Paleontologia
Marcas de dente em ossos fósseis: como a ciência liga um predador à sua presa
Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026
Assuntos: Fósseis
Quatro pistas ligam um predador a um osso: o formato e o espaçamento das marcas, que se comparam com dentes conhecidos; um dente deixado na ferida; a cicatrização do osso, que mostra que a presa estava viva; e o contexto, que descarta outras causas. Um dente atribuído a Tyrannosaurus rex, preso na cauda de um hadrossauro, e cercado de osso regenerado, reúne várias delas.
Um dente que rasga ou perfura um osso deixa vestígios: furos isolados (pit e puncture, em inglês), riscos rasos (score) e sulcos longos (furrow). Dentes com serrilha, como os dos tiranossauros, deixam estrias paralelas. O problema é que a marca sozinha não diz se o animal foi caçado ou se o predador comeu uma carcaça. Só o osso que cicatriza prova que a presa sobreviveu à mordida, porque o osso morto não se regenera. Por isso os paleontólogos combinam o desenho das marcas, a comparação com mandíbulas e dentes de espécies que viveram no mesmo lugar e na mesma época, e a busca por sinais de reparo ou de doença.
Nem todo furo é mordida
Num sítio de Wyoming com mais de 3 mil ossos de Edmontosaurus, só 12 tinham marcas atribuídas a dentes. Um osso de mandíbula, com furos que lembravam uma mordida de crocodilo, tinha na verdade aberturas naturais por onde passavam vasos e nervos.
Do desenho da marca ao dente que a fez
Cada tipo de marca guarda informação sobre o dente. Furos redondos vêm de dentes cônicos, como os de crocodilos; riscos paralelos e finos vêm de dentes serrilhados, que arrastam as serrilhas sobre o osso. Medir o espaçamento entre furos ou estrias e comparar com mandíbulas e dentes de animais da mesma época e região restringe o número de candidatos. É uma comparação de compatibilidade, e a conclusão muda se aparecer outro carnívoro na fauna local.
Como sabemos: o que torna a atribuição confiável
Os estudos aqui reunidos usam métodos diferentes. Um tirou moldes de silicone das marcas, mediu largura e profundidade no ponto a 5 mm da ponta do dente e comparou com mandíbulas de T. rex de idades diferentes. Outro mediu as estrias paralelas e as comparou com a densidade de serrilhas dos dentes do mesmo depósito. Um terceiro usou tomografia e medidas da coroa de um dente cravado no osso. Só o último liga o dente ao osso sem depender de comparação, e mesmo ele passa pela comparação com dentes de espécies conhecidas.
O osso que cicatriza e o que não cicatriza
A cicatrização é a pista mais forte de que o animal estava vivo, porque exige um organismo que ainda reaja. Mas a falta dela não prova que a presa estava morta: a vítima pode ter morrido na hora do ataque, antes de o osso reagir. É por isso que a maioria das marcas, sem cicatrização, é lida como consumo de carcaça ou como caça bem-sucedida, e os estudos tratam as duas hipóteses como possíveis. Os autores de 2013 chamam o caso do hadrossauro de raro porque a presa raramente escapa.
Quando o furo não é mordida
Nem toda abertura num osso fóssil vem de um dente. Aberturas naturais por onde passam vasos e nervos, infecções, doenças articulares e erosão do solo deixam furos semelhantes. Num depósito de Wyoming, em 3.013 ossos, só 12 tinham marcas aceitas como de dente, e um osso de mandíbula que parecia mordido era anatomia normal, como a tomografia mostrou. Por isso se avaliam forma, borda, profundidade, local no osso e sinais de remodelação antes de aceitar uma marca como mordida.
Como sabemos
Os resultados centrais vêm de quatro estudos de acesso aberto lidos integralmente, mas a atribuição de marcas a um predador específico é sempre uma inferência por comparação.
