Astronomia

Água líquida sob o gelo do polo sul de Marte? O que o radar MARSIS viu e por que o lago é contestado

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Astrobiologia

Em 2018, o radar MARSIS, da sonda Mars Express, registrou reflexões muito brilhantes na base da calota polar sul de Marte, numa zona de cerca de 20 km e a uns 1,5 km de profundidade, e a equipe as interpretou como água líquida. Estudos posteriores explicam o sinal sem lago (camadas que interferem entre si, argilas) e modelos térmicos dificultam a água; o debate segue aberto.

Um radar de sondagem envia pulsos de rádio de baixa frequência através do gelo e mede o tempo e a potência dos ecos. O MARSIS faz isso em Marte, a bordo da sonda Mars Express, da ESA. Uma interface entre gelo e água, ou entre gelo e sedimento saturado de água, devolve um eco forte, e a intensidade depende da permitividade dielétrica relativa do material de baixo, medida de como ele interage com ondas de rádio. Na Terra, valores acima de 15 indicam água sob o gelo. O problema é que o eco informa a permitividade, não a identidade do material: outros arranjos de camadas e outros materiais podem produzir um sinal parecido. Por isso a leitura de lago é uma hipótese em disputa, e não uma descoberta consolidada.

Uma régua emprestada da Terra

O limiar de permitividade acima de 15 vem de levantamentos radar na Antártida e na Groenlândia. A equipe de 2018 o aplicou a Marte; críticos respondem que camadas de gelo de CO2 e de gelo com poeira podem dar um eco igualmente forte, sem água nenhuma.

Como o radar enxerga sob o gelo

O MARSIS mede o tempo de ida e volta entre o eco da superfície e o eco do fundo da calota. Com a velocidade do sinal próxima à do gelo de água, a equipe de 2018 situou o fundo a cerca de 1,5 km. A potência do eco de fundo, dividida pela da superfície, permite estimar a permitividade do material de baixo. Como a antena não pôde ser calibrada em solo, só razões relativas valem, e a pegada do radar, de 3 a 5 km, impede ver o relevo do leito em detalhe.

2018 e 2020: da zona de 20 km às várias manchas

Orosei e colegas analisaram perfis de 2012 a 2015 e acharam uma zona brilhante de cerca de 20 km. Ali a permitividade ficou acima de 15, valor que na Terra indica água; fora dela, ficou entre 4 e 15, típico de rocha seca. Em 2020, Lauro et al. reanalisaram 134 perfis de 2010 a 2019 e indicaram outras áreas úmidas, com o corpo principal em cerca de 20 por 30 km. Ambos consideram plausível uma salmoura de percloratos.

Explicações sem água líquida

Lalich, Hayes e Poggiali simularam ecos com camadas de gelo de água, gelo de CO2 e basalto e obtiveram, sem água, reflexos tão fortes quanto os observados, por interferência entre camadas. A forma do eco não separa as hipóteses. Segundo Landis e Whitten, outros trabalhos propõem argilas esmectitas, e o mesmo processamento gerou refletores brilhantes sobre terrenos vulcânicos equatoriais. São cenários compatíveis com o eco, não demonstrações.

Por que um lago é difícil de sustentar e o que decidiria

Ojha, Buffo e Journaux concluem, por modelos térmicos, que lagos só se formariam em circunstâncias excepcionais. Landis e Whitten mapearam a superfície sobre as manchas e não acharam modificações ligadas a elas, o que não descarta água na base. Lauro et al. respondem que sais baixam o ponto de congelamento. Segundo Landis e Whitten, novos dados observacionais são essenciais; nas fontes lidas, nenhuma medida direta confirmou ou descartou a água.

Como sabemos

O que o radar viu está bem documentado; a causa do sinal é debate aberto, e duas fontes são pré-publicações lidas em arXiv.

Em debate: Orosei et al. (2018) e Lauro et al. (2020) leem água líquida, possivelmente salmoura de percloratos; Lalich, Hayes e Poggiali simulam o mesmo eco com camadas de gelo de água, gelo de CO2 e rocha; Landis e Whitten citam argilas esmectitas e gelo salino como alternativas (Smith et al.; Bierson et al.); Ojha, Buffo e Journaux apontam que modelos térmicos exigem condições excepcionais para um lago. Não há consenso.

Fontes

  1. Science 361, 490 (2018); versão do autor no arXiv — Radar evidence of subglacial liquid water on Mars
    Orosei, R. et al. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1126/science.aar7268
  2. Agência Espacial Europeia (ESA) — Mars Express detects liquid water hidden under planet's south pole
    ESA · 2018-07-25 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
  3. Nature Astronomy (2020); versão do autor no arXiv — Multiple subglacial water bodies below the south pole of Mars unveiled by new MARSIS data
    Lauro, S. E. et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41550-020-1200-6
  4. Cornell Center for Astrophysics and Space Science (pré-publicação no arXiv) — Explaining bright radar reflections below the Martian south polar layered deposits without liquid water
    Lalich, D. E.; Hayes, A. G.; Poggiali, V. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
  5. Geophysical Research Letters (manuscrito aceito, no arXiv); Universidade do Colorado e Universidade Tulane — Geologic context of the bright MARSIS reflectors in Ultimi Scopuli, South Polar Layered Deposits, Mars
    Landis, M. E.; Whitten, J. L. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1029/2022GL098724
  6. Universidade Rutgers, Dartmouth College e Universidade de Washington (manuscrito submetido à GRL, no arXiv) — Thermophysical assessment on the feasibility of basal melting in the south polar region of Mars
    Ojha, L.; Buffo, J.; Journaux, B. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 19; conferência de trechos automatizada)

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