi testado. · Limitações: O trabalho curto da Embrapa (f2, mesmo estudo) diz que as maiores reduções com duas aplicações na dose maior não diferiram significativamente dos demais tratamentos, o que enfraquece a conclusão de superioridade da dose maior. As doses estão como a fonte as escreve; são muito inferiores às citadas na mesma dissertação para outros trabalhos (5 x 10^11 a 1 x 10^12 conídios/ha), possível erro de grafia na fonte. Nada aqui é recomendação de dose. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: No pasto do ensaio predominava Mahanarva fimbriolata (51% dos adultos coletados), seguida de Deois flavopicta (29%), Notozulia entreriana (15%) e Deois incompleta (5%); os resultados valem para essa mistura de espécies. [1] Cap. 4.1, Espécies
Contexto: Adultos coletados com rede de varredura em 13/12/2008, antes da primeira aplicação. · Limitações: A própria dissertação diz que M. fimbriolata não é inseto típico de pastagens cultivadas e é mais importante em cana-de-açúcar; a composição de espécies varia entre regiões. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os autores consideram o resultado promissor, mas preliminar: a aplicação foi feita no último pico populacional da praga e seria preciso estudar melhor o uso do fungo antes de programas de manejo integrado em Rondônia. Eles também sugerem a dispersão horizontal do fungo como explicação para a queda na testemunha. [1] Cap. 4.2
Contexto: Parcelas de 10 m x 10 m separadas por corredores de 10 m. · Limitações: Dispersão horizontal é hipótese dos autores, não foi medida (não se contou insetos infectados nas parcelas-testemunha). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A dissertação aponta como principal limitação do uso do Metarhizium contra cigarrinhas-das-pastagens a inconsistência dos resultados do fungo a campo. [1] Cap. 1, Introdução
Contexto: Afirmação da introdução, com base na literatura brasileira. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Segundo a dissertação, que cita Silveira Neto e colaboradores (1994), a inconsistência pode estar ligada ao isolado, à dose, ao número de aplicações, à formulação, ao método de aplicação, ao descumprimento das recomendações e a variações ambientais. [1] Cap. 1, Introdução
Contexto: Fonte de segunda mão: leitura da dissertação, não do trabalho de 1994. · Limitações: É lista de fatores possíveis; o ensaio de Corumbiara não separou o efeito de cada um nem comparou climas. · Lista de explicações possíveis citada de outro autor; não testada no ensaio. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Segundo estimativa citada por pesquisadores da ESALQ/USP, cerca de 2 milhões de hectares recebem Metarhizium anisopliae por ano no Brasil contra cigarrinhas, sobretudo na cana-de-açúcar, num programa que eles chamam de um dos mais bem-sucedidos de controle biológico com fungos no mundo. [3] Resumo
Contexto: Cana-de-açúcar (cigarrinha-da-raiz, Mahanarva); a estimativa vem de citação no artigo, não de levantamento do próprio estudo. · Limitações: O adjetivo bem-sucedido é avaliação dos autores do artigo, que atuam no tema; não há aqui comparação com outros programas. · Estimativa e avaliação atribuídas aos autores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Estudos anteriores, em cana-de-açúcar, registraram taxas de infecção de cigarrinhas entre 16% e 88% após a aplicação de cepas de M. anisopliae, variação que os autores atribuem à diversidade de condições experimentais e de métodos de medida. [3] Introdução
Contexto: Revisão feita pelos autores do artigo de 2019 sobre estudos em cana; não é pasto. · Limitações: Os estudos citados não foram lidos por nós; a explicação é hipótese dos autores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Num campo de cana em Iracemápolis (SP), a cepa aplicada ESALQ1604 foi recuperada de cigarrinhas por até 60 dias, mas a taxa de infecção não passou de 50% e metade dos isolados de M. anisopliae recuperados dos insetos era de cepas nativas, não da aplicada. [3] Discussão
Contexto: Um campo pulverizado e um não pulverizado em cana, com marcadores moleculares (microssatélites); sem cigarrinhas no talhão não pulverizado nas datas de coleta. · Limitações: Aos 7, 30 e 60 dias a cepa aplicada respondeu por 50%, 50% e 70,5% dos isolados de M. anisopliae dos insetos, em amostras pequenas (n = 19, 1 e 12). Um só campo; não mede a queda populacional causada pelo fungo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Nesse campo de cana, 90 dias depois da aplicação não havia mais cigarrinhas; os autores atribuem isso, como provável, ao fim da estação chuvosa e às temperaturas mais baixas, o que indica que a população pode cair por razões sazonais, com ou sem fungo. [3] Discussão
Contexto: Cana em Iracemápolis (SP), amostragem de abril de 2015. · Limitações: Explicação dos autores, não testada; a ligação com a queda da testemunha em Rondônia é raciocínio nosso, por analogia, não demonstrado. · Causa apresentada como provável pelos autores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: As ninfas ficam na base do capim sob uma espuma que as protege da dessecação e dos inimigos naturais, o que obriga a contagem a ser feita manualmente: no ensaio, as ninfas foram retiradas com espátula e contadas em quadrados de 0,25 m x 0,25 m, e a infecção foi reconhecida por insetos mortos com massa micelial branca. [1] Cap. 3.7
Contexto: Quadrado lançado ao acaso em quatro pontos de cada parcela. · Limitações: A dissertação não informa a proporção de ninfas infectadas por parcela: a eficiência vem da contagem de ninfas vivas, não da confirmação de que cada morte foi causada pelo fungo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Programa de Pós-Graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Rural — Eficiência de Metarhizium anisopliae (Metsch) Sorok. no controle de cigarrinhas-das-pastagens (Homoptera: Cercopidae) em capim-marandu (Brachiaria bryzantha) em Corumbiara, Rondônia (dissertação de mestrado)
Teixeira, V. M. · 2010 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Embrapa Meio Ambiente (resumo expandido hospedado no repositório Alice) — Metarhizium anisopliae no controle biológico de cigarrinhas das pastagens (Homoptera: Cercopidae) em capim-Marandu (Brachiaria bryzantha)
Teixeira, V. M.; Sá, L. A. N. de; Valarini, P. J. · 2013 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Scientific Reports (Nature Publishing Group) — Monitoring of the field application of Metarhizium anisopliae in Brazil revealed high molecular diversity of Metarhizium spp in insects, soil and sugarcane roots
Iwanicki, N. S. A.; Pereira, A. A.; Botelho, A. B. R. Z.; Rezende, J. M.; Moral, R. A.; Zucchi, M. I.; Delalibera Júnior, I. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-019-38594-8
Histórico de alterações
- Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 6; conferência de trechos automatizada)