Evolução

Mandioca: povos indígenas a domesticaram a partir de uma subespécie silvestre da borda sul da Amazônia

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

A mandioca descende de Manihot esculenta subsp. flabellifolia, planta silvestre das bordas da Amazônia. As versões do gene G3pdh que a mandioca divide com ela ocorrem em Mato Grosso, Rondônia e Acre, e não em Goiás e Tocantins. Fitólitos de Manihot de cerca de 10.350 anos aparecem na Bolívia,, e uma comparação genômica achou menos linamarina, composto tóxico, em variedades cultivadas.

Domesticar uma planta é selecioná-la, por gerações, até formar variedades adaptadas ao uso humano. Para achar o ancestral, compara-se o DNA: se a variação genética da lavoura é um subconjunto da de uma população silvestre, é dela que a lavoura deve descender. A mandioca (Manihot esculenta) é cultivada pela raiz de reserva, rica em amido, e contém glicosídeos cianogênicos, como a linamarina, compostos de toxicidade latente que exigem preparo. As variedades doce e amarga diferem no teor: mais ou menos de 100 ppm. As fontes atribuem a domesticação a povos indígenas sul-americanos, mas a autoria do processo, as datas e o número de eventos têm lacunas.

A raiz quase não deixa vestígio

Por ser cultivo de terras baixas úmidas, a mandioca se preserva particularmente mal no registro arqueobotânico, segundo Olsen e Schaal. Por isso a data da origem foi tão difícil de fixar, e microrrestos como fitólitos ajudam a preencher a lacuna.

Como sabemos qual planta silvestre foi a origem

Olsen e Schaal (1999) leram um trecho de um gene nuclear de cópia única, o G3pdh, em 212 plantas, 20 delas cultivares, e contaram 28 versões da sequência (haplótipos). Se uma versão aparece na mandioca e numa população silvestre, a população é candidata a parente. As versões compartilhadas estavam todas no sul da borda amazônica, em seis populações entre o oeste de Mato Grosso e o de Rondônia. O limite é um só gene, e o Peru ficou sem amostra.

O que a domesticação mudou na raiz

Wang e colegas (2014) sequenciaram o genoma de uma planta silvestre (W14) e de uma variedade cultivada (KU50). A cultivada tem potencial de raiz seis a oito vezes maior e cinco a seis vezes mais amido, e a linamarina nas raízes foi de seis a dez vezes menor em duas cultivares. Os autores sugerem que elementos transponíveis (trechos móveis do DNA) tenham influído, mas dizem que falta testar. É uma comparação de poucos acessos, não da espécie toda.

Doce e amarga: toxicidade como gradiente

Alves-Pereira e colegas (2020) lembram que o teor de glicosídeos cianogênicos varia de forma contínua entre variedades, mas os agricultores amazônicos distinguem a mandioca doce (menos de 100 ppm) da amarga (mais de 100 ppm) e as cultivam em roças separadas, o que mantém os dois grupos geneticamente distintos. Quem veio primeiro é hipótese, e o artigo registra que os estudos citados não descartaram cenários alternativos.

O que o registro arqueológico mostra e o que não mostra

Lombardo e colegas (2020) acharam fitólitos de Manihot de cerca de 10.350 anos cal BP em Isla Manechi, nos Llanos de Moxos, numa paisagem de ilhas de floresta criada por pré-colombianos. Os fitólitos identificam o gênero, e não a espécie nem o grau de domesticação. Sozinhos, não provam uma mandioca já domesticada, mas coincidem com a data estimada da divergência molecular e com a distribuição do ancestral silvestre.

Como sabemos

A origem a partir da subespécie silvestre no sul da Amazônia tem boa base genética, mas vem de um único gene (1999), de poucas cultivares e de fitólitos de nível de gênero; datas e a ordem doce/amarga são estimativas e hipóteses.

Em debate: Estudos de genética populacional apoiam uma domesticação no sudoeste da Amazônia, com controvérsia remanescente (Alves-Pereira e colegas, 2020). Uma proposta, de Arroyo-Kalin (2010), cita a doce como primeira e a amarga só por volta de 4.000-3.000 anos atrás; a estrutura genética neutra de 2020 é compatível, mas os autores não descartam outros cenários.

Fontes

  1. Proceedings of the National Academy of Sciences (via PubMed Central) — Evidence on the origin of cassava: Phylogeography of Manihot esculenta
    Olsen, K. M.; Schaal, B. A. · 1999 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.96.10.5586
  2. Nature Communications (via PubMed Central) — Cassava genome from a wild ancestor to cultivated varieties
    Wang, W. et al. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/ncomms6110
  3. Nature (via PubMed Central) — Early Holocene crop cultivation and landscape modification in Amazonia
    Lombardo, U.; Iriarte, J.; Hilbert, L.; Ruiz-Pérez, J.; Capriles, J. M.; Veit, H. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41586-020-2162-7
  4. Evolutionary Applications (via PubMed Central) — A population genomics appraisal suggests independent dispersals for bitter and sweet manioc in Brazilian Amazonia
    Alves-Pereira, A.; Clement, C. R.; Picanço-Rodrigues, D.; Veasey, E. A.; Dequigiovanni, G.; Ramos, S. L. F.; Pinheiro, J. B.; Souza, A. P.; Zucchi, M. I. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1111/eva.12873
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 17; conferência de trechos automatizada)

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