Oceanografia
Como sabemos que 28,7% do fundo do mar está mapeado: sonar, satélite e o que "mapeado" quer dizer
Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026
Assuntos: Mar profundo
Na grade GEBCO_2026, lançada em 27 de abril de 2026, o projeto Seabed 2030 contabilizou 28,7% do fundo do mar como mapeado, cerca de 104 milhões de km². "Mapeado" tem definição técnica: uma célula da grade com ao menos uma sondagem, e o tamanho da célula vai de 100 m, em águas rasas, a 800 m, abaixo de 5.750 m.
Batimetria é a medida da profundidade do fundo. O Seabed 2030 é um projeto da Nippon Foundation com o GEBCO (Carta Batimétrica Geral dos Oceanos, programa da Organização Hidrográfica Internacional e da Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO) que reúne dados de muitas instituições numa grade aberta. Uma sondagem (em inglês, sounding) é uma medida de profundidade feita por eco-sonda. A grade é dividida em células quadradas; a porcentagem anunciada é a fração do fundo em que as células já têm dado medido, não a fração "vista" em alta resolução. A meta de tamanho da célula depende da profundidade, então "mapeado" não significa o mesmo detalhe em todo lugar.
A meta é mais fina onde há menos fundo
Pela tabela da IHO, só 13,7% do fundo está entre 0 e 1.500 m, onde a meta é uma célula de 100 m. Já 72,6% está entre 3.000 e 5.750 m, onde a meta é de 400 m. A faixa mais funda, abaixo de 5.750 m, tem 2,7% e meta de 800 m.
O que "mapeado" quer dizer nesse número
Para o Seabed 2030, uma célula da grade conta como mapeada se tiver ao menos uma sondagem. O tamanho da célula é uma meta que cresce com a profundidade: 100 m até 1.500 m, 200 m até 3.000 m, 400 m até 5.750 m e 800 m abaixo disso. Portanto 28,7% não quer dizer que 28,7% do fundo foi visto com 100 m de detalhe. É um critério de presença, não de densidade, e vale para uma resolução que varia com a profundidade.
Como sabemos: o que o sonar entrega e o que ele não alcança
O sonar de navio mede o tempo entre o pulso de som e o eco. Em fileira, o multifeixe cobre faixas de 10 a 20 km com cerca de 200 m de resolução. O limite é o navio: uma estimativa de 2001, citada numa revisão de 2010, calculava 200 navios-ano e bilhões de dólares para cobrir só o oceano profundo. Por isso a lacuna é grande, e é o que a grade do projeto torna visível.
Como sabemos: o satélite orienta, mas não preenche
Altímetros medem a altura do mar, que acompanha a gravidade e, por consequência, o relevo. A técnica dá cobertura global, mas com resolução da ordem de 8 km e sem enxergar feições mais estreitas que a profundidade do local. Como a definição de mapeado fala em sondagens, a leitura mais natural é que esse relevo estimado não entra nos 28,7%; é a nossa interpretação, a confirmar na descrição da grade. O mecanismo está em outro post.
Por que o número muda e como lê-lo
O lançamento da grade GEBCO_2026 trouxe quase 5 milhões de km² de dados novos em um ano, e a porcentagem foi de 27,3% (2025) para 28,7% (2026), alta de 1,4 ponto (cálculo nosso). O fundo não mudou: entraram dados que já existiam ou foram coletados. Comparar anos exige conferir o critério de cada lançamento. O dado de abril de 2026 é uma fotografia datada, e a notícia usa a expressão "padrões modernos" sem detalhá-la.
Como sabemos
O número (28,7%), a data e a definição de "mapeado" vêm de documentos institucionais lidos; a ressalva é que a definição vem de slides de 2021 e o artigo de 2018 não foi lido.
- Fato estabelecido: Na grade GEBCO_2026, lançada em 27 de abril de 2026, 28,7% do fundo do oceano foi contabilizado como mapeado, contra 27,3% no lançamento de 2025. [1] Notícia de 27 de abril de 2026
Contexto: Número global do projeto, válido para a data do anúncio; o projeto o atualiza anualmente. · Limitações: É o número declarado pelo projeto, calculado sobre a grade GEBCO; vale só com a definição de "mapeado" (a3 e a4). O Seabed 2030 divulgou o mesmo número em comunicado próprio de 20/04/2026, que a conferência automática não alcança; usamos a notícia do GEBCO, de 27/04. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: A mesma notícia diz que a atualização equivale a cerca de 104 milhões de km² de fundo mapeado e que quase cinco milhões de km² foram acrescentados no último ano. [1] Notícia de 27 de abril de 2026
Contexto: Ganho de cerca de um ano até abril de 2026. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: Na definição do projeto, uma célula da grade é considerada mapeada se tiver uma ou mais sondagens. [3] Slide "Target resolutions for the Arctic"
Contexto: Apresentação de Seabed 2030 à Comissão Hidrográfica do Mar do Norte, abril de 2021. · Limitações: É um critério de presença, não de densidade ou qualidade. O slide é de 2021; não confirmamos no texto de 2026 que o critério seja idêntico (o artigo original, Mayer et al. 2018, não foi lido). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A meta de tamanho da célula depende da profundidade: 100 x 100 m de 0 a 1.500 m, 200 x 200 m de 1.500 a 3.000 m, 400 x 400 m de 3.000 a 5.750 m e 800 x 800 m de 5.750 a 11.000 m. [2] Tabela "Grid Resolutions"