- Evidência forte: Um dente de Tyrannosaurus rex ficou cravado entre duas vértebras da cauda de um hadrossauro e foi cercado por osso novo, o que mostra que a presa escapou e viveu algum tempo depois do ataque. [1] Resumo
Contexto: Um único espécime, da Formação Hell Creek, em Dakota do Sul (EUA); as vértebras são de um hadrossauro adulto, provavelmente Edmontosaurus annectens. · Limitações: É um caso isolado: mostra que o T. rex atacou presas vivas pelo menos uma vez, não quanto do seu alimento vinha da caça. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Sem sinal de cicatrização, uma mordida fossilizada não distingue um ataque a um animal vivo de uma refeição sobre um animal já morto. [1] Resumo
Contexto: Argumento dos autores sobre marcas de dente em ossos de presas potenciais de dinossauros. · Limitações: A frase é a posição dos autores do estudo, apoiada em outros trabalhos que eles citam; não é uma regra aplicável sem exame do contexto de cada osso. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: O dente cravado tinha coroa de 3,75 cm de altura, e suas dimensões, a morfologia e a densidade das serrilhas coincidiam com as de T. rex jovens e não com as de Albertosaurus ou de Nanotyrannus. [1] Results
Contexto: Comparação feita com dados de dentes isolados de tiranossaurídeos da mesma região e época. · Limitações: A exclusão de Nanotyrannus depende de tratá-lo como táxon válido, como fazem os autores; a classificação desse animal foi discutida na literatura. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A identificação do dente usou um método quantitativo de medidas de coroas de dentes de terópodes, que segundo os autores do estudo de 2013 identificou coroas isoladas de T. rex com mais de 96% de acerto. [1] Discussion
Contexto: O método é de Smith e colegas, descrito em outro estudo; aqui citado de segunda mão, a partir do que DePalma e colegas relatam. · Limitações: A cifra de 96% vem do estudo original do método, que não foi lido por nós. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: O tempo entre o ataque e a morte do hadrossauro é desconhecido; as taxas de cicatrização de animais atuais sugerem de alguns meses a talvez alguns anos de sobrevida. [1] Discussion
Contexto: Inferência por analogia com a velocidade de reparo ósseo em répteis e mamíferos atuais. · Limitações: O ritmo de cicatrização de um hadrossauro extinto não foi medido; a faixa de tempo é uma estimativa por analogia. · Estimativa dos autores por analogia com animais atuais, sem medida direta. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Os autores do estudo de 2013 não afirmam que o T. rex fosse um predador exclusivo: dizem que, como a maioria dos grandes predadores atuais, ele quase certamente também se alimentava de carcaças. [1] Introdução
Contexto: Posição dos autores sobre o debate entre predação e necrofagia no T. rex. · Limitações: Interpretação dos autores, não resultado medido. · Posição dos autores, apoiada em analogia com carnívoros atuais. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Num sítio de Montana, uma vértebra de hadrossauro tem furos de 5 mm de profundidade, afastados 68 mm entre si, sem sinal de cicatrização, interpretados como marcas feitas depois da morte. [3] Materials & Methods
Contexto: Espécime BMR P2007.4.1, da Formação Hell Creek (Montana, EUA), atribuído provavelmente a Edmontosaurus pela posição estratigráfica. · Limitações: A origem pós-morte é inferida pela ausência de cicatrização. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Para testar quem fez os furos, os pesquisadores tiraram moldes de silicone das marcas e compararam o formato, as medidas e o espaçamento com os dentes de mandíbulas de T. rex de idades diferentes. [3] Materials & Methods
Contexto: Método de comparação do estudo de 2019, com um T. rex adulto e um jovem de 11 a 12 anos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: As marcas combinaram com os dentes superiores de um T. rex jovem, de 11 a 12 anos de idade determinada por histologia, e não com os dentes de um adulto, grandes e espaçados demais. [3] Resumo
