História da África

Na peregrinação de 1324, Mansa Musa gastou tanto ouro no Cairo que o metal se desvalorizou, relatou al-Umari

Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Mansa Musa governou o Império do Mali, na África Ocidental, no início do século XIV. Em 1324, a caminho de Meca, passou pelo Cairo com uma comitiva que as fontes árabes descrevem com milhares de pessoas e grandes cargas de ouro. O historiador al-Umari, que viveu no Egito pouco depois, registrou que o mithqal de ouro, antes acima de 25 dirhams de prata, caiu para no máximo 22 e ainda não tinha se recuperado cerca de doze anos depois.

O Mali se formou no século XIII, no Mande, região do alto rio Níger, quando Sundiata Keita derrotou o rei dos Soso na batalha de Kirina, datada de 1235. O império cresceu sobre o ouro das minas de Buré e Bambuk, o sal do Saara e as rotas de caravanas que levavam ao Magrebe e ao Egito. A peregrinação de Musa tornou o Mali conhecido no Mediterrâneo: em 1375, o Atlas Catalão, feito em Maiorca, desenhou o rei no centro da África Ocidental, segurando uma peça de ouro. Na volta, Musa trouxe livros e um arquiteto que ergueu mesquitas em Gao e Timbuktu. Os números da comitiva variam de fonte para fonte e são considerados exagerados pelos historiadores, assim como as datas do reinado, que aparecem como 1312–1337 ou 1307–1332.

O rei que não quis beijar o chão

Segundo o emir egípcio que recebeu Musa, ouvido por al-Umari, o mansa recusou de início a audiência com o sultão mameluco, porque teria de beijar o chão diante dele. Quando enfim entrou, disse que se prostrava diante de Deus, que o criou, e só então se inclinou. O sultão se levantou em parte para saudá-lo e o sentou a seu lado.

Origem: Sundiata e a batalha de Kirina

O Mali nasceu no Mande, região do alto Níger habitada pelos malinkés. A tradição oral, guardada pelos griôs, conta que Sundiata Keita voltou do exílio, uniu os clãs malinkés e derrotou Sumaguru, rei dos Soso, na batalha de Kirina, datada de 1235. Nenhum autor árabe do século XIII menciona a batalha: o que se sabe dela vem das versões orais, que divergem nos detalhes e concordam no essencial. A tradição atribui a Sundiata uma assembleia em Kurukan Fuga, onde ele teria sido proclamado mansa e onde se fixaram os direitos e deveres de cada clã. Historiadores lembram que muito do que se credita a ele pertence a épocas posteriores.

Território

No auge, sob Mansa Musa e seu irmão Mansa Sulayman, o Mali cobria quase todo o Sahel e o Sudão ocidental, da Senegâmbia, junto ao Atlântico, até além da curva do Níger, incluindo Gao. Funcionava mais como federação do que como império centralizado: regiões aliadas mantinham seus reis, e nas províncias conquistadas um governador, o farin, representava o mansa ao lado do chefe local. Guarnições em Walata, Timbuktu, Gao e Kumbi vigiavam os nômades do deserto. O cientista político Rein Taagepera estimou a área máxima em cerca de 1,1 milhão de km², por volta de 1380. É um número aproximado, porque as fronteiras de um império tributário não eram linhas fixas.

Principais cidades

Walata, no Sahel, era ponto de chegada das caravanas que atravessavam o Saara. Timbuktu e Djenné começaram a crescer no reinado de Musa e se tornariam centros de comércio e de estudo nos séculos seguintes. Gao, na curva do Níger, era a cidade dos songais, incorporada ao império. A capital política é uma questão em aberto. A edição da UNESCO a identifica com Niani, às margens do rio Sankarani. O historiador David Conrad argumentou, em 1994, que a sede do governo mudou mais de uma vez durante o período imperial e que Niani, antiga e importante pela metalurgia do ferro, provavelmente só foi capital no século XVI.

