Botânica

Mangue na lama salgada: raízes que respiram no ar, filtro de sal na raiz e semente que germina na árvore

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Os seis biomas do Brasil

Três soluções se somam. Pneumatóforos, raízes que saem da lama, têm tecido com espaços de gás e poros (lenticelas) que levam oxigênio às raízes submersas. As raízes filtram o sal: até 99% do sal da água do solo é barrado antes de entrar no xilema. Em Rhizophora, a semente germina ainda presa à árvore-mãe. Em Avicennia, o sal que passa é expulso por glândulas das folhas.

Mangue é o conjunto de cerca de 70 espécies de árvores de costas tropicais e subtropicais que vivem em áreas alagadas pela maré e salgadas. Dois problemas pesam sobre elas. O solo encharcado tem pouco oxigênio para as raízes. E a água salgada é mais difícil de absorver: para puxar água do solo, a árvore precisa manter nos tecidos um potencial hídrico (pressão que mede a força com que a água é retida) abaixo do da água do mar, cerca de −3,5 MPa ou menos. No Brasil, o mangue reúne sobretudo Rhizophora mangle (mangue-vermelho), Avicennia germinans e A. schaueriana (mangue-preto) e Laguncularia racemosa (mangue-branco). Este artigo trata só da fisiologia; berçário e extensão do mangue estão em outros textos.

Um fruto que já é plântula

No mangue-vermelho e parentes, o embrião cresce para fora do fruto antes de se soltar. O conjunto, ainda preso à árvore, chama-se propágulo. Em Rhizophora mucronata, a semente não tem reservas visíveis de alimento no endosperma que a envolve.

Respirar com raízes que saem da lama

Na lama alagada, o solo tem pouco oxigênio. Em Avicennia, as raízes projetam para cima os pneumatóforos, que ficam com a ponta no ar. Eles têm aerênquima, um tecido com espaços de gás entre as células, e lenticelas, áreas porosas da superfície por onde o ar entra. Uma revisão liga as lenticelas ao oxigênio que chega às raízes submersas. Uma Avicennia pode ter mais de 10.000 pneumatóforos.

Barrar o sal antes que suba

A primeira defesa contra o sal fica na raiz. A epiderme é muito suberizada, e a endoderme tem uma estria de Caspary desenvolvida, o que, em Avicennia marina, bloqueia quase toda a água que iria pelas paredes das células. Segundo uma revisão, até 99% do sal da água do solo é barrado antes do xilema. Para puxar água, a árvore ainda precisa manter potencial hídrico de pelo menos −3,5 MPa.

Expulsar o que passa, ou dispensar a glândula

O sal que entra pode ser expulso por glândulas na folha. Isso ocorre em 14 das 51 espécies de uma revisão, incluindo Avicennia. No Nordeste brasileiro, Avicennia que expulsa sal domina as salinas dentro do mangue. Mas glândula não é condição nem garantia de tolerância: há espécies muito tolerantes sem ela. Uma hipótese das autoras é que o sal sobre a folha ajudaria o balanço de água.

Semente que germina na árvore

Em plantas vivíparas o embrião não entra em dormência e germina preso à planta-mãe. No gênero Rhizophora, o embrião cresce para fora do fruto antes de cair, e o conjunto é o propágulo. Avicennia é criptovivípara, com forma mais discreta do mesmo traço. Segundo uma revisão, a viviparidade permite escapar do sal durante a germinação; é uma explicação adaptativa, não um teste.

Como sabemos que a raiz filtra o sal

A porcentagem de sal barrado é calculada comparando o sódio na seiva do xilema com o do solo, em plantas de salinidades variadas; a revisão reúne estudos de várias espécies. O método mede um resultado, não a via: a anatomia (suberina, estria de Caspary) explica o resultado, mas as autoras dizem que ainda se sabe pouco sobre como a árvore regula a absorção quando a salinidade varia na raiz.

Como sabemos

Os mecanismos vêm de revisões e estudos abertos lidos por inteiro, mas muitos detalhes foram medidos em espécies do Indo-Pacífico (Avicennia marina, Rhizophora mucronata) e só inferidos para as espécies brasileiras.

Fontes

  1. Annals of Botany — Regulation of water balance in mangroves
    Reef, R.; Lovelock, C. E. · 2015 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1093/aob/mcu174
  2. iScience — Genetic and molecular mechanisms underlying mangrove adaptations to intertidal environments
    Nizam, A.; Meera, S. P.; Kumar, A. · 2022 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/j.isci.2021.103547
  3. Scientific Reports — Pneumatophore CO2 effluxes decrease with increased salinity in mangrove forests of Yucatan, Mexico
    Salas-Rabaza, J. A. et al. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-024-68822-9
  4. Sexual Plant Reproduction — Semi-viviparous embryo development and dehydrin expression in the mangrove Rhizophora mucronata Lam.
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  5. Cambridge Prisms: Coastal Futures — Challenges to mangroves of the Semiarid Equatorial Coast of Brazil in the Anthropocene
    de Lacerda, L. D.; Ferreira, A. C.; Borges, R.; Ward, R. · 2024 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1017/cft.2024.16
  6. Scientific Reports — Transcriptome profiling during mangrove viviparity in response to abscisic acid
    Hong, L. et al. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-018-19236-x
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 16; conferência de trechos automatizada)

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