Contexto: Atribuição por correspondência de medidas com dois esqueletos de comparação, não com o animal que mordeu. · Limitações: Dois esqueletos de referência são uma amostra pequena; a correspondência mostra compatibilidade, não identidade. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Dentes de crocodilianos têm seção circular e eram pequenos demais para fazer essas marcas, o que ajuda a excluí-los como autores. [3] Materials & Methods
Contexto: Exclusão de candidatos da mesma formação geológica por forma e tamanho dos dentes. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em 17 ossos, entre eles de Triceratops e de hadrossauros, as marcas foram atribuídas a Tyrannosaurus porque ele é o único grande carnívoro conhecido no fim do Maastrichtiano do oeste da América do Norte. [4] Resumo
Contexto: Atribuição por exclusão, dependente do que se conhece da fauna local; a lista inclui casos descritos antes. · Limitações: Raciocínio por exclusão: vale enquanto não se conhecer outro grande carnívoro na região e na época. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Nas marcas de T. rex em ossos de T. rex descritas por Longrich e colegas, a ausência de cicatrização é compatível com mordidas dadas em carcaças, e os autores as interpretam como canibalismo por necrofagia oportunista. [4] Discussion
Contexto: Marcas em pés e braços, partes com pouca carne, de esqueletos de T. rex. · Limitações: Os autores dizem que não podem descartar que a marca venha de um indivíduo consumindo uma presa durante muito tempo. · Hipótese de trabalho dos autores; os dados são compatíveis, mas não excluem outras explicações. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Os pesquisadores classificam as marcas de dente em quatro tipos básicos: pit (furo raso), puncture (perfuração), score (risco) e furrow (sulco). [2] Introduction
Contexto: Classificação criada para mordidas de carnívoros mamíferos e aplicada também a dinossauros, crocodilianos e tubarões. · Limitações: As definições mudaram com o tempo, segundo o próprio estudo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Estrias paralelas deixadas pelas serrilhas de um dente (icnotáxon Knethichnus parallelum) permitem comparar o espaçamento das estrias com o de serrilhas de dentes encontrados no mesmo depósito. [2] Abstract
Contexto: Aplicado a ossos de um depósito de Edmontosaurus annectens da Formação Lance, Wyoming. · Limitações: O método identifica um provável autor entre os dentes disponíveis no depósito. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Dos 3.013 ossos examinados num depósito de Edmontosaurus em Wyoming, 13 tinham feições que lembravam marcas de dente, e 12 foram atribuídas a mordidas, cerca de 0,4% do material. [2] Discussion
Contexto: Depósito da Formação Lance (Maastrichtiano), com predomínio quase total de Edmontosaurus annectens. · Limitações: O estudo cita o ~0,4% como parte do material escavado e preparado até 2017. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Um osso de mandíbula com furos alinhados que lembravam uma mordida de crocodilo era, na verdade, normal: a tomografia mostrou aberturas naturais para vasos e nervos, e não marcas de dente. [2] Results
Contexto: Osso HRS05499, comparado com mandíbulas de Triceratopsini; o estudo conclui que são forames normais desse grupo. · Limitações: A atribuição ao grupo dos Triceratopsini é uma comparação com outro espécime, não uma identificação definitiva. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Physical evidence of predatory behavior in Tyrannosaurus rex
DePalma, R. A., Burnham, D. A., Martin, L. D., Rothschild, B. M., Larson, P. L. · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1216534110 - PLoS ONE — Identification of tooth traces from a Cretaceous (Maastrichtian) Edmontosaurus annectens bonebed in the Lance Formation, Wyoming, U.S.A.
Siviero, B. C. T. et al. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0351939 - PeerJ — Feeding traces attributable to juvenile Tyrannosaurus rex offer insight into ontogenetic dietary trends
Peterson, J. E., Daus, K. N. et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.7717/peerj.6573 - PLoS ONE — Cannibalism in Tyrannosaurus rex
Longrich, N. R., Horner, J. R., Erickson, G. M., Currie, P. J. · 2010 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0013419
Histórico de alterações
- Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)