Zoologia
Mamangavas aprendem a puxar uma corda e a técnica passa a outras: o estudo de Alem et al. (2016)
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Inteligência animal
Em laboratório, mamangavas (Bombus terrestris) puxaram um barbante preso a uma flor artificial para alcançar solução de açúcar. Abelhas sem treino que viram uma colega fazer isso aprenderam a tarefa, e a técnica se espalhou por colônias a partir de uma só abelha treinada. O mecanismo era simples: atração pelo lugar e pelo barbante, mais tentativa e erro.
Aprendizado social é aprender com a observação de outro indivíduo. Em 2016, Sylvain Alem, Lars Chittka e colegas, da Queen Mary University of London, perguntaram se uma mamangava aprende uma tarefa sem relação com sua vida natural: puxar um barbante para trazer de baixo de uma mesa transparente uma flor artificial com solução de açúcar. Primeiro treinaram abelhas por etapas. Depois puseram abelhas sem treino para assistir a uma colega e, por fim, soltaram uma abelha treinada dentro de uma colônia. O foco do artigo é o mecanismo: o que, exatamente, a observadora aprende. A resposta dos autores é que bastam processos associativos, sem entendimento da relação entre barbante e flor.
A flor azul fazia diferença
Sem a flor azul, só 2 de 15 abelhas recém-treinadas puxaram o barbante preso a uma tampinha incolor com açúcar. Após 48 horas de treino intenso, 11 de 15 conseguiram sem o estímulo colorido.
Como sabemos: três grupos de comparação
O desenho comparou abelhas treinadas por etapas, abelhas sem treino e abelhas que assistiram a uma demonstradora. As sem treino quase nunca resolviam a tarefa sozinhas (2 de 25 na segunda tentativa), o que dá a linha de base. As que assistiram resolveram em 15 de 25. O controle fantasma, com a flor movida por fios, separa copiar uma abelha de reagir ao movimento da flor: nele, ninguém aprendeu. A ressalva é dos autores: sem vídeo da direção do olhar, não dá para saber se as abelhas olharam o movimento.
Por que o resultado indica associação, e não compreensão
Se a observadora entendesse que o barbante liga a flor ao açúcar, o barbante enrolado não a impediria. Nenhuma das 27 observadoras resolveu esse teste. Sem a flor azul presa ao barbante, quase nenhuma recém-treinada puxou. Para os autores, as abelhas associam um local e um objeto a uma recompensa e depois descobrem, por tentativa e erro, que puxar aproxima a flor. Com muita prática, algumas passaram a resolver sem esse retorno visual, de modo que a explicação não é fixa.
A cadeia de transmissão
Em cada colônia, uma abelha treinada foi liberada e as forrageadoras foram testadas em duplas, pela ordem de saída da colmeia. A técnica passou da abelha treinada a aprendizes e destas a novas aprendizes, com até quatro conjuntos sucessivos, e seguiu se espalhando após a morte da demonstradora numa colônia. Nos controles, ninguém aprendeu. Para os autores, é isso que faz da difusão um ingrediente de cultura: comportamento transmitido socialmente que persiste além do primeiro indivíduo.
O que o estudo não mostra
As mamangavas não ensinaram: o artigo descreve demonstradoras que apenas puxam o barbante e observadoras que aprendem por conta própria. A tarefa foi criada pelos pesquisadores e as colônias foram acompanhadas por dias, não por gerações reais. Os autores consideram improvável um análogo natural exato, mas dizem que a capacidade existiria se houvesse oportunidade. Em 2024, outro grupo mostrou que mamangavas aprendem por observação uma tarefa que não resolvem sozinhas, ponto que o estudo de 2016 não testou.
Como sabemos
Resultados lidos no texto integral do artigo de acesso aberto; o ponto interpretativo é a ausência de compreensão, uma conclusão dos autores a partir do teste do barbante enrolado.
