Evolução

Mariposa-da-pimenta: o caso clássico de seleção natural resiste às críticas? Testes e o gene da cor

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Evolução biológica

O caso se sustenta no essencial, com ressalvas. O experimento clássico de Kettlewell (anos 1950) tinha falhas de método: mariposas soltas em troncos, em densidade alta. Majerus repetiu o teste em condições naturais, com 4.864 mariposas em seis anos, e aves comeram mais as escuras do que as claras. A mutação da forma escura é a inserção de um elemento transponível no gene cortex, datada por cálculo em cerca de 1819.

A mariposa Biston betularia tem uma forma clara e salpicada (typica) e uma forma escura, quase uniforme (carbonaria), determinada por alelos dominantes de um único lócus (posição no cromossomo). Na Inglaterra do século XIX a forma escura se tornou comum onde a fuligem do carvão escurecia as superfícies, e em partes das regiões industriais a clara quase desapareceu. A explicação clássica é camuflagem: aves comem com mais facilidade as mariposas que contrastam com o fundo. Depois dos anos 1960, com a melhora do ar, a forma escura recuou. A explicação geral da seleção natural está em outro artigo; aqui o foco é o que desse caso pôde ser conferido e o que foi contestado.

O mesmo trecho do genoma, em outra borboleta

A região do genoma onde fica a mutação da carbonaria é ortóloga (equivalente por ancestralidade comum) a um lócus que controla padrões de asa e formas de mimetismo em borboletas do gênero Heliconius. Em 2016 o gene envolvido foi identificado: cortex.

O que Kettlewell mostrou, e o que não conseguia mostrar

Kettlewell coordenou levantamentos nacionais da frequência das formas e produziu a primeira evidência convincente de que aves comem as mariposas de modo seletivo. Os testes, porém, usavam troncos como local de repouso, densidades altas e mariposas de criação. Em áreas industriais, a forma escura teve vantagem de até 2 para 1; onde era rara, a clara se saiu melhor. O padrão era coerente, mas o método deixava margem para dúvida sobre o quão naturais eram as condições.

Críticas de método e acusação de fraude

Nos anos 1980 e 1990 apontaram-se os troncos como repouso incomum, a densidade alta e a mistura de mariposas de criação. Em 2002, a jornalista Judith Hooper chegou a sugerir fraude nos experimentos de Kettlewell, e não cientistas usaram as ressalvas para atacar a evolução. Cook e colegas consideram a acusação de fraude infundada. A crítica metodológica era legítima; a de fraude não foi apoiada nos trabalhos que esses autores citam, que não pudemos abrir.

O experimento de Majerus, ponto a ponto

Majerus quis responder às críticas: soltou as mariposas em densidade baixa, em ramos e troncos, nas proporções locais, e observou aves e morcegos. As escuras foram comidas mais; o coeficiente foi 0,091 por dia, com intervalo de 0,028 a 0,157. Limites: um único jardim, um único conjunto de pesquisadores, desaparecimento tratado como predação, e só cerca de um quarto delas visto sendo comido. Majerus morreu em 2009; o estudo foi publicado por outros autores em 2012.

O gene e o que ainda se debate

O gene é cortex, com um elemento transponível inserido no primeiro íntron; a datação, por volta de 1819, é estimativa. O resumo do estudo diz que os autores só começaram a investigar como o elemento atua. Quanto ao declínio, o levantamento de 2002 indicou dispersão maior que a suposta, e a revisão de 2013 deixa em aberto o peso de migração, predação e vantagem não visual. A predação visual segue como o principal fator.

Como sabemos

Predação por aves como principal fator tem apoio de experimentos e revisões, e a mutação foi identificada, mas parte das fontes é de segunda mão ou só em resumo, e as fontes têm interesse na tese.

Em debate: Autores como Cook, Saccheri, Grant e Majerus defendem que a predação visual é o fator principal; críticos apontaram problemas de método nos testes clássicos e papéis possíveis para migração e vantagem não visual. A revisão de 2013 concorda que a predação é o fator principal, mas deixa em aberto o peso dos demais.

Fontes

  1. Biology Letters (The Royal Society) — Selective bird predation on the peppered moth: the last experiment of Michael Majerus
    Cook, L. M.; Grant, B. S.; Saccheri, I. J.; Mallet, J. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rsbl.2011.1136
  2. Heredity (The Genetics Society) — The peppered moth and industrial melanism: evolution of a natural selection case study
    Cook, L. M.; Saccheri, I. J. · 2013 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/hdy.2012.92
  3. Proceedings of the National Academy of Sciences (EUA) — Selection and gene flow on a diminishing cline of melanic peppered moths
    Saccheri, I. J.; Rousset, F.; Watts, P. C.; Brakefield, P. M.; Cook, L. M. · 2008 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.0803785105
  4. Nature — The industrial melanism mutation in British peppered moths is a transposable element
    van't Hof, A. E.; Campagne, P.; Rigden, D. J.; Yung, C. J.; Lingley, J.; Quail, M. A.; Hall, N.; Darby, A. C.; Saccheri, I. J. · 2016 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/nature17951
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)

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