História da África

O Sudão tem mais de 200 pirâmides antigas, mais que o Egito pela maioria das contagens

Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

No atual Sudão, reis, rainhas e nobres do reino de Kush foram enterrados sob pirâmides do século VIII a.C. até o século IV d.C. São mais de 200, número que, pela maioria das contagens, supera o das pirâmides egípcias, e a maioria está na necrópole de Meroé, cerca de 200 km ao norte de Cartum. São menores e mais íngremes que as de Gizé, construídas quase dois mil anos depois delas, e a câmara funerária fica embaixo da pirâmide, cavada na rocha, não dentro dela.

Kush foi um dos primeiros grandes Estados da África além do Egito, no vale médio do Nilo. No século VIII a.C., seus reis conquistaram o Egito e governaram como a 25ª dinastia por cerca de um século. Foi o rei Piye quem retomou o costume, abandonado havia séculos no Egito, de enterrar reis sob pirâmides, em El-Kurru; seu filho Taharqa ergueu em Nuri a maior pirâmide kushita. Depois, o centro do reino se deslocou para o sul, e Meroé foi a principal residência real do século III a.C. ao século IV d.C. A cidade é cercada por montes de escória de ferro, restos de uma metalurgia praticada ali por mais de mil anos. Os meroítas tinham escrita própria, decifrada em 1909–1911, mas a língua ainda é mal compreendida.

As joias de uma rainha

Em 1834, o aventureiro italiano Giuseppe Ferlini atacou a pirâmide da rainha Amanishakheto, em Meroé, e levou um conjunto de joias de ouro que hoje está nos museus de Munique e Berlim. Muitas pirâmides da necrópole têm o topo quebrado, marca de saqueadores europeus do século XIX.

De Napata ao Egito

Kush ocupava o vale médio do Nilo, no atual Sudão. Quando o poder egípcio recuou, uma dinastia de reis se firmou em Napata, junto à montanha sagrada de Jebel Barkal. No século VIII a.C., o rei Piye desceu o Nilo, derrotou uma coalizão de príncipes egípcios e fundou a 25ª dinastia, a dos chamados faraós negros, que governou o Egito por cerca de um século. Piye registrou a vitória numa estela de granito de 159 linhas, hoje no Museu Egípcio do Cairo. Ele e seus sucessores foram enterrados sob pirâmides em El-Kurru; Taharqa, citado na Bíblia hebraica, levou o cemitério real para Nuri. Os assírios expulsaram os kushitas do Egito.

Meroé

No século VI a.C., depois que o faraó Psamético II saqueou Napata, o centro de Kush se deslocou para o sul. Meroé ficava no cruzamento de rotas comerciais, perto de minas de ferro e de terras férteis, e foi a principal residência real do século III a.C. ao século IV d.C. Os cemitérios da cidade guardam a maior concentração de pirâmides do mundo. O cemitério norte tem 41 pirâmides-túmulo, a maioria de reis e rainhas. Cada pirâmide tinha, do lado leste, uma capela com pilones, e embaixo, câmaras escavadas na rocha. Não só a realeza: nobres que podiam pagar também foram enterrados sob pirâmides.

Ferro

Em volta da cidade real de Meroé há grandes montes de escória, resíduos de fornos de ferro, notados por arqueólogos desde o início do século XX. Pesquisas da equipe de Jane Humphris, da UCL, mostram que a produção em escala começou pelo menos nos séculos VII–VI a.C. e durou mais de mil anos. No fim do período, as oficinas tinham pisos rebaixados e fornos de até cerca de 2 m, alimentados por foles de cerâmica, e o carvão vinha quase só de acácias. O minério provável era uma rocha ferrosa oolítica, extraída em minas antigas a cerca de 9 km da cidade. Quanto ferro se produzia e para onde ia ainda não se sabe.

