Evolução

Megaplaca de Petri: em cerca de 10 dias, E. coli ficou 10 mil vezes mais resistente à trimetoprima

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Evolução biológica

A megaplaca é uma placa de acrílico de 120 × 60 cm com faixas de ágar de concentração crescente de antibiótico. A E. coli só avança para a faixa seguinte quando surge um mutante mais resistente. Em cerca de 10 dias com trimetoprima, mutantes amostrados na faixa mais concentrada toleravam 10 mil vezes mais droga que a linhagem original.

Um antibiótico impede o crescimento da bactéria a partir de certa dose, a concentração mínima inibitória (MIC). Em frascos bem misturados, a resistência evolui sem que a bactéria se desloque. Em ambientes reais, ela se move entre regiões com doses diferentes, e vence quem chega primeiro a um território novo. A megaplaca, descrita em 2016 por Baym e colegas, torna isso visível: bactérias móveis se espalham pelo ágar mole, só avançam onde sobrevivem, e uma câmera registra cada degrau vencido por um mutante. Os autores usaram trimetoprima e ciprofloxacina, duas drogas com mecanismos diferentes.

Os mais resistentes ficaram para trás

Mutantes presos atrás da frente chegaram a ser mais resistentes que ela, mas, cercados pela linhagem original, não passavam adiante. Reinoculados à frente, cresceram onde a frente não conseguia. Quem lidera a invasão nem sempre é o mais resistente.

Por que o desenho tem degraus

Os autores testaram uma placa sem degrau intermediário. Indo de uma faixa sem droga direto à concentração mais alta (3.000 vezes a MIC para trimetoprima, 2.000 para ciprofloxacina), a bactéria não se adaptou. Com uma faixa intermediária, a adaptação ocorreu, exceto quando esse degrau era alto demais. Segundo os autores, mutantes de resistência intermediária se multiplicam o bastante para que surjam depois os de resistência alta.

O que o sequenciamento mostrou

Foram sequenciados 21 isolados do experimento de quatro degraus e 230 do experimento com degraus intermediários, todos com trimetoprima. Todos os muito mutados, e nenhum dos demais, tinham mutação em dnaQ, que codifica a DNA polimerase III, ligada à revisão do DNA. Esses mutadores surgiram ao menos seis vezes, de forma independente, e se adaptaram no mesmo ritmo dos outros. Nos demais, o gene mais mutado foi folA, o alvo da droga, mas também apareceram genes fora da via do folato.

Quem lidera a frente nem sempre é o mais resistente

Em ciprofloxacina, muitos mutantes capazes de crescer na dose alta tinham baixo rendimento e ganharam depois mutações compensatórias. Vários ficaram mais resistentes que a própria frente, mas permaneceram presos atrás dela. Reinoculados à frente, cresceram onde a frente não conseguia. Para os autores, a população avança pelos mutantes aptos o bastante que surgem perto da frente, não pelos mais aptos de todos.

O que a megaplaca não prova

Os autores dizem que a megaplaca não pretende simular diretamente ambientes naturais ou clínicos. É uma linhagem de E. coli, em acrílico, com trimetoprima ou ciprofloxacina em cada placa, e mostra princípios, não o que ocorre num paciente. Fora do laboratório, a OMS informa que, em 2023, uma em cada seis infecções bacterianas comuns confirmadas era resistente. O método já foi adaptado: um grupo mexicano usou uma versão de 40 × 50 cm.

Como sabemos

Os números e as conclusões vêm do texto integral do artigo original de 2016 (manuscrito do autor no PubMed Central); o contexto de saúde pública vem da OMS.

Fontes

  1. Science (manuscrito do autor no PubMed Central); Harvard Medical School e Technion — Spatiotemporal microbial evolution on antibiotic landscapes
    Baym, M.; Lieberman, T. D.; Kelsic, E. D.; Chait, R.; Gross, R.; Yelin, I.; Kishony, R. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.aag0822
  2. Journal of Microbiology & Biology Education (American Society for Microbiology) — A case study to engage students in evolutionary thinking around antibiotic resistance using the MEGA-plate experiment
    Carr, S. A.; Mathews, S. L.; Pruneski, J. A.; Stasulli, N. M. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1128/jmbe.00039-24
  3. Organização Mundial da Saúde — Antimicrobial resistance (ficha informativa)
    Organização Mundial da Saúde · 2026 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  4. Antibiotics (MDPI); Universidad Autónoma de Nuevo León — Deciphering Common Genetic Pathways to Antibiotic Resistance in Escherichia coli Using a MEGA-Plate Evolution System
    Morales-Durán, N.; León-Buitimea, A.; Álvarez Martínez, R.; Morones-Ramírez, J. R. · 2025 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3390/antibiotics14080841
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 6; conferência de trechos automatizada)

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