História do Brasil
Maria Quitéria, o “soldado Medeiros”, lutou pela independência na Bahia e foi condecorada por Dom Pedro I em 1823
Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Maria Quitéria de Jesus nasceu em 1792 na região de Feira de Santana, na Bahia. Em 1822, com a guerra contra as tropas portuguesas em curso, fugiu de casa, vestiu roupas do cunhado e alistou-se como “soldado Medeiros” no Regimento de Artilharia e depois no Batalhão dos Periquitos. Destacou-se em combates como os de Pituba e Itapuã. Em 20 de agosto de 1823, Dom Pedro I lhe concedeu o soldo de alferes e a insígnia de cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro. Morreu em Salvador, em 1853.
Quando Dom Pedro I proclamou a Independência, em 7 de setembro de 1822, tropas portuguesas continuaram a ocupar a Bahia, e só foram expulsas em 2 de julho de 1823, data celebrada como a Independência da Bahia. Maria Quitéria, de 30 anos, pediu ao pai licença para lutar e foi proibida; fugiu e se alistou. Quando sua identidade foi descoberta, o comando preferiu não perder a combatente: em março de 1823, uma portaria mandou fornecer a ela saiotes. Foi promovida a primeiro cadete e, depois da guerra, foi recebida no Rio de Janeiro por Dom Pedro I. Na volta, viveu sem grande conforto e morreu quase no anonimato, em Salvador. Seu nome entrou no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria em 2018.
Quatro nomes da Bahia no Livro da Pátria
A Lei 13.697, de 2018, inscreveu Maria Quitéria no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria junto com Sóror Joana Angélica, Maria Felipa de Oliveira e João das Botas. Maria Felipa, mulher negra, comandou uma resistência popular contra as tropas portuguesas na ilha de Itaparica.
A fuga de casa
Nascida em 1792 na região de Feira de Santana, filha de um lavrador, Maria Quitéria perdeu a mãe aos 10 anos. Em 1822, quando a guerra contra os portugueses chegou à Bahia, um emissário foi à casa do pai atrás de apoio e voluntários. Ela pediu licença para lutar, ouviu que mulheres fiam, tecem e bordam, e fugiu. Com a ajuda da irmã, obteve roupas e assumiu o nome do cunhado, José Cordeiro de Medeiros, passando a se chamar Soldado Medeiros.
Nos batalhões
Em setembro de 1822, aos 30 anos, assentou praça no regimento de artilharia e, por sua habilidade com armas, foi transferida para a infantaria do Batalhão dos Periquitos. Destacou-se nos combates de Pituba, de Itapuã e da foz do Paraguaçu. Quando se soube que era mulher, o comando não quis perdê-la; em março de 1823, uma portaria mandou fornecer saiotes ao cadete Maria Quitéria. O general Pedro Labatut lhe deu as honras de primeiro cadete. A guerra terminou com a expulsão definitiva dos portugueses, em 2 de julho de 1823.
O Rio e a volta
Em 20 de agosto de 1823, Dom Pedro I lhe concedeu o soldo de alferes e a insígnia de cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro. No Rio, encontrou a inglesa Maria Graham, que registrou o encontro em um diário e inspirou o primeiro retrato dela, de Augustus Earle. Em setembro voltou à Serra da Agulha e, casada com Gabriel Pereira de Brito, teve uma filha. Entre 1823 e 1843, brigou na Justiça pela herança do pai. Viúva, mudou-se para Salvador, onde morreu em 21 de agosto de 1853.
Memória e mito
Os documentos sobre sua vida antes de 1822 são escassos, e a UFF registra que houve uma mistificação em torno de sua figura. Ela foi retratada como “donzela-guerreira” em textos desde o século XIX, e há estudos sobre como o Exército a transformou em símbolo, tornando-a patrona do Quadro Complementar de Oficiais em 1996. Em 2018, a Lei 13.697 inscreveu seu nome no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, ao lado de outros três nomes da Independência baiana.
Como sabemos
Os marcos (alistamento, condecoração, morte, leis) estão em fontes públicas e universitárias; a infância e o modo da descoberta têm pouca base documental.
Em debate: Os documentos sobre sua vida antes de entrar na guerra são escassos, segundo o Portal do Bicentenário, e a UFF registra que sua figura foi alvo de imagética e mistificação. Há pesquisas acadêmicas sobre a construção do mito de Maria Quitéria, inclusive pelo Exército.
