Paleontologia
A América do Sul perdeu mais de 80% da megafauna no fim da glaciação, inclusive preguiças de até 4 toneladas
Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 05/10/2026
Até cerca de 12 mil anos atrás, a América do Sul tinha preguiças terrestres gigantes como o Megatherium, de até 4 toneladas e 3,5 m quando erguido nas patas traseiras; gliptodontes, parentes encouraçados dos tatus; e o Toxodon, herbívoro que a análise de proteínas aproximou de cavalos e rinocerontes. No fim do Pleistoceno, o continente perdeu 82% de suas espécies de megafauna. A causa ainda é debatida.
Boa parte do que se sabe sobre esses animais no Brasil começou com o naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund, que escavou cavernas calcárias da região de Lagoa Santa, em Minas Gerais, entre 1835 e 1845. Ele descreveu pela primeira vez a megafauna pleistocênica brasileira, deu nome ao tigre-dentes-de-sabre Smilodon populator e à preguiça-gigante Eremotherium laurillardi, e achou cerca de 30 esqueletos humanos antigos. A coleção, com mais de 100 mil ossos, foi doada ao rei Cristiano VIII e está hoje em Copenhague. Darwin citou a “maravilhosa coleção de ossos fósseis” de Lund e Clausen em A Origem das Espécies (1859). Quanto à extinção, há duas forças em jogo, quase simultâneas: a chegada e o crescimento das populações humanas e as mudanças climáticas do fim da glaciação. Estudos recentes divergem sobre o peso de cada uma.
O enigma do Toxodon resolvido por proteínas
Os “ungulados nativos” sul-americanos, como o Toxodon e a Macrauchenia, intrigaram cientistas desde o século XVIII: ninguém sabia de que mamíferos eram parentes. Em 2015, o colágeno extraído de seus ossos foi sequenciado e os colocou num mesmo grupo com os perissodáctilos, hoje representados por cavalos, rinocerontes e antas.
Preguiças do porte de elefantes
O Megatherium americanum podia pesar até cerca de 4 toneladas, como um elefante macho, e alcançar 3,5 m apoiado nas patas traseiras. Apesar das garras enormes, era herbívoro, como mostra a química dos dentes. É conhecido da Argentina, do Uruguai e da Bolívia. Os primeiros ossos foram achados em 1787 por Manuel Torres, na Argentina, e enviados a Madri, onde o esqueleto original ainda está exposto. Havia outras preguiças terrestres: Mylodon darwinii, de 1 a 2 toneladas; Glossotherium, de cerca de 1,5 tonelada; e o Scelidotherium, que provavelmente cavava túneis de até 20 m.
Tatus gigantes e um enigma com cascos
Os gliptodontes, herbívoros cobertos por uma carapaça de placas ósseas fundidas, intrigaram cientistas desde que Darwin coletou seus fósseis em 1832 e 1833. Em 2016, o genoma mitocondrial de um Doedicurus mostrou que eles são tatus de verdade, uma subfamília dentro da árvore desse grupo, separada há não mais de cerca de 35 milhões de anos. O Toxodon e a Macrauchenia, chamados de ungulados nativos, eram ainda mais misteriosos. O colágeno de seus ossos, sequenciado em 2015, os aproximou de cavalos, rinocerontes e antas.
Lund e as cavernas de Lagoa Santa
O dinamarquês Peter Wilhelm Lund (1801–1880) viveu no Brasil e, sobretudo entre 1835 e 1845, escavou cavernas calcárias da região de Lagoa Santa, em Minas Gerais. Ao longo da vida identificou centenas de cavernas. Seus achados deram a primeira descrição da megafauna pleistocênica brasileira, com várias espécies de preguiças terrestres e gliptodontes, o tigre-dentes-de-sabre Smilodon populator e a grande preguiça Eremotherium laurillardi, que ele descreveu em 1842. Lund também encontrou ossos de cerca de 30 pessoas, misturados a fósseis de animais.
Uma coleção que atravessou o oceano
Por volta de 1845, Lund decidiu doar a coleção ao rei Cristiano VIII, da Dinamarca. Centenas de caixas de madeira desceram em lombo de mula até o Rio de Janeiro e seguiram de navio. Chegaram em 1848, pouco antes da morte do rei. Em 1858 a coleção passou à Universidade de Copenhague. Hoje reúne mais de 100 mil ossos, mais de 2 milhões de pequenos ossos vindos de regurgitação de corujas e cerca de 1.300 blocos de brecha. Em 2021, DNA antigo extraído de fragmentos identificou 17 espécies. Darwin citou a coleção em A Origem das Espécies.
Por que desapareceram
Na América do Sul, a extinção levou 82% das espécies de megafauna, mais que na América do Norte. Datações por radiocarbono mostram grandes mamíferos abundantes entre cerca de 15.300 e 12.900 anos atrás e uma queda acentuada até cerca de 11.600 anos atrás. Prates e Perez (2021) ligam essa queda à expansão de caçadores com pontas “rabo de peixe” e propõem a caça como fator principal. Na Patagônia, Metcalf e colegas (2016) dataram uma fase de extinção em 12.280 anos atrás e concluíram que ela só veio quando presença humana e aquecimento coincidiram.
