Ciências da Terra
O Mediterrâneo quase secou? Quanto o nível caiu e quão rápido o Atlântico o reencheu ainda se discute
Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026
A crise de salinidade durou de 5,97 a 5,33 milhões de anos atrás e deixou cerca de um milhão de km³ de sal no fundo do Mediterrâneo. As estimativas da queda do nível vão de cerca de 200 m a cerca de 2 km, conforme o método. O fim da crise teria sido uma megainundação por Gibraltar, de até cerca de 2 anos num modelo recente: hipótese bem apoiada, mas ainda debatida.
Evaporito é a rocha que sobra quando a água de um mar ou lago evapora e os sais precipitam. O Mediterrâneo perde por evaporação mais água do que recebe de chuva e rios, e se mantém cheio pelo Atlântico. Quando a ligação por Gibraltar se restringiu, a salinidade subiu e camadas de gipso e sal-gema se acumularam: é a crise de salinidade do Messiniano. Duas coisas se discutem há décadas: o quanto o nível baixou (de uma bacia quase seca a um mar fundo e hipersalino) e como a água voltou, em um enchimento gradual ou numa cheia súbita, a inundação do Zancleano. Lago Mare é o nome dado à fase final, com fósseis de águas salobras. O sal aptiano do Atlântico Sul é outro depósito, tratado em outro artigo.
Fósseis de águas rasas em poços fundos
Em furos de sondagem no Mediterrâneo, até 2.600 m abaixo do nível atual, apareceram depósitos de águas rasas do tipo Lago Mare. Em outros lugares, o mesmo tipo de depósito aparece perto do nível do mar atual. Essa contradição aparente é uma das pistas que os pesquisadores tentam conciliar.
Como sabemos: sal, furos e canais enterrados
O sal foi achado em perfurações do fundo do mar. Depósitos rasos do tipo Lago Mare em furos de até 2.600 m de profundidade indicam que o mar já esteve muito abaixo do atual. Canais de rios enterrados, como o do Nilo, superfícies de erosão e a composição isotópica do cloro no sal-gema são os indicadores usados para estimar a queda. Cada pista tem limites: um furo é um ponto, a sísmica depende de interpretação, e os próprios autores dizem que esses indicadores não são lidos de forma unívoca.
Quanto secou: de 200 m a cerca de 2 km
As estimativas publicadas vão de cerca de 200 m a cerca de 2 km. Para o cânion enterrado do Nilo, a restauração do relevo deu cerca de 600 m, segundo Aloisi e colegas, que citam o estudo de 2022. Em 2024, o cloro da halita indicou 1,7 a 2,1 km no leste. Aloisi propõe que as duas medidas podem conviver se a queda grande foi curta. Por isso 'quase secou' é só uma das hipóteses publicadas, não um fato estabelecido.
O que provocou o isolamento
Há duas candidatas: o soerguimento tectônico que restringiu a passagem de Gibraltar e a queda glacial do nível do mar. Um estudo de 2015 reuniu sedimentos antárticos que indicam expansão do gelo por volta de 6 milhões de anos atrás e modelou uma baixa relativa de cerca de 50 m em Gibraltar, somada à evaporação e à deformação da litosfera pelo peso do sal. Os autores falam em interação entre fatores, não em uma causa única.
A inundação do Zancleano: o que está em debate
Em 2009, um modelo de incisão ligou um canal de cerca de 200 km em Gibraltar a uma cheia rápida, com 90% da água em meses a dois anos. Em 2018, um corpo caótico de sedimentos no Mar Jônico foi lido como rastro da mesma água. Em 2025, um modelo calculou o reenchimento em cerca de 2 anos. Ainda há quem questione: depósitos salobros acima do sal e a hipótese do Paratethys seguem como alternativas descritas na literatura.
Como sabemos
Os fatos básicos (período, sal, inundação) têm apoio forte, mas a amplitude da queda e a duração da inundação são estimativas em debate publicado.
