História da África

Império do Mali x Império Romano: o que os números permitem comparar, e o que não permitem

Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

No auge, por volta de 117, o Império Romano cobria cerca de 5 milhões de km². O Mali, por volta de 1380, cerca de 1,1 milhão, segundo estimativas do cientista político Rein Taagepera usadas em estudos comparativos. Roma pode ter chegado a 60 ou 70 milhões de habitantes em meados do século II. Para o Mali não existe estimativa populacional confiável. A diferença diz muito sobre as fontes que cada império deixou: censos e inscrições em Roma, relatos árabes e tradição oral no Mali.

Comparar impérios separados por mil anos exige cuidado. As áreas são reconstruções: Taagepera mediu territórios a partir de mapas históricos, numa unidade de 1 milhão de km², e o próprio método supõe fronteiras que, em impérios tributários como o Mali, eram faixas de influência e não linhas fixas. Para Roma, há dados de censos de cidadãos e muita pesquisa, mas mesmo assim os historiadores divergem sobre a população; o historiador Walter Scheidel escreve que, para a Itália romana, nem a ordem de grandeza é consenso. Para o Mali, quase tudo o que se sabe vem de autores árabes, como al-Umari, Ibn Battuta e Ibn Khaldun, e da tradição oral dos griôs. Os dois impérios tiveram bases diferentes: Roma vivia sobretudo de uma agricultura de camponeses e de impostos sobre a produção; o Mali, do ouro, do sal, do cobre e do controle de rotas comerciais.

Outro gigante africano

Nas mesmas tabelas de estudos comparativos, o Mali não é o único Estado africano entre os grandes da história: o reino de Axum, no norte da Etiópia, aparece com cerca de 1,25 milhão de km² por volta do ano 350, mais que o Mali no auge. São estimativas que incluem territórios tributários, com fronteiras incertas.

Como se mede um império

O cientista político Rein Taagepera, da Universidade da Califórnia em Irvine, mediu em mapas históricos a área de dezenas de Estados ao longo de cinco milênios, em megâmetros quadrados (1 Mm² equivale a 1 milhão de km²). Pelos seus números, o Mali passou de cerca de 0,1 Mm² por volta de 1250 a 1,1 Mm² por volta de 1380 e caiu para 0,4 Mm² em 1500, depois da perda de Timbuktu. Roma aparece com cerca de 5 Mm² no auge. Esses valores foram usados em vários estudos comparativos, mas dependem de mapas que desenham fronteiras nítidas onde muitas vezes havia zonas de influência e povos que pagavam tributo sem estar sob controle direto.

Por que não sabemos a população do Mali

Não há censos do Mali medieval nem registros fiscais que tenham sobrevivido. O que existe são relatos de viajantes e informantes árabes, como al-Umari, que ouviu Musa dizer no Cairo que seus súditos eram muito numerosos, e Ibn Battuta, que passou meses na corte por volta de 1353, além da tradição oral dos griôs. Nenhuma dessas fontes conta pessoas. Por isso, a coluna da população do Mali fica sem número nesta comparação. Cifras que circulam na internet, de dezenas de milhões de habitantes, não têm fonte acadêmica identificável.

Roma: números também em disputa

Para Roma há muito mais dados, entre eles os censos de cidadãos da República e do início do Império. Mesmo assim, o historiador Walter Scheidel, de Stanford, escreve que não sabemos quantas pessoas viviam na Itália romana nem no Mediterrâneo em nenhum momento, e que até a ordem de grandeza é disputada. Para o Império inteiro, as estimativas giram em torno de 45 milhões no ano 14 e de 60 a 70 milhões em meados do século II, antes da chamada Peste Antonina. Scheidel e Steven Friesen trabalham com 70 milhões e admitem que o número pode ser baixo.