Contexto: Objetivos de resolução do GEBCO-Seabed 2030, apresentados ao comitê de nomes de feições submarinas da IHO em 2023. · Limitações: Metas, não resultados: dizem o tamanho de célula buscado em cada faixa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Segundo a mesma tabela, 13,7% do fundo do mar está entre 0 e 1.500 m, 11% entre 1.500 e 3.000 m, 72,6% entre 3.000 e 5.750 m e 2,7% abaixo de 5.750 m. [2] Tabela "Grid Resolutions"
Contexto: Percentuais na ordem das faixas de profundidade da afirmação a4. · Limitações: A ordem das colunas segue a tabela; a leitura 'faixa por faixa' é a nossa associação das duas linhas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Quanto mais fina a resolução buscada, menor a parte do oceano que conta como mapeada, segundo os autores do projeto. [3] Slide "Target resolutions for the Arctic"
Contexto: Apresentação de 2021; a ideia vale para qualquer ano. · Limitações: Frase dos slides, sem número associado. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O sonar ativo mede a distância até o fundo pelo tempo entre a emissão do pulso de som e o retorno do eco. [5] Seção "Active Sonar"
Contexto: Princípio geral do sonar ativo, explicado pela NOAA. · Limitações: A conversão de tempo em distância depende da velocidade do som na água, que varia; a página da NOAA não detalha isso. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Estimativa: Ecobatímetros multifeixe em navios cobrem faixas de 10 a 20 km de largura com resolução horizontal de cerca de 200 m; mapear todo o oceano profundo só com navios levaria 200 navios-ano e custaria bilhões de dólares. [4] Figura 1
Contexto: Revisão de 2010 (Oceanography). A estimativa de esforço é de Carron et al. (2001), citado ali e não lido por nós. · Limitações: Estimativa de 2001 repetida em 2010; tecnologia e custos mudaram desde então. Nota: a resolução de 200 m refere-se à situação típica em águas profundas, não a toda profundidade. · Número de segunda mão: Carron et al. (2001) via Wessel et al. (2010). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O radar de um satélite não enxerga o fundo, mas mede variações na altura da superfície do mar causadas pelo relevo do fundo; a densidade de um monte submarino, maior que a da água, cria anomalias de gravidade que deformam o geoide. [4] Introdução
Contexto: Mecanismo da altimetria por satélite aplicado ao relevo submarino. · Limitações: O texto trata de montes submarinos; o princípio vale para o relevo em geral, mas os limites de detecção são específicos de tamanho e profundidade. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A resolução máxima da altimetria por satélite é da ordem de 8 km, muito mais grossa que a do sonar de navio, e ela detecta montes com mais de cerca de 1,5 km de altura. [4] Resumo
Contexto: Estado da técnica em 2010. · Limitações: Desde 2010 houve novos dados e reprocessamento; os valores podem ter melhorado. Não verificamos a literatura mais recente. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Como regra geral, feições mais estreitas que a profundidade média do oceano não podem ser mapeadas por altimetria; por isso montes com base menor que 4 km (cerca de 1 km de altura) não são detectados, salvo em margens continentais rasas. [4] Altimetry Uncertainties, Errors, and Omissions
Contexto: Efeito da continuação para cima (o sinal de gravidade se atenua com a distância ao fundo). · Limitações: Regra geral, com exceção das margens rasas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A diferença entre 28,7% (2026) e 27,3% (2025) é de 1,4 ponto percentual (cálculo nosso); o projeto atualiza o número a cada lançamento anual da grade. [1] Notícia de 27 de abril de 2026
Contexto: Dois lançamentos consecutivos da grade GEBCO. · Limitações: Subtração nossa (28,7 menos 27,3); a notícia não diz se o critério de 2025 foi idêntico. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: A grade GEBCO é um conjunto global de valores de elevação, em metros, com intervalo de 15 segundos de arco (cálculo nosso: cerca de 460 m no equador). [1] Notícia de 27 de abril de 2026
Contexto: Produto cuja versão 2026 gerou o número. · Limitações: Conversão nossa: 15/3600 de grau x ~111,2 km por grau = cerca de 463 m no equador; encolhe com a latitude em longitude. Não é a mesma coisa que as células de 100 a 800 m da meta. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada
Fontes
- GEBCO, programa da Organização Hidrográfica Internacional e da Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO — Release of the GEBCO_2026 Grid
GEBCO (IHO-IOC) · 2026-04-27 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 - Organização Hidrográfica Internacional (IHO), Subcomitê de Nomes de Feições Submarinas — GEBCO – Seabed 2030 – Objectives – Grid Resolutions
Mackay, K. (Seabed 2030), SCUFN-36 · 2023 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 - Organização Hidrográfica Internacional (IHO), Comissão Hidrográfica do Mar do Norte — Seabed 2030 Presentation, North Sea Hydrographic Commission, 34th Meeting
McMichael-Phillips, J.; Jakobsson, M. · 2021-04 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 - Oceanography (The Oceanography Society) — The Global Seamount Census
Wessel, P.; Sandwell, D. T.; Kim, S.-S. · 2010 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 - NOAA National Ocean Service — What is sonar?
NOAA National Ocean Service · 2026 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 18; conferência de trechos automatizada)