Como sabemos
Fatos sobre os animais e sobre Lund vêm de museus (NHM, Museu Nacional) e periódicos revisados; a causa da extinção é apresentada como debate, com os principais estudos de cada lado.
Em debate: A causa das extinções da megafauna nas Américas é um dos debates mais persistentes da paleontologia, porque a chegada dos humanos e as mudanças climáticas do fim da glaciação foram quase simultâneas. Prates e Perez (2021) associam o colapso sul-americano à difusão das pontas de projétil “rabo de peixe” e ao crescimento populacional humano, e propõem a caça como fator principal. Metcalf e colegas (2016), com dados da Patagônia, concluem que as extinções só ocorreram quando presença humana e aquecimento coincidiram. A revisão de Barnosky e colegas (2004) já apontava que a caça sozinha não explica o padrão global.
Em debate: Algumas datas de megafauna no início do Holoceno (cerca de 8 mil anos atrás) são citadas pelo NHM para o Megatherium, mas Prates e Perez (2021) observam que a maioria dessas datas recentes foi posta em dúvida.
Em debate: Os números de cavernas exploradas por Lund variam entre fontes: mais de 800 identificadas (estudo de 2021 sobre a coleção) e mais de 250 exploradas (Museu Nacional).
- Estimativa: O Megatherium pesava até cerca de 4 toneladas, era até 10 vezes maior que as preguiças atuais e, erguido nas patas traseiras, alcançava 3,5 m. [1] [2]
Estimativas de massa de animais extintos dependem de modelos a partir do esqueleto. - Evidência forte: Análises químicas dos dentes confirmam que o Megatherium era herbívoro. [1] [2]
- Estimativa: O Megatherium é conhecido da Argentina, do Uruguai e da Bolívia; seus fósseis vão do Pleistoceno Médio (cerca de 400 mil anos) ao início do Holoceno (cerca de 8 mil anos). [1]
As datas mais recentes, do início do Holoceno, são questionadas por Prates e Perez (2021). - Fato estabelecido: Os primeiros fósseis de Megatherium foram achados em 1787 por Manuel Torres na Argentina e enviados ao museu de ciências de Madri, onde o esqueleto original ainda está exposto. [1]
- Consenso científico: As preguiças gigantes eram aparentadas às atuais e pertencem aos xenartros, com tatus e tamanduás. [1]
- Evidência forte: Fósseis de Megatherium com marcas de corte sugerem que essas preguiças foram caçadas. [1]
- Fato estabelecido: Darwin coletou quatro espécies de preguiça terrestre na viagem do Beagle, três delas desconhecidas pela ciência, entre 13 espécies de mamíferos fósseis. [2]
- Estimativa: Mylodon darwinii pesava de 1.000 a 2.000 kg e media cerca de 3 m; Glossotherium robustum, cerca de 4 m e 1.500 kg. [2]
Estimativas de massa e tamanho do Natural History Museum. - Hipótese: O Scelidotherium provavelmente cavava túneis de até 1,2 m de altura, 1,8 m de largura e 20 m de comprimento. [2]
Atribuição dos túneis ao Scelidotherium dada como provável pelo NHM. - Evidência forte: Os gliptodontes estão inseridos na árvore dos tatus, como subfamília (Glyptodontinae) da família Chlamyphoridae, segundo o genoma mitocondrial de um Doedicurus. [3]
- Estimativa: Os gliptodontes divergiram dos demais tatus não antes de cerca de 35 milhões de anos atrás e aumentaram muito de tamanho até se extinguirem no fim da última era glacial. [3]
Datação molecular; o artigo diz “não antes de cerca de 35 milhões de anos”. - Fato estabelecido: Darwin coletou fósseis de gliptodontes na América do Sul entre 1832 e 1833, na expedição do Beagle. [3]
- Evidência forte: Sequências de colágeno de Toxodon platensis e Macrauchenia patachonica os colocam num clado com os perissodáctilos (cavalos, rinocerontes e antas). [4]
- Evidência forte: Dos ungulados nativos sul-americanos, só toxodontes e litopternos sobreviveram até o fim do Pleistoceno ou início do Holoceno. [4]
- Estimativa: A América do Sul perdeu 82% (mais de 40 gêneros) de suas espécies de megafauna no fim do Pleistoceno, perda mais intensa que a da América do Norte (70%, 37 gêneros de mamíferos acima de 44 kg). [5]
Megafauna definida como mamíferos com massa média acima de 44 kg; contagem por gêneros segundo Cione et al., citada por Prates e Perez (2021). - Estimativa: O sinal de radiocarbono de grandes mamíferos na América do Sul cresce entre cerca de 15.300 e 12.900 anos atrás e cai acentuadamente até cerca de 11.600 anos atrás. [5]
Datas calibradas (cal BP) a partir da soma de distribuições de probabilidade de datações. - Hipótese: Prates e Perez (2021) propõem que a predação humana foi o principal fator do declínio, com outros fatores secundários, mas necessários. [5]
