Genética

Mesmo genoma, células diferentes: muda quais genes estão ativos, e isso pode ser revertido em laboratório

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Genética

Um neurônio e uma célula do fígado têm, em geral, o mesmo genoma; o que as distingue é o conjunto de genes em uso, controlado por proteínas e por marcas químicas no DNA. Esse estado não é permanente: em 1962 John Gurdon obteve girinos a partir de núcleos de células intestinais de sapo, e em 2006 Shinya Yamanaka converteu fibroblastos de camundongo em células pluripotentes com quatro genes.

Genoma é o conjunto do DNA de um organismo. Quase todas as células do corpo descendem de um óvulo fecundado e copiam esse DNA a cada divisão. Mesmo assim, há centenas de tipos celulares. A diferença está na expressão gênica: quais genes são lidos em RNA e proteína, e em que quantidade. Células embrionárias iniciais são pluripotentes, isto é, podem originar todos os tipos de célula do corpo; ao se diferenciarem, passam a usar só parte do genoma. Fibroblastos são células do tecido conjuntivo. A igualdade do DNA tem exceções: linfócitos B e T maduros rearranjam genes de anticorpos e de receptores.

De 24 candidatos a 4

Yamanaka começou com 24 fatores de transcrição ativos em células-tronco embrionárias, testou todos juntos em fibroblastos e foi retirando um a um até restarem quatro: Myc, Oct3/4, Sox2 e Klf4.

O que diferencia um neurônio de uma célula do fígado

Não é o DNA, e sim o que se faz com ele. Cada gene pode estar ligado ou desligado, e em graus variados. Proteínas chamadas fatores de transcrição regulam outros genes, e marcas químicas no DNA e nas proteínas associadas a ele (epigenética) podem passar às células-filhas na divisão. Atlas de expressão medem o efeito: cada tecido tem um padrão próprio de RNA mensageiro.

Como sabemos: o experimento de Gurdon

Para testar se o núcleo de uma célula madura perde genes, Gurdon trocou o núcleo de um ovo de Xenopus pelo de uma célula intestinal de girino e viu se o ovo se desenvolvia. Um sistema de marcação permitia distinguir as células vindas do núcleo transplantado das do hospedeiro. Poucos ovos chegaram a girinos nadando; transplantes em série aumentaram o rendimento. O resultado mostrou que a informação não se perde, mas não que a reversão seja fácil.

Como sabemos: de 24 genes a quatro, em células iPS

Gurdon usou o ovo para reprogramar; Yamanaka perguntou se uma célula inteira, sem ovo, voltaria atrás. Introduziu 24 genes em fibroblastos, procurou colônias parecidas com células-tronco embrionárias e reduziu o conjunto a quatro genes. As células iPS foram testadas por tumores com os três folhetos embrionários e por injeção em blastocistos. Apareciam em frequência muito baixa, e a transmissão germinativa só veio em 2007.

Reversível, mas com limites

A reversão ocorre em condições de laboratório e, em geral, em poucas células. Há exceções ao DNA idêntico: linfócitos B e T rearranjam genes, e ainda assim núcleos deles sustentaram o desenvolvimento de um camundongo. A reprogramação pode introduzir mutações, risco que o Comitê do Nobel apontou em 2012 para o uso em terapia. Também é possível converter um tipo celular direto em outro, como fibroblastos em neurônios.

Como sabemos

Os experimentos centrais vêm do Comitê do Nobel e do resumo do artigo de 2006; a parte sobre expressão gênica vem de definições do NHGRI.

Fontes

  1. Nobel Assembly, Karolinska Institutet — The Nobel Prize in Physiology or Medicine 2012 - Press release
    Nobel Assembly at Karolinska Institutet · 2012-10-08 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. Nobel Committee, Karolinska Institutet — The 2012 Nobel Prize in Physiology or Medicine - Advanced information: Mature cells can be reprogrammed to become pluripotent
    Nobel Committee for Physiology or Medicine · 2012 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. Cell 126(4):663-676 — Induction of pluripotent stem cells from mouse embryonic and adult fibroblast cultures by defined factors
    Takahashi, K.; Yamanaka, S. · 2006 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.cell.2006.07.024
  4. NHGRI, National Institutes of Health — Gene Expression
    National Human Genome Research Institute · 2026 · Livro ou obra de referência · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  5. NHGRI, National Institutes of Health — Epigenetics
    National Human Genome Research Institute · 2026 · Livro ou obra de referência · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  6. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — A gene atlas of the mouse and human protein-encoding transcriptomes
    Su, A. I. et al. · 2004 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 3; conferência de trechos automatizada)

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