Biologia
Massospora muda o comportamento sexual de cigarras; catinona e psilocibina foram achadas, mas o elo é hipótese
Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026
Em cigarras periódicas, o fungo Massospora cicadina destrói os segmentos finais do abdômen e expõe os esporos, e machos infectados passam a emitir o estalo de asa típico de fêmeas, atraindo tentativas de cópula de outros machos. Catinona e psilocibina foram detectadas em cigarras infectadas, mas ninguém provou que sejam a causa dessa mudança.
Cigarras periódicas (Magicicada) emergem em massa a cada 13 ou 17 anos. Massospora é um fungo do grupo Entomophthorales que as infecta de dois modos. No estágio I, produz conídios (esporos infecciosos) numa massa que sai pelo abdômen rompido; no estágio II, produz esporos de resistência que caem no solo e esperam a geração seguinte. Em geral, fungos de insetos matam o hospedeiro antes de liberar esporos; Massospora os libera com o inseto ainda vivo e ativo. Que o fungo "manipule" a cigarra é a interpretação dos autores dos estudos, apoiada em observação e experimento, mas o mecanismo não está demonstrado.
Um genoma feito de repetições
O genoma de rascunho de Massospora cicadina tem 1,488 Gb, e 92% dele são elementos transponíveis, sequências capazes de se copiar pelo DNA. Um genoma assim grande ajuda a explicar a dificuldade de estudar esse fungo.
O que o fungo faz ao corpo da cigarra
Nos dois estágios, a infecção distende e destrói os segmentos terminais do abdômen, genitália incluída, em machos e fêmeas. O rompimento expõe os esporos. O estágio I ocorre cedo na emergência e usa esporos que infectam outros adultos do coro; o estágio II, mais tarde, forma esporos de resistência que caem no solo e esperam a geração seguinte, 13 ou 17 anos depois.
Como sabemos que o comportamento muda
Os pesquisadores tocaram cantos gravados de machos para cigarras e registraram quem respondia com o estalo de asa cronometrado, resposta antes vista só em fêmeas receptivas. Em 2002, 23 de 25 machos de estágio I responderam e nenhum dos 17 de estágio II; machos normais nunca responderam. O limite: os testes foram oportunistas, com poucos indivíduos por espécie, e a transmissão durante a cópula é esperada, não medida.
Catinona e psilocibina: o que foi medido
Em 2019, análises de espectrometria de massas encontraram catinona em Massospora cicadina de cigarras periódicas e psilocibina ou psilocina em Massospora de cigarras anuais (Michigan e Novo México). A identificação foi comparada a padrões analíticos. Cigarras sadias não tinham os compostos, e nem todas as infectadas tinham. A catinona se degradou no armazenamento, o que complica a quantificação em amostras antigas.
O que é hipótese
Falta provar que esses compostos causam a mudança de comportamento: não houve exposição de cigarras sadias a eles. Os autores admitem que os efeitos de atividade esperados de uma anfetamina não explicam o cortejo feminino em machos, e citam mudanças hormonais preliminares. Também não sabem quem produz os compostos: o fungo, a cigarra ou micróbios associados. Enzimas esperadas para as rotas não foram achadas no fungo.
Como sabemos
Comportamento e detecção química estão bem documentados em artigos abertos; o elo causal entre os compostos e o comportamento é hipótese.
Em debate: Catinona e psilocibina foram detectadas, mas não há experimento de exposição em cigarras sadias; os próprios autores dizem que os efeitos de atividade dessas drogas não explicam o cortejo feminino em machos e levantam também mudanças hormonais, ainda preliminares.