- Evidência forte: No estudo de Alem et al. (2016), 23 de 40 mamangavas de uma colônia foram treinadas, por etapas de dificuldade crescente, a puxar um barbante para obter a recompensa. [1] Results, The Acquisition of a String Pulling Technique
Contexto: Mamangavas (Bombus terrestris) de colônias de laboratório, na Queen Mary University of London; flores artificiais azuis com solução de sacarose. · Limitações: Resultado de uma colônia (Colony 1); desistências por abandono da forragem ou fracasso reduziram o número em cada etapa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Nenhuma das 50 mamangavas sem treino de uma colônia resolveu a tarefa em 5 minutos; numa segunda chance, 2 de 25 resolveram, por acaso, ao mexer no barbante enquanto tentavam alcançar a flor. [1] Results, Innovators
Contexto: Mamangavas (Bombus terrestris) de colônias de laboratório, na Queen Mary University of London; flores artificiais azuis com solução de sacarose. · Limitações: Os autores descrevem a solução espontânea como rara: não surgiram outras 'inovadoras' entre as demais abelhas testadas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Entre mamangavas sem treino que assistiram a uma demonstradora treinada de dentro de uma câmara transparente, 15 de 25 puxaram o barbante e obtiveram a recompensa no teste seguinte. [1] Results, Social Learning of String Pulling by Caged Observers
Contexto: Mamangavas (Bombus terrestris) de colônias de laboratório, na Queen Mary University of London; flores artificiais azuis com solução de sacarose. · Limitações: As observadoras viam a demonstração dez vezes, sem contato direto; as que acertaram foram, de início, quase tão lentas quanto as duas inovadoras. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: No controle 'fantasma', em que a flor se movia puxada por fios de náilon sem abelha visível, nenhuma observadora aprendeu a puxar o barbante. [1] Results, Social Learning of String Pulling by Caged Observers
Contexto: 15 observadoras (Colony 3) no controle fantasma. · Limitações: Os próprios autores ressalvam que, sem vídeo, não se sabe se as abelhas olharam para a flor em movimento; a falha pode refletir falta de atenção, e não só a ausência de uma abelha demonstradora. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em um teste com barbante enrolado, em que puxar não faz a flor se aproximar de imediato, nenhuma das 27 observadoras resolveu a tarefa; os autores concluem que elas aprenderam onde ir, mas não a técnica. [1] Results, The Mechanisms of Observational Learning
Contexto: Mamangavas (Bombus terrestris) de colônias de laboratório, na Queen Mary University of London; flores artificiais azuis com solução de sacarose. · Limitações: A interpretação (aprendem o local; a técnica vem por tentativa e erro) é dos autores. 3 de 8 abelhas muito experientes (mais de 20 puxadas) resolveram o barbante enrolado, de modo que a dependência do retorno visual diminui com a experiência. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Os autores atribuem o aprendizado por observação a três processos associativos: atração pelo local onde a demonstradora foi vista (realce de local), atração pelo objeto manipulado (realce de estímulo) e tentativa e erro guiada pelo retorno perceptivo. [1] Results, The Mechanisms of Observational Learning
Contexto: Mamangavas (Bombus terrestris) de colônias de laboratório, na Queen Mary University of London; flores artificiais azuis com solução de sacarose. · Limitações: O realce de local teve papel forte; o de estímulo, secundário, segundo os autores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Sem a flor azul presa ao barbante, só 2 de 15 mamangavas recém-treinadas obtiveram a recompensa; depois de 48 h de treino intenso (20 puxadas), 11 de 15 resolveram sem esse retorno visual. [1] Results, The Acquisition of a String Pulling Technique
Contexto: Mamangavas (Bombus terrestris) de colônias de laboratório, na Queen Mary University of London; flores artificiais azuis com solução de sacarose. Flor substituída por uma tampa incolor com solução de açúcar presa ao barbante (colônia 2). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em três colônias com uma abelha treinada introduzida (demonstradora semeada), 25 de 47, 17 de 29 e 12 de 28 forrageadoras aprenderam a puxar o barbante em 150 saídas em dupla. [1] Results, The Spread of String Pulling in a Transmission Chain Experiment
Contexto: Mamangavas (Bombus terrestris) de colônias de laboratório, na Queen Mary University of London; flores artificiais azuis com solução de sacarose. Pares formados pela ordem de saída da colmeia (paradigma de difusão em grupo aberto). · Limitações: Três colônias com demonstradora; o resultado varia entre elas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Nas três colônias-controle, sem demonstradora treinada, nenhuma forrageadora aprendeu a puxar o barbante. [1] Results, The Spread of String Pulling in a Transmission Chain Experiment