Em debate: As estimativas vão de cerca de 200 m a cerca de 2 km. A restauração do cânion do Nilo (2022) dá cerca de 600 m; o cloro da halita (2024) dá 1,7 a 2,1 km no leste.
Em debate: Modelos de 2009 e 2025 indicam meses a cerca de 2 anos; a hipótese de megainundação tem apoio crescente, mas depósitos salobros acima do sal e a hipótese de transbordamento do Paratethys mantêm o debate.
- Consenso científico: A crise de salinidade do Messiniano durou de 5,97 a 5,33 milhões de anos atrás, período em que o Mediterrâneo ficou isolado do oceano global em graus variados. [5] Abstract
Contexto: Mar Mediterrâneo, final do Mioceno. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: O isolamento depositou cerca de um milhão de km³ de sal no fundo do Mediterrâneo. [2] Abstract
Contexto: Evaporitos do Mediterrâneo inteiro. · Limitações: O volume é estimado a partir de perfis sísmicos e furos; o valor exato varia entre estudos. · Ordem de grandeza (cerca de 10^6 km³); não é medida direta do volume total. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Esse sal retirou cerca de 5% do sal dissolvido nos oceanos. [2] Introduction
Contexto: Fração do sal oceânico da época. · Estimativa citada na introdução do estudo de 2025. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: As estimativas publicadas para a queda do nível do mar durante a crise vão de cerca de 200 m a cerca de 2 km, e se discute até se o depósito de sal veio com uma queda de 1 km ou mais. [4] Introduction
Contexto: Compilação feita pelos autores de 2024. · Limitações: Os indicadores usados (cânions, superfícies de erosão, fácies de evaporitos) não são interpretados de forma unívoca, dizem os autores. · Divergência real e publicada entre estudos recentes que usam métodos distintos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Segundo Aloisi e colegas, a restauração do cânion enterrado do Nilo, feita em outro estudo (Gvirtzman et al., 2022), indica uma queda de cerca de 600 m, bem menor que a calculada por eles. [4] Discussion
Contexto: Margem do Delta do Nilo, bacia oriental. · Limitações: Fonte de segunda mão: lemos Aloisi et al. 2024, que cita Gvirtzman et al. 2022; o artigo original não foi lido. Aloisi sugere que os dois valores podem coexistir se a queda grande foi curta. · Os dois números não coincidem; há tentativa de conciliação, não consenso. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: A composição isotópica do cloro no sal-gema (halita) indica uma queda de 1,7 a 2,1 km no Mediterrâneo oriental durante a crise. [4] Results
Contexto: Halita do poço Aphrodite e outros; método geoquímico independente dos canais enterrados. · Limitações: Estudo de 2024; valores dependem do modelo de evaporação e de salmouras adotado. · Resultado recente, em desacordo com os ~600 m do Nilo; ainda sem consenso. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: As causas do início da crise seguem discutidas: restrição tectônica da ligação com o Atlântico, queda glacial do nível do mar, ou uma combinação das duas. [3] Introduction
Contexto: Início da crise, cerca de 6 milhões de anos atrás. · Debate publicado em estudo de 2015; sem consenso estabelecido. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Sedimentos da Antártida indicam expansão da calota de gelo por volta de 6 milhões de anos atrás, coincidente com a dessecação do Mediterrâneo; uma modelagem aponta uma baixa do nível relativo de cerca de 50 m em Gibraltar. [3] Abstract
Contexto: Quatro sítios de perfuração da Antártida e do Oceano Austral, entre 60 revisados. · Limitações: A coincidência temporal e a modelagem de 2015 não provam sozinhas a causa; a queda de ~50 m é resultado de modelo, não medida. · Interpretação de um estudo de 2015; a modelagem inclui evaporação e deformação da litosfera pelo sal. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Em 2025, um modelo de evolução da paisagem propôs que a erosão de rios ao redor teria elevado gradualmente o nível do Mediterrâneo na fase final, o que ajudaria a conciliar depósitos de Lago Mare perto do nível atual com fósseis de águas rasas em furos profundos. [2] Introduction
Contexto: Final da crise (estágio 3, 5,55 a 5,33 milhões de anos atrás). · Limitações: Resultado de modelo numérico; o estudo o apresenta como hipótese testada, não como observação. · Hipótese de modelagem; ainda sem confirmação independente. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Furos de sondagem encontraram depósitos rasos do tipo Lago Mare em profundidades de até 2.600 m, evidência de que o nível já esteve muito abaixo do atual. [2] Introduction
Contexto: Furos no Mediterrâneo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: A hipótese da megainundação do Zancleano é vista como cenário plausível para o fim da crise, mas depósitos lacustres salobros acima do sal já foram usados para questioná-la, e um modelo alternativo propõe transbordamento do Paratethys antes da entrada atlântica. [5] Introduction [6] Introduction
Contexto: Debate sobre o fim da crise, 5,33 milhões de anos atrás. · Limitações: A frase 'cenário plausível' é dos autores de 2018; trabalhos posteriores (2025) dizem que apoiam a megainundação, sem fechar o debate. · O debate está descrito nas próprias fontes. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Um canal de erosão de cerca de 200 km atravessa o Estreito de Gibraltar e, segundo Garcia-Castellanos e colegas, foi escavado pela água da inundação do Zancleano. [1] Resumo
Contexto: Gibraltar, estudo de 2009 baseado em furos e sísmica. · Limitações: Os autores escrevem que os dados disponíveis são limitados. Resumo lido no PubMed. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Em debate: Um estudo de 2025 calcula que a bacia teria se reenchido em até cerca de 2 anos depois da reabertura de Gibraltar, e o de 2009 indicava 90% da água em meses a dois anos, depois de uma fase inicial de baixa vazão que pode ter durado milhares de anos; a duração exata segue em debate. [1] Resumo [5] Introduction
Contexto: Reenchimento pelo Estreito de Gibraltar; resultados de modelos numéricos. · Limitações: Os dois valores vêm de modelos; o estudo de 2009 afirma que seus dados são limitados. · Os números dependem do modelo e da profundidade do nível antes da inundação, que é debatida. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Hipótese: Se o nível oriental estava cerca de 2 km abaixo do atual, o colapso da soleira de Gibraltar teria causado a mais abrupta inundação da história geológica registrada, a megainundação do Zancleano. [5] Introduction
Contexto: Condicional ao nível rebaixado do mar oriental. · Limitações: A frase é condicional no original. · Depende de a queda ter chegado a ~2 km, que é uma das hipóteses em debate. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Um corpo sedimentar caótico no Mar Jônico, depositado sobre o sal, foi interpretado em 2018 como resíduo da passagem da megainundação do oeste para o leste do Mediterrâneo por uma passagem no sudeste da Sicília. [6] Abstract
Contexto: Bacia jônica ocidental, estudo de 2018 (sísmica e furos). · Limitações: 'Consistente com' não é 'prova'; os autores indicam que perfurações e modelagem ajudariam. · Interpretação de dados geofísicos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Nature — Catastrophic flood of the Mediterranean after the Messinian salinity crisis
Garcia-Castellanos, D. et al. · 2009 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/nature08555 - Science Advances — Kilometric sea level changes during the Messinian salinity crisis caused by river erosion and climate
García-Castellanos, D.; Heida, H.; Palcu, D. V.; Bulian, F.; Sierro, F. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.ads9752 - Nature Communications — Antarctic glacio-eustatic contributions to late Miocene Mediterranean desiccation and reflooding
Ohneiser, C. et al. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/ncomms9765 - Nature Communications — Chlorine isotopes constrain a major drawdown of the Mediterranean Sea during the Messinian Salinity Crisis
Aloisi, G. et al. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41467-024-53781-6 - Proceedings of the National Academy of Sciences — Transient oxygenation of the Mediterranean after the Zanclean megaflood
Amarathunga, U. et al. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2505429122 - Scientific Reports — Evidence of the Zanclean megaflood in the eastern Mediterranean Basin
Micallef, A. et al. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41598-018-19446-3
Histórico de alterações
- Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 18; conferência de trechos automatizada)