Zoologia

Mariposas ouvem o sonar dos morcegos, desviam e algumas respondem com cliques que atrapalham o eco

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Sentidos dos animais

Muitas mariposas têm ouvidos que captam o ultrassom dos morcegos e disparam manobras de fuga: virar para longe, voar em ziguezague ou despencar. Algumas ainda respondem com cliques ultrassônicos. Na mariposa-tigre Bertholdia trigona, esses cliques interferem no sonar: em experimento de campo, morcegos capturaram mais de 10 vezes mais mariposas silenciadas do que mariposas que clicavam.

O sonar do morcego é uma sequência de chamados ultrassônicos, acima do que ouvimos, e o eco informa onde está a presa. A mariposa tem um órgão timpânico: um ouvido com membrana (tímpano) que vibra com esse som e envia sinais ao sistema nervoso. Ele não fica na cabeça, e sim em regiões variadas do corpo conforme o grupo. Ao ouvir o chamado, a mariposa pode se afastar, mudar de rota ou cair. Alguns grupos também produzem som: as mariposas-tigre (subfamília Arctiinae) usam tímbalos, placas finas de cutícula que estalam sob a força de músculos. O "ciclo de trabalho" (duty cycle) mede a fração do tempo, numa janela de 100 ms, ocupada por som.

Uma janela de 2 milissegundos

Para atrapalhar a medida de distância, o clique da mariposa precisa chegar ao ouvido do morcego dentro de uma janela curta, de cerca de 2 ms, logo antes do eco. Cliques longos e frequentes têm mais chance de cair nela, e é por isso que o ciclo de trabalho importa.

O ouvido que escuta o caçador

Ouvidos timpânicos existem em uma ampla maioria dos lepidópteros, cerca de 85% das espécies de Macroheterocera, segundo Barber e colegas [a1]. A hipótese é que tenham surgido para vigiar o ambiente e depois servido contra morcegos [a2]. A reação depende do perigo: chamados fracos e espaçados, de morcego distante, causam viradas leves; pulsos fortes e frequentes, de morcego próximo, causam voo errático [a3], e cair no chão é a última cartada [a4]. Fugir não garante nada: um estudo citado por Nakano e Mason fala em cerca de 37% de captura em perseguição direta [a5].

Como sabemos que o clique atrapalha o morcego

Em 2009, gravação ultrassônica e vídeo infravermelho de alta velocidade mostraram que a Bertholdia trigona, mariposa palatável, se defende com cliques que interferem no sonar [a7]. Em 2012, no campo, com câmeras calibradas em 3D e quatro microfones, os morcegos capturaram mais de 10 vezes mais mariposas silenciadas que clicantes [a8]. Em 2011, em sala de voo, os erros de cerca de 15 a 20 cm combinaram com a interferência na medida de distância, e não com ecos falsos [a9]. O controle (órgão sonoro removido) é o que separa o efeito do clique do resto da fuga.

Interferir é questão de grau, e o morcego reage

O clique precisa cair numa janela de cerca de 2 ms antes do eco [a10]. Em 2022, a reprodução de cliques com ciclos de trabalho de 0 a 46% mostrou queda contínua do sucesso dos morcegos conforme o ciclo subia, sem limiar claro; com 0%, 77% das mariposas foram capturadas [a11]. Os morcegos alongaram o buzz e capturaram mais ao fazê-lo [a12]. Limites: três morcegos de uma espécie, mariposas amarradas e alto-falante a 1 m. Os autores pedem mais animais e espécies antes de generalizar.

Quão comum é e o que falta saber

Entre 252 gêneros de mariposas grandes testados nos trópicos, 52 produziram ultrassom ao ouvir o sonar [a13]. Isso é um piso: os autores falam em subestimativa. Na maioria dos casos o som parece avisar ou imitar espécies de gosto ruim, como no clique de Cycnia tenera, que levou morcegos a largar 75% das capturas [a15]. Evidência preliminar indica que a interferência surgiu de forma independente em ao menos seis subfamílias [a14]. O que o som faz em cada espécie só se confirma com testes contra morcegos, como os feitos para B. trigona.

Como sabemos

Resultados experimentais publicados e repetidos por grupos e métodos diferentes; a parte mais frágil é a generalização para outras mariposas e morcegos.

Fontes

  1. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Anti-bat ultrasound production in moths is globally and phylogenetically widespread
    Barber, J. R. et al. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2117485119
  2. Journal of Experimental Biology — High duty cycle moth sounds jam bat echolocation: bats counter with compensatory changes in buzz duration
    Fernández, Y.; Dowdy, N. J.; Conner, W. E. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1242/jeb.244187
  3. Science — Tiger moth jams bat sonar
    Corcoran, A. J.; Barber, J. R.; Conner, W. E. · 2009 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.1174096
  4. Journal of Experimental Biology — Sonar jamming in the field: effectiveness and behavior of a unique prey defense
    Corcoran, A. J.; Conner, W. E. · 2012 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1242/jeb.076943
  5. PLoS ONE — Early erratic flight response of the lucerne moth to the quiet echolocation calls of distant bats
    Nakano, R.; Mason, A. C. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0202679
  6. Journal of Experimental Biology — How do tiger moths jam bat sonar?
    Corcoran, A. J.; Barber, J. R.; Hristov, N. I.; Conner, W. E. · 2011 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1242/jeb.054783
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 7; conferência de trechos automatizada)

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