Oceanografia

Por que o mar congela a cerca de −1,8 °C e o que acontece com o sal no gelo marinho

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

A água do mar, com salinidade de cerca de 32 PSU, começa a congelar a cerca de −1,8 °C, abaixo dos 0 °C da água doce, por causa do sal dissolvido. Os cristais de gelo quase não incorporam sal: a maior parte é expulsa para a água abaixo, e o resto fica em bolsas de salmoura que escoam com o tempo.

Salinidade é a quantidade de sais dissolvidos na água; hoje se mede em PSU (unidades práticas de salinidade), quase equivalentes a gramas de sal por quilo de água. O oceano tem em geral de 32 a 37 PSU. O sal dissolvido baixa o ponto de congelamento: a cada 5 PSU a mais, ele cai 0,28 °C. Daí os cerca de −1,8 °C em água polar de 32 PSU. O mar, portanto, congela sim: cerca de 9% da superfície dos oceanos tem gelo em algum momento do ano. O que muda é o gelo: ele nasce de água quase pura, mas carrega sal em gotículas de salmoura, água muito salgada que continua líquida mesmo abaixo de zero.

Gelo velho que dá água potável

O gelo marinho que atravessou vários verões perde quase toda a salmoura, e o NSIDC registra que o gelo de múltiplos anos costuma fornecer a água doce de expedições polares. O mesmo mar, congelado e envelhecido, vira água doce.

Por que o gelo marinho demora a se formar

O sal não só baixa o ponto de congelamento: perto dele, a água salgada fica mais densa ao esfriar, ao contrário da doce [a4]. Como a água superficial resfriada afunda antes de congelar, em geral os 100 a 150 m superiores precisam esfriar até cerca de −1,8 °C antes de o gelo se formar [a5][a1]. Isso ajuda a explicar por que o mar polar leva tempo para começar a congelar.

O que fica: bolsas e canais de salmoura

Os primeiros cristais, chamados frazil, são agulhas de água quase pura [a7]. Quando se juntam e viram uma lâmina de gelo, o sal expulso fica concentrado em gotas entre os cristais [a8]. Essa salmoura é bem mais salgada que o mar e por isso continua líquida, mesmo a temperaturas em que a água do mar já teria congelado [a9]. Por isso o gelo marinho novo é salgado, embora bem menos do que a água de onde veio.

Como a salmoura sai ao longo do tempo

O gelo perde sal por caminhos diferentes. Por gravidade, a salmoura desce por canais e volta ao oceano [a11]. No verão, a água de degelo que se acumula em poças na superfície lava o que restou [a12]. Com os anos, as bolsas de salmoura são substituídas por bolsas de ar, e o gelo fica cada vez mais doce [a10]. O gelo de várias estações tem muito menos salmoura que o do primeiro ano [a13].

Para onde vai o sal expulso

Perto dos polos, a salinidade pesa mais na densidade da água do que a temperatura. O sal que o gelo expulsa deixa a água de baixo mais salgada e mais densa, e ela afunda [a14]. Na costa da Antártida, onde se forma muito gelo, essa água densa desce o talude continental e se mistura com água mais profunda, formando a Água de Fundo Antártica [a15]. O sal do gelo marinho entra, assim, na circulação profunda do oceano.

Como sabemos: temperatura, salinidade e experimentos de campo

Ninguém vê a salmoura a olho nu. Em estudos de gelo antártico, pesquisadores retiram testemunhos, medem temperatura e salinidade a cada 10 cm e calculam a fração de volume de salmoura com uma relação conhecida [a18]. Com testes de escoamento em blocos de gelo, observam até onde o fluido desce: o gelo colunar só deixa passar fluido acima de cerca de 5% de salmoura [a16], e o granular acima de cerca de 10% [a17]. Limite: essa fração é calculada, não medida direta, e os resultados valem para os locais amostrados.

Como sabemos

Os números centrais vêm de páginas institucionais lidas por inteiro (NSIDC, NOAA) e a descrição da salmoura é consenso básico de glaciologia, confirmada por dois artigos abertos.

Fontes

  1. NOAA National Ocean Service — Can the ocean freeze?
    NOAA National Ocean Service · 2026-09-23 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. National Snow and Ice Data Center (NSIDC), Universidade do Colorado em Boulder — Sea Ice (visão geral)
    National Snow and Ice Data Center · 2026 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. National Snow and Ice Data Center (NSIDC), Universidade do Colorado em Boulder — Science of Sea Ice
    National Snow and Ice Data Center · 2026 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  4. Science Advances — Dominant frazil ice production in the Cape Darnley polynya leading to Antarctic Bottom Water formation
    Ohshima, K. I. et al. · 2022-10-19 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.adc9174
  5. Scientific Reports — Percolation threshold for vertical fluid flow through granular sea ice
    Golden, K. M. et al. · 2026-02-28 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-026-41706-w
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 3; conferência de trechos automatizada)

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