Hipótese de um grupo de pesquisa; outros estudos dão mais peso à combinação com o clima. - Evidência forte: Na Patagônia, uma fase de extinção foi datada em 12.280 ± 110 anos atrás, de 1 a 3 mil anos após a presença humana inicial, e só ocorreu quando presença humana e aquecimento climático coincidiram. [6]
- Consenso científico: Uma revisão de 2004 na Science concluiu que os humanos contribuíram para as extinções em alguns continentes, mas a caça não foi a única responsável em toda parte. [7]
- Fato estabelecido: Peter Wilhelm Lund foi um naturalista dinamarquês que coletou sobretudo entre 1835 e 1845 em cavernas calcárias de Lagoa Santa, Minas Gerais. [8] [9]
- Fato estabelecido: Lund nasceu em Copenhague em 1801 e morreu no Brasil em 1880. [9]
- Fato estabelecido: As escavações de Lund levaram à primeira descrição da megafauna pleistocênica brasileira, incluindo o Smilodon populator, que ele nomeou, e numerosas espécies de preguiças terrestres e gliptodontes. [8] [9]
- Fato estabelecido: Lund achou cerca de 30 esqueletos humanos antigos em Lagoa Santa. [8] [9]
O Museu Nacional data os achados humanos de 1843 e os restos entre cerca de 11 mil e 8 mil anos. - Evidência forte: Eremotherium laurillardi foi descrito por Lund em 1842 e é a única espécie válida de preguiça megaterídea do Pleistoceno do Brasil intertropical. [10]
Posição de Cartelle, De Iuliis e Pujos (2015), em resposta a proposta de uma segunda espécie anã. - Fato estabelecido: Por volta de 1845, Lund decidiu doar a coleção ao rei Cristiano VIII; caixas de madeira foram levadas em lombo de mula até o Rio de Janeiro e enviadas à Dinamarca, onde chegaram em 1848, pouco antes da morte do rei. [8]
- Fato estabelecido: A coleção entrou para as coleções de história natural da Universidade de Copenhague em 1858 e tem mais de 100 mil ossos, mais de 2 milhões de pequenos ossos de regurgitação de corujas e cerca de 1.300 amostras de brecha. [8]
- Estimativa: Lund identificou mais de 800 cavernas ao longo da carreira. [8]
O Museu Nacional fala em coleções resultantes da exploração de mais de 250 cavernas; o texto usa “centenas”. - Fato estabelecido: Darwin, em A Origem das Espécies (1859), citou a coleção de ossos fósseis feita por Lund e Clausen nas cavernas do Brasil como exemplo da relação entre fauna extinta e atual no mesmo continente. [11] [9]
- Fato estabelecido: Em 2021, DNA antigo extraído de fragmentos ósseos da coleção identificou 17 espécies, duas delas novas para a coleção. [8]
Fontes
- Natural History Museum, Londres — What was Megatherium?
consultada em 03/10/2026 - Natural History Museum, Londres — Darwin's ground sloths
consultada em 03/10/2026 - Current Biology — The phylogenetic affinities of the extinct glyptodonts (Current Biology, 2016), resumo via Europe PMC
consultada em 03/10/2026 - Proceedings of the Royal Society B — Ancient collagen reveals evolutionary history of the endemic South American 'ungulates' (Proceedings of the Royal Society B, 2015), resumo via Europe PMC
consultada em 03/10/2026 - Nature Communications — Late Pleistocene South American megafaunal extinctions associated with rise of Fishtail points and human population (Nature Communications, 2021), texto integral via Europe PMC
consultada em 03/10/2026 - Science Advances — Synergistic roles of climate warming and human occupation in Patagonian megafaunal extinctions during the Last Deglaciation (Science Advances, 2016), resumo via Europe PMC
consultada em 03/10/2026 - Science — Assessing the causes of late Pleistocene extinctions on the continents (Science, 2004), resumo via Europe PMC
consultada em 03/10/2026 - Ecology and Evolution — Ancient DNA preserved in small bone fragments from the P.W. Lund collection (Ecology and Evolution, 2021), texto integral via Europe PMC
consultada em 03/10/2026 - Museu Nacional / Universidade Federal do Rio de Janeiro — Museu de Curiosidades #4: Peter Lund
consultada em 03/10/2026 - Comptes Rendus Palevol / Muséum national d'Histoire naturelle — Eremotherium laurillardi (Lund, 1842) (Xenarthra, Megatheriinae) is the only valid megatheriine sloth species in the Pleistocene of intertropical Brazil: A response to Faure et al., 2014
consultada em 03/10/2026 - Charles Darwin, edição digital do Project Gutenberg — On the Origin of Species, 1.ª edição (1859), capítulo XI
consultada em 03/10/2026
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