Ecologia

Quanto resta da Mata Atlântica: de 11% a 28%, conforme o método, e por que os fragmentos pequenos pesam

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Os seis biomas do Brasil

Não há um número único: as estimativas vão de 11,4% a 16% (Ribeiro et al., 2009), 12,4% (Atlas da SOS Mata Atlântica e do INPE), cerca de 24% (MapBiomas) e 28% (mapa de 5 m, 2018), porque cada uma conta algo diferente. Em todas, o que sobra está muito picotado: mais de 80% dos fragmentos têm menos de 50 ha e quase metade da floresta está a menos de 100 m de uma borda.

A Mata Atlântica se estende pela costa brasileira e por partes do Paraguai e da Argentina, e abriga uma das maiores riquezas de espécies e taxas de endemismo do planeta (endemismo: ocorrer só ali). Medir quanto resta depende de três escolhas: o que conta como floresta (só mata madura ou também mata secundária, em regeneração), o tamanho mínimo de fragmento que o mapa enxerga (de 0,5 ha a mais de 3 ha) e a resolução das imagens de satélite. Mudando as escolhas, o mesmo bioma dá 12% ou 28% sem que algum dos números esteja errado. Fragmento é um trecho de floresta isolado por pasto, lavoura ou cidade; borda é a margem dele, onde o clima e as espécies já mudam.

Quase nada da floresta original está em maciços grandes

No Atlas da SOS Mata Atlântica, os fragmentos de mais de 100 ha, chamados de maciços florestais, somam só 8,5% da área florestal original do bioma, a parte que mais serve de hábitat para espécies raras.

Por que há quatro números e nenhum está errado

Ribeiro et al. (2009) acharam 11,4% a 16% e atribuem a diferença para estimativas mais baixas à inclusão de florestas secundárias e fragmentos pequenos. O Atlas da SOS Mata Atlântica e do INPE chega a 12,4% porque conta só mata madura acima de 3 ha com dossel fechado. O MapBiomas, segundo a SOS, soma tudo acima de meio hectare e dá cerca de 24%. Rezende et al. (2018) usaram um mapa de 5 m e acharam 28% de vegetação nativa. Cada número responde a uma pergunta diferente.

Como sabemos: satélite, tamanho mínimo e definição de floresta

O Atlas interpreta visualmente imagens Landsat, imagens de resolução moderada, e só registra fragmentos acima de 3 ha com copas fechadas e sem sinais de degradação, como estradas e solo exposto. Mapas de resolução mais fina, como o de 5 m de 2018, enxergam trechos menores, o que tende a aumentar a área total. O limite desses métodos: o satélite mede cobertura, não a qualidade ecológica, e floresta secundária jovem não repõe, de imediato, a fauna da mata madura.

Fragmentos pequenos: borda, isolamento e limiares

Com mais de 80% dos fragmentos abaixo de 50 ha e quase metade da floresta a menos de 100 m da borda, boa parte da mata sofre efeito de borda, mudança de luz, calor e vento na margem. A distância média de 1.440 m entre fragmentos dificulta que animais e sementes passem de um para outro. Estudos de limiar mostram que, abaixo de certa cobertura na paisagem, as espécies de mata caem de forma mais abrupta: em besouros de esterco, em torno de 25%. É resultado de um grupo e de dez paisagens, não uma regra para todo o bioma.

Sinais de recuperação e seus limites

O mapa de 2018 fala em 28% de vegetação nativa e calcula que restaurar o passivo legal em áreas ribeirinhas poderia elevar essa fração a até 35%. É projeção, condicionada ao cumprimento da lei. A SOS Mata Atlântica, por outro lado, resume que a área total de florestas segue estável, mas com perda de florestas maduras e jovens, incluindo parte das em regeneração. Estabilidade da área não é recuperação da qualidade do hábitat. Planos de conservação ficam com o núcleo de Conservação.

Como sabemos

Números e definições vêm de resumos e de uma página institucional lida por inteiro; os artigos de 2009 e 2018 não foram abertos no texto completo.

Em debate: Os números divergem por definição, tamanho mínimo e resolução, não por erro de um lado. 12,4% (Atlas) conta só mata madura acima de 3 ha; cerca de 24% (MapBiomas) conta tudo acima de 0,5 ha, madura ou jovem; 28% (Rezende et al., 2018) vem de um mapa de 5 m de vegetação nativa. Qual usar depende da pergunta: mata madura bem conservada ou vegetação nativa total.

Fontes

  1. Biological Conservation (resumo via Europe PMC) — The Brazilian Atlantic Forest: How much is left, and how is the remaining forest distributed? Implications for conservation
    Ribeiro, M. C.; Metzger, J. P.; Martensen, A. C.; Ponzoni, F. J.; Hirota, M. M. · 2009 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.biocon.2009.02.021
  2. Perspectives in Ecology and Conservation (resumo via DOAJ) — From hotspot to hopespot: An opportunity for the Brazilian Atlantic Forest
    Rezende, C. L.; Scarano, F. R.; Assad, E. D.; Joly, C. A.; Metzger, J. P.; Strassburg, B. B. N.; Tabarelli, M.; Fonseca, G. A.; Mittermeier, R. A. · 2018 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.pecon.2018.10.002
  3. Fundação SOS Mata Atlântica, em colaboração com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) — Atlas da Mata Atlântica: dados mais recentes, perguntas frequentes e metodologia
    Fundação SOS Mata Atlântica; INPE · 2025 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  4. Critical Ecosystem Partnership Fund — Atlantic Forest (biodiversity hotspot)
    Critical Ecosystem Partnership Fund (CEPF) · 2011 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  5. PLoS ONE (Universidade Federal da Bahia) — Biodiversity thresholds in invertebrate communities: The responses of dung beetle subgroups to forest loss
    Pinto Leite, C. M.; Mariano-Neto, E.; Rocha, P. L. B. da · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0201368
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 8; conferência de trechos automatizada)

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