- Evidência forte: Machos de cigarras periódicas (Magicicada) com infecção de estágio I por Massospora cicadina, a que produz esporos infecciosos (conídios), emitem o estalo de asa cronometrado que normalmente só as fêmeas receptivas emitem. [1] Resumo
Contexto: Cigarras periódicas de várias ninhadas (Brood) nos EUA, observadas em campo e em experimentos de reprodução de cantos (playback) entre 1996 e 2003. · Limitações: Amostras pequenas por espécie; os próprios autores dizem que o número impede análise estatística em parte dos testes. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: Machos com infecção de estágio II, que produz esporos de resistência (destinados à geração seguinte), não emitem esse sinal feminino. [1] Resumo
Contexto: Mesma amostra de cigarras periódicas. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: Em 2002, 23 de 25 machos com estágio I responderam a cantos gravados com estalo de asa; nenhum dos 17 machos com estágio II respondeu. Somando 1996 a 2003, nenhum macho normal nem de estágio II respondeu. [1] Results
Contexto: Testes de playback com Magicicada, em geral Magicicada septendecim. · Limitações: Os totais 25 e 17 são soma nossa das duas linhas da Tabela 2 (23+2 e 0+17). O desenho é oportunista: os autores estudaram as ninhadas e espécies disponíveis. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os dois estágios de infecção causam distensão e perda dos segmentos terminais do abdômen, genitália incluída, em machos e fêmeas; o abdômen rompido expõe os esporos e permite sua dispersão. [1] Introduction
Contexto: Cigarras periódicas infectadas por Massospora cicadina. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Os estalos de asa dos machos infectados atraem machos sadios, que tentam copular repetidamente com eles; os autores esperam que esse contato aumente a transmissão, mas não acompanharam o resultado das cópulas. [1] Discussion
Contexto: Observações de campo e de gaiola com cigarras periódicas. · Limitações: A transmissão durante a cópula é inferida, não medida no estudo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Como machos de estágio I mostram comportamento masculino e feminino ao mesmo tempo, e os de estágio II não mostram o feminino, os autores consideram improvável que a infecção apenas devolva o macho a um fenótipo feminino “padrão”, por esterilidade ou dano ao órgão sexual. [1] Discussion
Contexto: Argumento dos autores sobre a lógica dos dois estágios. · Limitações: É um argumento por exclusão, não uma demonstração do mecanismo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em 2019, pesquisadores relataram catinona, uma anfetamina antes conhecida só em plantas, em cigarras periódicas infectadas por Massospora cicadina, e psilocibina, um composto antes conhecido só em cogumelos basidiomicetos, em cigarras anuais infectadas por Massospora levispora ou M. platypediae. [2] Discussion
Contexto: Cigarras infectadas coletadas nos EUA (periódicas em Ohio, Virgínia Ocidental e Carolina do Norte; anuais no Novo México e em Michigan), analisadas por espectrometria de massas. · Limitações: Identificação por massa e fragmentação comparadas a padrões analíticos; resultado de um grupo, sem replicação independente citada no artigo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os autores afirmam ser a primeira evidência de produção de anfetamina em fungos e de psilocibina fora dos Basidiomycota (afirmação de 2019, do próprio estudo). [2] Discussion
Contexto: Afirmação de pioneirismo feita no artigo de 2019. · Limitações: Superlativo atribuído aos autores; não verificamos literatura posterior. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Nas cigarras infectadas, a catinona foi quantificável em 44,3 a 303,0 ng por cigarra em quatro de seis massas fúngicas de uma ninhada; a psilocina, em 0,1 a 12,6 µg por cigarra em nove massas de cigarras anuais. Cigarras sadias não mostraram nenhum dos compostos. [2] Results, §3.4
Contexto: Massas de esporos (“plugs”) do abdômen; a psilocibina propriamente dita foi quantificável só em M. levispora de Michigan (7,3 a 19,4 ng por cigarra). · Limitações: Valores por cigarra, não concentração no tecido; a catinona se degradou em armazenamento (de 246 ng para 116 ng em quatro meses numa amostra-controle). Nenhuma conversão de unidade feita por nós. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os compostos não apareceram em todos os indivíduos infectados, mesmo em populações em que algum indivíduo os tinha. [2] Discussion
Contexto: Cigarras periódicas e anuais infectadas. · Limitações: Os autores listam como possíveis causas variação natural, degradação da amostra, estágio da doença e limite de detecção. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Os autores não sabem como esses compostos são produzidos: faltam no fungo enzimas esperadas para as duas rotas, e uma possibilidade levantada é que a própria cigarra os produza após a infecção. É hipótese, não resultado. [2] Discussion [3] Announcement
Contexto: Metagenomas de massas fúngicas de campo; busca de genes das rotas da catinona e da psilocibina. · Limitações: Depois de 2019 saiu um genoma de rascunho de M. cicadina (2022), mas o texto lido não indica que ele tenha resolvido a origem dos compostos. · Hipótese em aberto; não é consenso. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Incerto: Sem experimentos de exposição com cigarras sadias, o mecanismo pelo qual esses compostos alterariam o comportamento não está resolvido; efeitos de atividade da anfetamina e da psilocibina não explicam bem o comportamento de cortejo feminino em machos. [2] Discussion
Contexto: Avaliação dos próprios autores do estudo químico. · Limitações: Estado do conhecimento em 2019; verificar estudos posteriores antes de afirmar que a questão segue aberta. · O estudo mostra presença dos compostos, não causa do comportamento. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Incerto: A base da hipersexualização observada permanece desconhecida; os compostos identificados podem estar envolvidos no todo ou em parte, ou ter outras funções. [2] Discussion
Contexto: Conclusão dos autores em 2019. · Limitações: Idem a12. · Hipótese em aberto. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Massospora tem mais de uma dúzia de espécies, todas patógenas obrigatórias e transmissíveis sexualmente, que infectam ao menos 21 espécies de cigarras no mundo. [2] Introduction
Contexto: Contagem baseada em literatura citada pelo artigo de 2019. · Limitações: Número de espécies sujeito a revisão taxonômica; o próprio artigo mostra que M. levispora e M. platypediae podem ser uma só. · “Mais de uma dúzia” e “ao menos 21” são contagens de 2019. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Massospora pertence ao grupo Entomophthorales, que reúne os fungos de insetos com “transmissão ativa pelo hospedeiro”: o fungo mantém ou acelera a atividade normal do inseto durante a esporulação, o que permite dispersão rápida antes da morte. [2] Introduction
Contexto: Definição usada pelos autores; contrasta com a “doença do topo” (insetos que sobem e morrem antes de liberar esporos). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O estágio I produz conídios haploides que infectam outras cigarras adultas do coro; o estágio II, no fim da emergência, produz esporos de resistência diploides que caem no solo e completam o ciclo infectando a geração seguinte. [1] Introduction
Contexto: Cigarras periódicas, que emergem a cada 13 ou 17 anos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O genoma de rascunho de Massospora cicadina tem 1,488 Gb, e elementos transponíveis respondem por 92% dele. [3] Resumo
Contexto: Montagem de 2022 a partir de esporos de cigarras infectadas da Pensilvânia. · Limitações: Genoma de rascunho: 19.694 scaffolds, 71% dos marcadores eucarióticos completos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Scientific Reports — A specialized fungal parasite (Massospora cicadina) hijacks the sexual signals of periodical cicadas (Hemiptera: Cicadidae: Magicicada)
Cooley, J. R. et al. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-018-19813-0 - Fungal Ecology — Psychoactive plant- and mushroom-associated alkaloids from two behavior modifying cicada pathogens
Boyce, G. R. et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.funeco.2019.06.002 - Microbiology Resource Announcements — An Improved 1.5-Gigabase Draft Assembly of Massospora cicadina (Zoopagomycota), an Obligate Fungal Parasite of Periodical Cicadas
Stajich, J. E. et al. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1128/mra.00367-22
Histórico de alterações
- Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 5; conferência de trechos automatizada)