Astronomia

Mercúrio e 43 segundos de arco por século: o planeta Vulcano que não existia e a relatividade geral

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Sistema Solar

Em 1859, Le Verrier mostrou que o periélio de Mercúrio, o ponto da órbita mais próximo do Sol, avança mais do que a gravitação de Newton permite: ele estimou o excesso em 38 segundos de arco por século; o valor moderno é 43. Um planeta interno, Vulcano, foi proposto e nunca confirmado. Em 1915, a relatividade geral de Einstein explicou o avanço sem corpos extras.

A órbita de um planeta é uma elipse, e o periélio é o ponto dela mais próximo do Sol. Esse ponto não fica parado: a atração dos outros planetas o faz girar devagar, e a própria Terra, de onde medimos, é uma referência que também gira (a precessão dos equinócios). Descontados esses efeitos pela teoria de Newton, as observações de Mercúrio ainda mostravam um avanço de cerca de 43 segundos de arco por século (1 segundo de arco é 1/3600 de grau). Le Verrier, que já havia previsto Netuno pelas irregularidades de Urano, apostou em mais um planeta, Vulcano. A relatividade geral, uma teoria da gravidade como curvatura do espaço-tempo, deu outro caminho.

Um valor de 38 antes dos 43

Le Verrier encontrou 38 segundos de arco por século, não 43, porque as massas dos planetas eram pouco conhecidas na sua época. O valor foi refinado depois, e hoje a discrepância medida é de 43.

De onde saem os 43 segundos de arco

O avanço total do periélio, visto da Terra, é de cerca de 5.600 segundos de arco por século. Quase tudo é efeito de referência e de vizinhança: 5.026 vêm da precessão dos equinócios e 531 da atração dos outros planetas. O resto, 43, é o que a gravitação de Newton não cobria. Como as massas planetárias eram pouco conhecidas, Le Verrier chegou a 38; a revisão moderna usa 43. As parcelas são arredondadas, e a soma é nossa.

Vulcano: uma hipótese que podia dar errado

Propor um planeta para explicar uma anomalia já tinha funcionado com Netuno. Vulcano tinha uma vantagem metodológica: era testável. Um trânsito pelo Sol ou uma imagem num eclipse total o confirmaria. O relato de Lescarbault não foi corroborado, e as expedições de eclipse não acharam nada. A hipótese não foi refutada por um único teste, mas esvaziada por falta de confirmação ao longo de décadas.

Por que a relatividade pesou mais que um corpo extra

Vulcano, um anel de planetoides, o achatamento do Sol e uma lei da gravidade alterada eram ajustes para o caso de Mercúrio. A relatividade geral nasceu de outra motivação e, aplicada a Mercúrio, deu 43 sem desfazer o acordo com os outros planetas, segundo a revisão de Will. A conclusão é uma leitura nossa: uma teoria que prevê o valor pesa mais que uma hipótese feita sob medida.

O que as medições modernas acrescentam

Imagens da sonda STEREO não acharam asteroides maiores que 5,7 km entre 0,07 e 0,21 UA do Sol, um limite com premissas sobre a refletividade dos corpos. Isso não testa o planeta de Le Verrier diretamente, mas um corpo capaz de perturbar Mercúrio seria bem maior, inferência nossa. A órbita de Mercúrio hoje é ajustada com dados da Messenger, e o avanço é tratado como teste da relatividade, não como indício de Vulcano.

Como sabemos

Os números e a cronologia batem com revisão moderna, biografia acadêmica e texto de Einstein, mas o cálculo original de 1915 e o texto de Le Verrier não foram abertos.

Fontes

  1. Living Reviews in Relativity — The Confrontation between General Relativity and Experiment
    Will, C. M. · 2014 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.12942/lrr-2014-4
  2. University of St Andrews (MacTutor) — Urbain Jean Joseph Le Verrier - Biography
    O'Connor, J. J.; Robertson, E. F. · MacTutor History of Mathematics Archive · Livro ou obra de referência · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. Project Gutenberg (eBook 5001) — Relativity: The Special and General Theory
    Einstein, A. (trad. R. W. Lawson) · 1916 (tradução inglesa de 1920) · Fonte histórica primária · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  4. Icarus (preprint arXiv) — A Search for Vulcanoids with the STEREO Heliospheric Imager
    Steffl, A. J. et al. · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)

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