Em debate: O local de nascimento aparece de formas diferentes: sítio do Licurizeiro (Câmara dos Deputados) ou São José das Itapororocas (MultiRio e UFF), ambos na região de Feira de Santana.
Em debate: O momento e o modo como sua identidade feminina foi descoberta variam nos relatos: denúncia do pai, ou outro sinal. O que está documentado é a portaria de março de 1823 pedindo saiotes para o “cadete Maria Quitéria”.
Em debate: Ela não foi a única mulher a combater na independência: o Senado lembra Maria Felipa de Oliveira e Sóror Joana Angélica.
- Estimativa: Maria Quitéria de Jesus nasceu em 1792, na atual região de Feira de Santana (BA); a data tradicional é 27 de julho. [1] [2] [3] [5]
A Câmara cita o sítio do Licurizeiro; MultiRio e a UFF citam São José das Itapororocas, e o Portal do Bicentenário lembra que há controvérsias sobre os anos anteriores à guerra por falta de documentos. - Fato estabelecido: Era filha de Gonçalo Alves de Almeida e de Quitéria Maria de Jesus, e perdeu a mãe aos 10 anos. [2] [3]
- Fato estabelecido: Em 1822, com os conflitos da Independência na Bahia, pediu ao pai licença para ser voluntária, ele negou, e ela fugiu de casa; com roupas e o nome do cunhado, José Cordeiro de Medeiros, passou a ser o “soldado Medeiros”. [2] [3]
- Fato estabelecido: Assentou praça em setembro de 1822, aos 30 anos, no Regimento de Artilharia, e foi depois transferida para a infantaria do Batalhão dos Periquitos. [1] [3]
- Fato estabelecido: Destacou-se nas batalhas de Pituba, Itapuã e da foz do rio Paraguaçu. [3]
- Fato estabelecido: A identidade feminina foi descoberta durante o serviço, em momento que as fontes não precisam; a portaria de 28 de março de 1823 do Conselho Interino do Governo mandou entregar ao “cadete Maria Quitéria” dois saiotes. [3]
- Fato estabelecido: O general Pedro Labatut lhe concedeu as honras de primeiro cadete. [3]
- Fato estabelecido: Em 20 de agosto de 1823, Dom Pedro I lhe concedeu o soldo de alferes de linha e a insígnia de cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro. [2] [3]
- Fato estabelecido: Casou-se com o lavrador Gabriel Pereira de Brito, com quem teve a filha Luísa Maria da Conceição, e entre 1823 e 1843 recorreu ao Juiz de Órfãos de Feira de Santana na disputa pela herança do pai. [3]
- Fato estabelecido: Morreu em Salvador, em 21 de agosto de 1853, de inflamação no fígado, e foi sepultada em um pequeno cemitério. [2] [3]
- Fato estabelecido: Foi reconhecida como patrona do Quadro Complementar de Oficiais do Exército em 1996. [2]
- Fato estabelecido: A Lei 13.697, publicada em 27 de julho de 2018, inscreveu no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria os nomes de Maria Quitéria de Jesus Medeiros, Sóror Joana Angélica, Maria Felipa de Oliveira e João Francisco de Oliveira (João das Botas). [1]
- Fato estabelecido: Maria Felipa de Oliveira foi uma mulher negra que comandou uma resistência popular contra tropas e embarcações portuguesas na ilha de Itaparica. [1]
- Interpretação: A figura de Maria Quitéria foi construída e remodelada por obras literárias e historiográficas desde o século XIX, como “donzela-guerreira” e heroína nacional, e há estudos sobre a construção dessa memória pelo Exército. [3] [4] [5]
Leitura de estudos acadêmicos; a base documental sobre sua vida antes de 1822 é escassa.
Fontes
- Agência Senado — Lei inclui nomes de mártires baianos no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria
consultada em 04/10/2026 - MultiRio (Prefeitura do Rio de Janeiro) — Maria Quitéria, primeira soldada e heroína da Independência
consultada em 04/10/2026 - Impressões Rebeldes, Departamento de História da UFF — Maria Quitéria de Jesus
consultada em 04/10/2026 - Pontos de Interrogação, Universidade do Estado da Bahia (UNEB) — Maria Quitéria / Soldado Medeiros: um soldado entre as condecorações nacionais e o esquecimento
consultada em 04/10/2026 - Portal do Bicentenário (rede de pesquisadores de universidades públicas) — Maria Quitéria
consultada em 04/10/2026
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