Astronomia

Há gelo de água nos polos de Mercúrio, no fundo de crateras que nunca recebem luz solar direta

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Radar da Terra e a sonda MESSENGER indicam gelo de água nos polos de Mercúrio, em crateras cujo fundo fica em sombra permanente. O eixo do planeta tem inclinação de só 0,034°, e modelos térmicos dão nesses fundos máximas de até 60 K (cerca de −213 °C), enquanto o dia em outras partes chega a 430 °C. Gelo some acima de 112 K; abaixo disso, dura bilhões de anos.

Mercúrio gira com o eixo praticamente em pé: a inclinação em relação à órbita é de 0,034°. Perto dos polos o Sol fica sempre rente ao horizonte, e o fundo de uma cratera funda não é atingido pela luz direta em momento nenhum. Esses lugares se chamam regiões de sombra permanente. Sem atmosfera para espalhar calor, ficam frios o bastante para reter água, e por isso são chamados de armadilhas de frio. O gelo foi apontado primeiro por radares na Terra, que enviam ondas a Mercúrio e medem o eco. Depois a sonda MESSENGER, a primeira a orbitar o planeta, mediu nêutrons, luz de laser e imagens dessas crateras. O passo que ligou as pistas foi cruzar os mapas: os ecos de radar fortes caem dentro das sombras.

Um dia que dura 176 dias

Um dia solar de Mercúrio, de um nascer do Sol ao seguinte, dura 176 dias terrestres. O MESSENGER fotografou o polo sul a cada dois dias ao longo de um desses ciclos. As áreas de sombra permanente ficaram escuras o tempo todo.

Como sabemos: três tipos de medida que convergem

Nenhuma medida isolada prova o gelo. O radar na Terra mostrou, nos anos 1990, regiões de eco forte com as marcas do gelo de outros mundos (a5), e depois os mapas de sombra do MESSENGER mostraram que esses ecos caem dentro das sombras permanentes (a3). O espectrômetro de nêutrons do MESSENGER detectou, no norte, o hidrogênio que o gelo implica (a6, a7). O altímetro a laser achou áreas claras e escuras compatíveis com gelo na superfície ou sob uma crosta orgânica (a9). Limite: nêutrons e laser só mediram o norte, porque a órbita deixava a sonda alta demais sobre o sul (a14).

O paradoxo térmico e a geometria da sombra

A pergunta parece absurda: como gelo sobrevive ao lado de um dia de 430 °C (a1)? A resposta é geométrica. Com o eixo inclinado só 0,034° (a2), o Sol não sobe acima da borda das crateras polares, e o fundo recebe luz só de forma indireta, sem calor suficiente para aquecer o solo. Cálculos desde 1992 deram máximas de 60 K nas maiores sombras e mostraram que, abaixo de 112 K, o gelo dura bilhões de anos (a4). Mercúrio fica, assim, quente e frio ao mesmo tempo, em lugares separados por poucos quilômetros.

O que ainda não se sabe: de onde veio e quando

A origem é hipótese. Cometas ou asteroides ricos em voláteis são compatíveis com os dados (a10). A contagem de crateras sugere gelo recente, nos últimos cerca de 150 milhões de anos (a11), o que dificulta culpar a atividade vulcânica antiga (a12). Como cerca de metade das sombras não tem radar brilhante, os autores de um estudo propõem um evento episódico, como um impacto grande (a13). A massa total vai de 2 × 10^16 a 10^18 g (a8).

Como sabemos

A existência do gelo nas sombras polares tem várias linhas de evidência independentes, mas a origem, a idade e a massa são estimativas ou hipóteses, e dois dos artigos centrais foram lidos só no resumo.

Em debate:

Fontes

  1. Science — Evidence for water ice near Mercury's north pole from MESSENGER Neutron Spectrometer measurements
    Lawrence, D. J. et al. · 2013 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.1229953
  2. Science — Bright and dark polar deposits on Mercury: evidence for surface volatiles
    Neumann, G. A. et al. · 2013 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.1229764
  3. Science — The thermal stability of water ice at the poles of Mercury
    Paige, D. A.; Wood, S. E.; Vasavada, A. R. · 1992 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.258.5082.643
  4. Icarus — Investigating Mercury's South Polar Deposits: Arecibo Radar Observations and High-resolution Determination of Illumination Conditions
    Chabot, N. L. et al. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1002/2017je005500
  5. Earth and Planetary Science Letters — Age constraints of Mercury's polar deposits suggest recent delivery of ice
    Deutsch, A. N. et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.epsl.2019.05.027
  6. NASA Science — Mercury Facts
    NASA · 2025 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 3; conferência de trechos automatizada)

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos