Astronomia

Para onde foi a atmosfera de Marte: a MAVEN mediu o vento solar arrancando gás, e 66% do argônio já saiu

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Sistema Solar

A sonda MAVEN, da NASA, mediu a perda atual: o vento solar arranca gás da alta atmosfera de Marte a cerca de 100 gramas por segundo (valor de 2015), e mais durante tempestades solares. O argônio indica que 66% dele já foi perdido para o espaço. Que o fim do campo magnético global do planeta tenha causado isso é hipótese, ainda em teste, e a pressão da atmosfera antiga segue incerta.

O vento solar é um fluxo de partículas, principalmente prótons e elétrons, que parte do Sol. Marte, ao contrário da Terra, não tem hoje um campo magnético global gerado no núcleo (um dínamo), e por isso o vento solar interage direto com a alta atmosfera. Lá, o campo elétrico do vento acelera íons, átomos com carga elétrica, e os lança ao espaço; íons que caem de volta batem em outros átomos e podem dar a eles velocidade de escape, a pulverização atmosférica. O argônio, gás nobre pesado, serve de marcador porque poucos processos o removem. Há evidência de água líquida na superfície bilhões de anos atrás, o que exigiria pressão bem maior que a atual.

Moedas do caixa

Cem gramas por segundo somam cerca de 8,6 toneladas por dia e 3,2 mil toneladas por ano, se a taxa fosse constante (conta nossa). O pesquisador-chefe comparou isso a levar moedas de um caixa: pouco por dia, muito ao fim de bilhões de anos.

Como sabemos: o argônio revela quanto saiu

O argônio é um gás nobre pesado, e poucos processos o removem. A pulverização atmosférica arranca de preferência o isótopo leve (36Ar), então o que sobra fica enriquecido no pesado (38Ar). A MAVEN mediu como a razão 38Ar/36Ar varia com a altitude, na alta atmosfera. Para chegar à razão observada, 66% do argônio teria de ter saído. O limite: é um resultado para o argônio, calculado com um modelo, não a perda de toda a atmosfera.

O que se vê hoje: cauda, pluma e tempestades solares

Em 2015, a equipe da MAVEN estimou a perda por vento solar em cerca de 100 gramas por segundo e viu a erosão aumentar durante tempestades solares. Quase 75% dos íons que escapam saem pela cauda de Marte e perto de 25% por uma pluma sobre os polos. Em 2025, nove anos de dados mostraram, acima de 350 km, mais argônio no hemisfério em que o campo elétrico empurra íons para baixo, sinal de pulverização, em taxa mais de quatro vezes acima do previsto por modelos.

O campo magnético: causa provável ou hipótese?

A ideia de que o fim do dínamo marciano deixou a atmosfera exposta é uma hipótese antiga, e não uma conclusão. Falta saber se o campo parou antes da perda forte: dados magnéticos da MAVEN apontam um dínamo ativo há 4,5 e 3,7 bilhões de anos, e um campo fraco poderia até aumentar a perda. Amostras trazidas por missões futuras, como as coletadas pelo Perseverance, poderão medir idade e intensidade do campo antigo.

Quanta atmosfera havia e o que a perda explica

A perda para o espaço contribuiu para a transição do clima, mas não explica tudo sozinha. Um modelo de 2015, com isótopos de carbono, indica pressão inicial abaixo de 1 bar, e só com muito carbonato formado em lagos abertos chega a 1,8 bar. A faixa segue incerta, e o carbono preso em rochas, além do escape, também entra na conta.

Como sabemos

A taxa atual e o argônio vêm de fonte primária e da NASA, mas a taxa citada é de 2015, o artigo do argônio foi lido só no resumo e a causa magnética é hipótese.

Em debate: Há a hipótese de que o declínio do dínamo marciano levou à perda da atmosfera, mas a data em que o campo cessou é discutida (dados da MAVEN sugerem atividade até cerca de 3,7 bilhões de anos) e um campo fraco pode até aumentar a perda; não há consenso.

Fontes

  1. Science — Mars' atmospheric history derived from upper-atmosphere measurements of 38Ar/36Ar
    Jakosky, B. M. et al. · 2017 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.aai7721
  2. NASA — NASA Mission Reveals Speed of Solar Wind Stripping Martian Atmosphere
    NASA · 2015-11-05 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. Science Advances — First direct observations of atmospheric sputtering at Mars
    Curry, S. M. et al. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.adt1538
  4. Proceedings of the National Academy of Sciences — What we can learn about Mars from the magnetism of returned samples
    Weiss, B. P. et al. · 2025 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2404259121
  5. Science Advances — Timing of the martian dynamo: New constraints for a core field 4.5 and 3.7 Ga ago
    Mittelholz, A. et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.aba0513
  6. Nature Communications — Tracing the fate of carbon and the atmospheric evolution of Mars
    Hu, R.; Kass, D. M.; Ehlmann, B. L.; Yung, Y. L. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/ncomms10003
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 9; conferência de trechos automatizada)

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