Astronomia

Metano em Marte: o Curiosity mede, o orbitador TGO não vê, e a origem do gás segue em aberto

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Astrobiologia

O Curiosity mediu, na cratera Gale, um nível de fundo de cerca de 0,41 ppbv de metano, com variação sazonal repetida e picos esporádicos. O orbitador TGO, em 2018, não detectou metano e fixou um limite superior de cerca de 0,05 ppbv. Como o gás deveria durar séculos e se espalhar, os dois resultados são difíceis de conciliar, e a origem (química água-rocha ou micro-organismos) segue sem resposta.

Metano é um gás formado por carbono e hidrogênio. Na Terra, quase todo o metano atmosférico atual vem de organismos vivos, mas também há fontes geológicas, como reações de rochas com água. Em Marte, a luz ultravioleta destruiria o metano em cerca de 400 anos (a ESA) ou 330 (modelos citados na literatura), tempo longo o bastante para ele se misturar por toda a atmosfera. Por isso, uma variação sazonal ou local exigiria uma fonte ativa e uma forma rápida de remoção. A concentração é dada em ppbv, partes por bilhão em volume: 1 ppbv é uma molécula de metano em cada bilhão de moléculas do ar.

Uma bilionésima parte

Os 0,41 ppbv do Curiosity equivalem a uma molécula de metano para cada 2,4 bilhões de moléculas de ar. O limite da TGO, 0,05 ppbv, é cerca de oito vezes menor que isso (conta nossa).

Como sabemos: medir em dois lugares diferentes

O Curiosity usa o Tunable Laser Spectrometer (TLS), que mede in situ, no ar junto ao solo da cratera Gale, com dois modos: ingestão direta e enriquecimento. A TGO usa as ocultações solares: observa o Sol atravessando a atmosfera e vê quanta luz o metano absorve em médias e altas altitudes. Os métodos testam camadas diferentes do ar, e isso é parte do enigma.

Por que a vida útil do metano cria o enigma

Se o metano dura séculos, ele deveria estar misturado de modo uniforme pelo planeta. Porém o TLS vê um ciclo sazonal de 0,24 a 0,65 ppbv e picos de até cerca de 21 ppbv, e a TGO vê quase nada. Para a ESA, variações sazonais exigiriam uma fonte ativa e uma remoção relativamente rápida, algo que a química conhecida não explica.

De onde o gás poderia vir

Entre as fontes sem vida, a ESA cita a serpentinização, reação de rochas ricas em olivina com água no subsolo, e a liberação de metano antigo preso em clatratos. Como hipótese biológica, micro-organismos subterrâneos que produzam metano. Nenhuma foi demonstrada: a NASA diz que a química água-rocha pode explicar o gás, mas que a origem biológica não pode ser descartada.

As tentativas de reconciliação

Há quatro caminhos: um processo desconhecido que remova o metano perto da superfície; acúmulo noturno do gás numa camada de ar rasa, onde só o TLS mede; falso positivo do TLS; falso negativo da TGO. Uma modelagem de 2021 acrescenta que, se ambos estiverem certos e o metano durar séculos, a fonte estaria muito perto do Curiosity, coincidência improvável.

Como sabemos

Os números vêm de artigos revisados por pares e de páginas oficiais da ESA e da NASA, mas parte dos artigos foi lida só no resumo e o desacordo não está resolvido.

Em debate: O TLS do Curiosity mede cerca de 0,41 ppbv no ar junto ao solo de Gale, enquanto a TGO só obteve limites superiores de 0,05 a 0,02 ppbv em altitude; as equipes propõem remoção rápida, acúmulo noturno junto ao solo ou erro de medição, sem consenso.

Fontes

  1. Science — Background levels of methane in Mars' atmosphere show strong seasonal variations
    Webster, C. R. et al. · 2018 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.aaq0131
  2. Nature — No detection of methane on Mars from early ExoMars Trace Gas Orbiter observations
    Korablev, O. et al. · 2019 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41586-019-1096-4
  3. Earth and Space Science — Mars Methane Sources in Northwestern Gale Crater Inferred From Back Trajectory Modeling
    Luo, Y.; Mischna, M. A.; Lin, J. C.; Fasoli, B.; Cai, X.; Yung, Y. L. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1029/2021ea001915
  4. Agência Espacial Europeia (ESA) — The methane mystery
    ESA · s.d. · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  5. NASA — NASA Finds Ancient Organic Material, Mysterious Methane on Mars
    NASA · 2018 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 5; conferência de trechos automatizada)

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