Economia: ouro, sal e cobre

Ouro, sal, cobre e noz-de-cola sustentavam a economia. O ouro vinha sobretudo de Buré, província vizinha do Mande, e também de Bambuk e Galam, no alto Senegal; o mansa tinha direito exclusivo às pepitas. O sal era extraído em Teghazza e Ijil, no Saara, e revendido pelos mercadores diulas. Em Takedda, a leste, havia minas de cobre: Musa contou no Cairo que esse cobre era a maior fonte de impostos do reino e que era vendido no sul por dois terços do seu peso em ouro. Havia ainda agricultura, pastoreio e tecelagem de algodão, com tecidos vendidos de província em província.

Mansa Musa

Musa, também chamado Kanku Musa, é o mansa mais conhecido. As datas variam: muitos autores dão 1312–1337, e a edição da UNESCO, a partir de Ibn Khaldun, propõe 1307–1332. No Cairo, ele contou que o antecessor partira pelo Atlântico com uma grande frota e nunca voltara; é o relato de Musa, não um fato comprovado. A peregrinação de 1324–1325 foi paga com contribuições cobradas das cidades e províncias. As cifras da comitiva, como 60 mil carregadores e 500 servos com bastões de ouro, são provavelmente exageradas, mas mostram a impressão que ela causou. Na volta, Musa trouxe livros, sábios e um arquiteto.

Comércio

O Mali era o extremo sul de uma rede de rotas que cruzava o Saara até o Magrebe e o Egito. Caravanas ligavam Walata e Timbuktu a Teghazza e a Sijilmasa, no atual Marrocos. Os messufas, nômades berberes que conheciam o deserto, eram guias e agentes do comércio de sal. Para o sul, mercadores mandingas e soninquês, os wangaras e diulas, levavam cobre e tecidos às regiões de floresta e traziam ouro e noz-de-cola; Begho, no atual Gana, era um centro desse comércio. Depois da peregrinação, os marínidas de Fez e as cidades do Magrebe passaram a trocar embaixadas e presentes com o Mali.

Religião

Os soberanos do Mali eram muçulmanos, e o Islã era forte nas cidades e entre os mercadores. A tradição chama de guardiões da fé os cinco clãs de marabutos aliados de Sundiata. A corte, porém, mantinha costumes antigos: Ibn Battuta, que esteve no Mali por volta de 1353, criticou práticas que julgava pouco ortodoxas. Musa criou escolas corânicas e trouxe livros do Cairo e de Meca. Na memória oral mandinga ele aparece pouco, e algumas tradições o acusam de esbanjar o tesouro e de se afastar dos costumes ancestrais. Foi em seu reinado, segundo essas tradições, que os bambaras criaram a sociedade Komo, recusando a autoridade do mansa.

Arquitetura

O arquiteto que voltou com Musa, chamado Ishaq al-Tuedjin na edição da UNESCO, construiu a grande mesquita de Gao, da qual restam fundações e parte do mihrab, e em Timbuktu a grande mesquita e um palácio. Para a corte, ergueu uma sala de audiências quadrada, com cúpula, rebocada e decorada com arabescos coloridos; segundo Ibn Khaldun, o mansa lhe pagou 12 mil mithqals de ouro em pó. Na falta de pedra, usava-se terra batida reforçada com madeira, origem das vigas salientes do chamado estilo sudanês, do qual as mesquitas de Djenné e Timbuktu são protótipos. Prédios de terra exigem reboco constante; a sala de audiências virou um monte de barro.

Relação com outros povos

O império reunia malinkés, soninquês, fulas, tucolores, songais, wolofs, bozos e berberes do deserto, com graus variados de autonomia. Para fora, mantinha relações com o Egito mameluco, com os marínidas de Fez e, no século XV, com Portugal: entre 1481 e 1495, D. João II enviou embaixadas ao mansa. Houve também guerra. Segundo o Tarikh al-Sudan, um rei mossi saqueou Timbuktu, episódio geralmente datado de cerca de 1337, e grupos tuaregues do Aïr e do Adrar dos Iforas só se submetiam a mansas fortes. Os parentescos por brincadeira entre clãs de povos diferentes, que a tradição liga à época de Sundiata, ainda ajudam a reduzir tensões na região.

