Astronomia

Mercúrio gira três vezes a cada duas órbitas, e por isso seu dia solar dura dois anos do planeta

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Sistema Solar

Mercúrio completa uma rotação em cerca de 59 dias terrestres e uma volta ao Sol em cerca de 88, o que dá três rotações a cada duas órbitas: uma ressonância spin-órbita 3:2. Por isso o intervalo entre dois nasceres do Sol no mesmo ponto, o dia solar, é de cerca de 176 dias terrestres, isto é, duas órbitas. A ideia de que o planeta mostra sempre a mesma face ao Sol foi desfeita por medições de radar em 1965.

Há dois modos de contar um dia em Mercúrio. O dia sideral é o tempo de uma volta do planeta sobre o eixo em relação às estrelas: cerca de 58,65 dias terrestres. O dia solar é o intervalo entre dois nasceres do Sol num mesmo ponto da superfície: cerca de 176 dias, porque, enquanto gira, o planeta também avança na órbita e a direção do Sol muda. Uma ressonância spin-órbita é uma relação fixa entre o período de rotação e o de translação; em Mercúrio é de 3 rotações para 2 órbitas, e não a sincronia 1:1 que a Lua tem com a Terra. Duas coisas sustentam essa relação: a órbita é bem excêntrica (excentricidade 0,2056, isto é, um desvio de 20% em relação ao círculo) e o Sol atua sobre a forma levemente alongada do planeta, como explicado abaixo.

O Sol que nasce, se põe e nasce de novo

Perto do periélio, o ponto da órbita mais próximo do Sol, a NASA descreve que, em algumas partes da superfície de Mercúrio, o Sol nasce por pouco tempo, se põe e nasce outra vez no mesmo amanhecer.

De onde saem os 176 dias

O dia sideral de Mercúrio é de 1.407,6 horas (cerca de 58,65 dias) e o ano é de 87,969 dias. Em duas órbitas, o planeta dá três voltas sobre o eixo em relação às estrelas e, no mesmo tempo, dá duas voltas em torno do Sol; a diferença, 3 − 2 = 1, é o número de ciclos de nascer a nascer do Sol: um único dia solar. Na conta, o dia solar é 1 ÷ (1/P_rotação − 1/P_órbita); com P_rotação igual a 2/3 do ano, o resultado é exatamente 2 anos. A tabela da NASA dá 4.222,6 horas (175,94 dias), o mesmo valor. A conversão e a conta são nossas.

Por que a órbita excêntrica prende a rotação em 3:2

Mercúrio não é uma esfera perfeita: tem um eixo de menor momento de inércia, o lado levemente alongado. Segundo Correia e Laskar (2009), que citam Colombo e Goldreich e Peale, o torque do Sol, somado à órbita excêntrica, mantém esse eixo apontado ao Sol sempre que o planeta passa pelo periélio. Com 1,5 volta por órbita, o lado alongado que olha para o Sol se alterna a cada passagem. O periélio fica a 46,0 milhões de km e o afélio a 69,8 milhões de km.

Como sabemos: o radar de 1965 e a ideia que caiu

Segundo a NASA (SP-424), astrônomos supunham que a proximidade do Sol mantinha um hemisfério sempre voltado a ele. Em abril de 1965, perto da conjunção inferior, o radar de Arecibo (430 Mc/s, 2 MW) enviou pulsos de 500 µs e analisou em frequência o eco de regiões além da mais próxima do disco, até 0,06 do raio. O resultado, cerca de 58 dias, aparece no relato da NASA e em artigos posteriores; o resumo que lemos do original descreve só o método. Hoje o valor de referência é 58,65 dias.

O que ainda se discute: como Mercúrio chegou ao 3:2

Goldreich e Peale (1966) estimaram no máximo cerca de 7% de chance de captura em 3/2. Nas simulações de Correia e Laskar (2009), com núcleo líquido e excentricidade variável, 3/2 aparece em 26% dos casos, atrás de 2/1 (32%). Makarov (2012), com outro modelo de maré e excentricidade atual, obteve captura sempre em 3:2. As diferenças vêm de hipóteses distintas sobre maré e interior do planeta, e o mecanismo inicial segue sem explicação completa.

Como sabemos

Períodos, dia solar e ressonância vêm de dados da NASA e de artigos; o ponto em aberto (como houve a captura) está marcado como debate entre modelos.

Em debate: Goldreich e Peale (1966) estimaram cerca de 7% de chance; Correia e Laskar (2009) obtiveram 26% das simulações em 3/2 (com núcleo líquido e excentricidade variável); Makarov (2012) obteve captura sempre em 3:2 com a excentricidade atual e outro modelo de maré.

Fontes

  1. NASA Goddard Space Flight Center — Mercury Fact Sheet
    NASA Goddard Space Flight Center, NSSDC · 2024 · Base de dados · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. NASA Science — Mercury Facts (Orbit and Rotation)
    NASA Science · 2024 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. NASA History Office — The Voyage of Mariner 10: Mission to Venus and Mercury (NASA SP-424), cap. 1
    Dunne, J. A.; Burgess, E. · 1978 · Livro ou obra de referência · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  4. Nature — A Radar Determination of the Rotation of the Planet Mercury
    Pettengill, G. H.; Dyce, R. B. · 1965 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/2061240a0
  5. Icarus — Mercury's capture into the 3/2 spin-orbit resonance including the effect of core-mantle friction
    Correia, A. C. M.; Laskar, J. · 2009 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.icarus.2008.12.034
  6. The Astrophysical Journal — How terrestrial planets traverse spin-orbit resonances: A camel goes through a needle's eye
    Makarov, V. V. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1088/0004-637X/752/1/73
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 3; conferência de trechos automatizada)

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