Contexto: Mamangavas (Bombus terrestris) de colônias de laboratório, na Queen Mary University of London; flores artificiais azuis com solução de sacarose. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em uma das colônias, a técnica continuou a se espalhar mesmo depois da morte da demonstradora semeada, e houve até quatro conjuntos sucessivos de aprendizes, que os autores chamam de 'gerações' de aprendizado. [1] Discussion
Contexto: Mamangavas (Bombus terrestris) de colônias de laboratório, na Queen Mary University of London; flores artificiais azuis com solução de sacarose. · Limitações: Os autores avisam que esses conjuntos de aprendizes não são gerações biológicas; o experimento durou dias de observação, e não gerações reais de abelhas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Uma análise de difusão em rede indicou, nas três colônias com demonstradora, que a transmissão social explicava a propagação melhor do que o aprendizado individual independente. [1] Results, Table 2 (NBDA)
Contexto: Mamangavas (Bombus terrestris) de colônias de laboratório, na Queen Mary University of London; flores artificiais azuis com solução de sacarose. · Limitações: Comparação de modelos pelo critério de Akaike (ΔAIC); depende do modelo adotado e de as interações registradas representarem as oportunidades reais de aprendizado. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em média, as aprendizes precisaram ver cerca de 5 puxadas de uma abelha experiente antes de conseguir puxar o barbante sozinhas. [1] Results, The Spread of String Pulling in a Transmission Chain Experiment
Contexto: Mamangavas (Bombus terrestris) de colônias de laboratório, na Queen Mary University of London; flores artificiais azuis com solução de sacarose. · Limitações: Média de 5 ± 0,45 (erro-padrão); 15 de 104 forrageadoras aprenderam após uma ou duas observações, e algumas não aprenderam, o que os autores atribuem a variação entre colônias e indivíduos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em 2017, outro estudo com mamangavas mostrou que abelhas que viram uma demonstração viva ou por modelo aprenderam a tarefa da bolinha com mais eficiência do que as que viram uma demonstração 'fantasma' (bolinha movida por ímã) ou nenhuma. [3] Resumo
Contexto: Loukola et al. 2017, tarefa de levar uma bolinha a um local definido; resultado em outra tarefa, que apoia a lógica do controle fantasma. · Limitações: Só o resumo foi lido; a tarefa é diferente da do barbante. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Hipótese: Para os autores, o resultado indica que a transmissão cultural de uma habilidade não exige a sofisticação cognitiva humana, só aprendizado associativo e motor básico. [1] Discussion
Contexto: Mamangavas (Bombus terrestris) de colônias de laboratório, na Queen Mary University of London; flores artificiais azuis com solução de sacarose. · Limitações: Conclusão dos autores a partir de uma tarefa criada em laboratório; eles próprios consideram improvável um análogo natural exato. · Interpretação dos autores sobre o que o experimento sugere; outras definições de cultura animal podem exigir mais que isso. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em 2024, um estudo na Nature relatou que cerca de um terço das mamangavas observadoras aprendeu a abrir uma caixa de dois passos, que mamangavas sem demonstração não abriram em até 24 dias de exposição. [2] Abstract
Contexto: Bridges et al. 2024, Nature; mamangavas (Bombus terrestris) em tarefa diferente da do barbante. · Limitações: Resultado de outro experimento de laboratório; não faz parte do estudo de 2016. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- PLOS Biology — Associative Mechanisms Allow for Social Learning and Cultural Transmission of String Pulling in an Insect
Alem, S.; Perry, C. J.; Zhu, X.; Loukola, O. J.; Ingraham, T.; Søvik, E.; Chittka, L. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pbio.1002564 - Nature — Bumblebees socially learn behaviour too complex to innovate alone
Bridges, A. D.; Royka, A.; Wilson, T.; et al. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41586-024-07126-4 - Science — Bumblebees show cognitive flexibility by improving on an observed complex behavior
Loukola, O. J.; Perry, C. J.; Coscos, L.; Chittka, L. · 2017 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.aag2360
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 10; conferência de trechos automatizada)