Declínio e legado

Depois de Mansa Sulayman, que reinou até c. 1358, disputas de sucessão enfraqueceram o poder central. Os tuaregues tomaram Timbuktu por volta de 1433, e o Império Songai, sob Sunni Ali, ficou com a cidade em 1468. O Mali perdeu o norte, mas sobreviveu no oeste, apoiado no comércio atlântico e no ouro de Buré. Em 1599, Mansa Mahmud IV tentou retomar Djenné, então ocupada pelos marroquinos, e foi derrotado. O império se fragmentou em reinos menores, e os bambaras de Segu e Kaarta ocuparam o espaço. Ficaram a epopeia de Sundiata, contada até hoje pelos griôs, as cidades de Timbuktu e Djenné e a arquitetura de terra do Sahel.

Como sabemos

O episódio central se apoia num relato contemporâneo (al-Umari) e na síntese da UNESCO; datas, números e a capital estão marcados como estimativa ou controvérsia.

Em debate: Efeito do ouro no Cairo: a desvalorização é relatada por al-Umari, que a atribui à grande quantidade de ouro trazida pela comitiva. O historiador Warren C. Schultz publicou em 2006 uma reavaliação do episódio ('Mansa Musa's Gold in Mamluk Cairo: A Reappraisal of a World Civilizations Anecdote'); o texto não pôde ser lido nesta verificação, por isso o post se limita ao que al-Umari registrou.

Em debate: Datas do reinado: muitos autores dão 1312–1337; Niane, na História Geral da África da UNESCO, propõe 1307–1332 a partir de Ibn Khaldun.

Em debate: Capital: Niani (Guiné) foi identificada como capital por Delafosse e pela edição da UNESCO; David Conrad (Journal of African History, 1994) argumentou que a sede mudou várias vezes e que Niani provavelmente só foi capital no século XVI.

Em debate: Tamanho da comitiva: as cifras das fontes árabes e da tradição escrita variam muito e são tidas como exageradas.

Em debate: Riqueza: Musa é chamado com frequência de 'o homem mais rico da história' (por exemplo, no título de matéria da Smithsonian). Não existe forma confiável de converter sua riqueza em valores atuais, e o post não faz essa afirmação.

Fontes

  1. UNESCO — General History of Africa, IV: Africa from the Twelfth to the Sixteenth Century (cap. 6, 'Mali and the second Mandingo expansion'; cap. 7, 'The decline of the Mali empire')
    consultada em 03/10/2026
  2. Digital History, University of Houston — Mansa Musa's Visit to Cairo (al-Umari, em Levtzion & Hopkins, Corpus of Early Arabic Sources for West African History, Cambridge University Press, 1981, pp. 269-273)
    consultada em 03/10/2026
  3. National Geographic Society (Education) — Mansa Musa (Musa I of Mali)
    consultada em 03/10/2026
  4. National Geographic Society (Education) — Mali Empire
    consultada em 03/10/2026
  5. AfricaBib (African Studies Centre Leiden) — A town called Dakajalan: the Sunjata tradition and the question of ancient Mali's capital (Journal of African History 35(3), 1994) — registro e resumo
    consultada em 03/10/2026
  6. Mamluk Bibliography Online, University of Chicago — Mansa Mūsā's Gold in Mamluk Cairo: A Reappraisal of a World Civilizations Anecdote — registro bibliográfico
    consultada em 03/10/2026
  7. University of California, Irvine (eScholarship) — Expansion and Contraction Patterns of Large Polities: Context for Russia (International Studies Quarterly 41(3), 1997)
    consultada em 03/10/2026
  8. Block Museum of Art, Northwestern University — Caravans of Gold, Fragments in Time: Art, Culture, and Exchange across Medieval Saharan Africa
    consultada em 03/10/2026
  9. Smithsonian Magazine — New Exhibition Highlights Story of the Richest Man Who Ever Lived
    consultada em 03/10/2026
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