Uma escrita própria

Os meroítas criaram uma escrita para sua língua a partir de modelos egípcios, com duas formas: uma cursiva, para quase todos os usos, e uma hieroglífica, reservada à realeza e aos templos. As duas têm 23 sinais e funcionam como alfassilabário, em que cada sinal vale uma consoante seguida de 'a'. O egiptólogo britânico Francis Llewellyn Griffith decifrou as duas formas entre 1909 e 1911, ou seja, sabemos ler os sons. A língua, porém, continua mal compreendida: faltam textos bilíngues, e hoje só cerca de cem palavras são traduzidas com alguma segurança. Claude Rilly mostrou que o meroítico é aparentado ao núbio, o que pode ajudar.

Rainhas e Roma

Rainhas tiveram papel central em Meroé. Seu título, kandake, chegou ao latim como Candace, e autores gregos e romanos o tomaram por nome próprio. Por volta de 25 a.C., forças meroítas saquearam Assuã, no Egito romano. O prefeito Petrônio respondeu e tomou Napata, mas em 21 ou 20 a.C. um tratado negociado em Samos, onde estava o imperador Augusto, fixou a fronteira e dispensou Kush de pagar tributo. Uma cabeça de bronze de Augusto, provavelmente levada no ataque, foi encontrada enterrada em Meroé. Estrabão descreve a rainha que negociou com Roma; a maioria dos autores a identifica com Amanirenas.

O fim

O reino de Meroé termina por volta de meados do século IV d.C., sem um único acontecimento que marque o fim. Os enterros reais sob pirâmides cessam, assentamentos são abandonados e a administração se desfaz. Entre as causas discutidas estão secas e fome, a presença dos nobas, as incursões de blêmios no norte e o declínio do comércio controlado pela realeza. O rei Ezana, de Axum, fez campanhas na região, mas a pesquisadora Josefine Kuckertz considera que não foram decisivas. A escrita meroítica ainda foi usada até o século V, e a língua deu lugar ao núbio, falado pela nova elite.

Como sabemos

Os fatos vêm da síntese da UNESCO, de verbetes da UCLA Encyclopedia of Egyptology e de pesquisa arqueometalúrgica da UCL; a contagem de pirâmides está marcada como estimativa.

Em debate: Número de pirâmides: as contagens variam (mais de 200 em Meroé; cerca de 255 no Sudão) conforme se incluam pirâmides de nobres, estruturas reduzidas à base e sítios menores. A comparação com o Egito depende do mesmo critério.

Em debate: Língua meroítica: a escrita foi decifrada no sentido de leitura dos sons, mas a língua continua em grande parte sem tradução. A classificação no ramo sudânico oriental do norte, proposta por Claude Rilly, é hoje aceita, mas a tradução avança devagar.

Em debate: Fim de Meroé: secas e fome ligadas a mudanças climáticas, a ascensão de Axum, pressão de povos nobas e blêmios e o declínio do comércio são explicações discutidas; Kuckertz (UCLA) considera que as campanhas de Ezana não foram decisivas.

Em debate: Escala da metalurgia: as pesquisas recentes confirmam uma produção de ferro longa e importante em Meroé, mas a quantidade produzida ainda não foi estimada.

Fontes

  1. UNESCO — General History of Africa, II: Ancient Civilizations of Africa (cap. 10, J. Leclant, 'The empire of Kush: Napata and Meroe')
    consultada em 03/10/2026
  2. University of California, Los Angeles — Meroitic (UCLA Encyclopedia of Egyptology, 2016)
    consultada em 03/10/2026
  3. University of California, Los Angeles — Meroe and Egypt (UCLA Encyclopedia of Egyptology, 2021)
    consultada em 03/10/2026
  4. UCL Discovery, University College London — Iron Smelting in Sudan: Experimental Archaeology at the Royal City of Meroe (Journal of Field Archaeology)
    consultada em 03/10/2026
  5. National Geographic — The Nubian kingdom of Kush, rival to Egypt
    consultada em 03/10/2026
  6. National Geographic — These mighty pyramids were built by one of Africa's earliest civilizations
    consultada em 03/10/2026
  7. Smithsonian Magazine — Why Sudan's Remarkable Ancient Civilization Has Been Overlooked by History
    consultada em 03/10/2026
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