Ecologia

O mangue funciona como berçário: muitos peixes e crustáceos passam a juventude entre suas raízes

Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Em várias costas tropicais, filhotes de peixes, camarões e caranguejos crescem no manguezal antes de ir para o mar aberto. As raízes oferecem abrigo, e folhas em decomposição alimentam a base da cadeia. No Caribe, a biomassa de várias espécies de recife de interesse comercial mais que dobra quando o recife está ligado a mangues.

Manguezais ocupam cerca de 14,8 milhões de hectares nas margens tropicais e subtropicais do planeta. Segundo a FAO, servem de habitat, área de desova e berçário para peixes, crustáceos e moluscos, e folhas e matéria orgânica em decomposição sustentam cadeias alimentares de espécies de valor comercial. As raízes em emaranhado também protegem os jovens: peixes e outros animais ali encontram comida e abrigo contra predadores. O efeito, porém, varia: estudos comparados mostram que a importância do mangue depende da região e da maré, e que a proteção de um único habitat não basta, porque os jovens também usam capins marinhos e recifes.

Um caranguejo azul que vive em terra e depende do mar

O guaiamum (Cardisoma guanhumi) vive em tocas no solo, na margem do mangue. Mas, segundo o acervo Entre o Mar e a Montanha, as fêmeas levam os ovos à água salgada, e os jovens se desenvolvem no mar antes de voltar à terra.

Abrigo nas raízes

As raízes-escora e as raízes aéreas formam um emaranhado que atrai peixes e outros organismos em busca de comida e de abrigo contra predadores. Para um peixe pequeno, esse labirinto reduz o risco de ser visto e de ser perseguido em água aberta. O abrigo é uma das razões pelas quais o mangue é chamado de berçário.

Comida que vem das folhas

A FAO descreve folhas e matéria orgânica em decomposição como base de cadeias alimentares que sustentam espécies de valor comercial. Animais que comem lama e detritos, como o chama-maré (Minuca rapax), que o acervo Entre o Mar e a Montanha registrou em Caraguatatuba, ajudam a ligar essa matéria orgânica a predadores maiores. A medida exata dessa contribuição varia entre ecossistemas.

O efeito sobre os recifes

Em 2004, Mumby e colegas mostraram no Caribe que a biomassa de várias espécies comerciais mais que dobra quando o recife está conectado a mangues. O peixe-papagaio Scarus guacamaia sumiu localmente após a destruição dos mangues. Em 2013, na Tanzânia, análises de otólitos mostraram que 99% dos adultos de Lutjanus fulviflamma passaram pelo mangue quando jovens.

Onde a regra muda

Uma metanálise de 2014 mostrou que o Caribe tem mais jovens em mangues do que em capins marinhos, enquanto no Indo-Pacífico os capins marinhos abrigam mais. A amplitude da maré pesa mais do que a região. A lição é de conexão: mangue, capim marinho e recife funcionam em conjunto, e proteger só um deles pode não bastar.

Como sabemos

O papel de berçário é bem sustentado em estudos do Caribe e da Tanzânia, mas o efeito varia por região e não se verificou dado específico do Brasil em fonte primária.

Em debate: O papel varia por região: forte no Caribe, menos claro no Indo-Pacífico, onde capins marinhos podem abrigar mais jovens. Maré e salinidade modulam o efeito. Números muito altos, como proporção de espécies de pesca que dependem do mangue, circulam sem uma fonte primária clara e foram deixados de fora.

Fontes

  1. FAO — Mangroves (FAO Forestry)
    consultada em 06/10/2026
  2. Nature (Mumby et al., 2004), via Europe PMC — Mangroves enhance the biomass of coral reef fish communities in the Caribbean
    consultada em 06/10/2026
  3. PLoS One (Kimirei et al., 2013) — The mangrove nursery paradigm revisited: otolith stable isotopes support nursery-to-reef movements by Indo-Pacific fishes
    consultada em 06/10/2026
  4. PLoS One (Igulu et al., 2014) — Mangrove habitat use by juvenile reef fish: meta-analysis reveals that tidal regime matters more than biogeographic region
    consultada em 06/10/2026
  5. NOAA National Ocean Service — What are mangroves?
    consultada em 06/10/2026
  6. Entre o Mar e a Montanha (Gilmar R. Ferreira) — Cardisoma guanhumi (guaiamum)
    consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão

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