Economias diferentes

Roma era uma economia agrária: a grande maioria da população vivia da agricultura de subsistência, e o Estado cobrava impostos sobre a produção do campo, em torno de 10% em terras privadas, segundo estimativas citadas por Scheidel e Friesen. O Mali também tinha agricultores, pastores e tecelões, mas sua projeção vinha do controle de bens raros: o ouro de Buré e Bambuk, o sal do Saara e o cobre de Takedda, além das rotas que os levavam ao Magrebe, ao Egito e às florestas do sul. O mansa tinha direito exclusivo às pepitas de ouro e cobrava taxas sobre o comércio.

Religião e poder

Os mansas do Mali eram muçulmanos, fizeram a peregrinação a Meca e cercaram-se de juristas e marabutos, mas a corte conservou rituais antigos, e fora das cidades as religiões tradicionais continuaram fortes. Em Roma, no século II, a grande maioria da população praticava cultos politeístas, de deuses da família, da cidade e do Império. Desde Augusto, que reinou de 27 a.C. a 14 d.C., o imperador recebia culto, numa fusão completa de religião e política. Judeus formavam uma minoria visível, e os cristãos eram ainda poucos diante de cultos populares como os de Ísis e de Mitra. O cristianismo só se tornaria dominante séculos depois.

Durações e fins

As datas de início e fim são convenções. Para Roma, costuma-se contar o Império a partir de Augusto e marcar o fim no Ocidente em 476, quando Rômulo Augústulo foi deposto; a metade oriental durou quase mais mil anos. Para o Mali, o início é a vitória de Sundiata em Kirina, datada de 1235 pela tradição, e o fim, a derrota de Mansa Mahmud IV diante de Djenné, em 1599, depois da qual o império se fragmentou em reinos menores. Os dois declinaram aos poucos, perdendo províncias para vizinhos e disputas internas antes da data que os livros escolhem.

Como sabemos

As linhas qualitativas são bem documentadas, mas área e população são estimativas de baixa precisão, e para a população do Mali não existe número confiável.

Em debate: Áreas de impérios antigos são reconstruções. A lista de Taagepera, usada por Turchin e outros, se baseia em pesquisas dos anos 1970 e foi criticada por historiadores por não citar fonte para cada entrada; os números servem para ordem de grandeza, não para precisão.

Em debate: População romana: as estimativas para o século II variam de cerca de 45 a 70 milhões ou mais, e o debate sobre a Itália é intenso (Scheidel 2007).

Em debate: População do Mali: não há base documental para uma estimativa; números que circulam na internet (como dezenas de milhões) não têm fonte acadêmica identificável e não foram usados.

Em debate: Capital do Mali: Niani versus sedes móveis (Conrad 1994).

Em debate: Datas de duração são convenções: para Roma, o início do Principado (27 a.C.) e a deposição de Rômulo Augústulo (476) no Ocidente; para o Mali, Kirina (1235, data da tradição) e a derrota de 1599, depois da qual o império se fragmentou.

Fontes

  1. University of California, Irvine (eScholarship) — Expansion and Contraction Patterns of Large Polities: Context for Russia (International Studies Quarterly 41(3), 1997)
    consultada em 03/10/2026
  2. University of Pittsburgh (Journal of World-Systems Research) — East-West Orientation of Historical Empires and Modern States (Journal of World-Systems Research 12(2), 2006)
    consultada em 03/10/2026
  3. Journal of Roman Studies (cópia hospedada na Paris School of Economics) — The Size of the Economy and the Distribution of Income in the Roman Empire (Journal of Roman Studies 99, 2009)
    consultada em 03/10/2026
  4. Stanford University (cópia hospedada na University of Cincinnati) — Roman population size: the logic of the debate (Princeton/Stanford Working Papers in Classics, 2007)
    consultada em 03/10/2026
  5. UNESCO — General History of Africa, IV (cap. 6 e 7, sobre o Mali)
    consultada em 03/10/2026
  6. AfricaBib (African Studies Centre Leiden) — A town called Dakajalan: the Sunjata tradition and the question of ancient Mali's capital (Journal of African History, 1994) — registro e resumo
    consultada em 03/10/2026
  7. PBS — A Portrait of Jesus' World: The Empire's Religions (From Jesus to Christ, FRONTLINE)
    consultada em 03/10/2026
  8. PBS — Chronology (From Jesus to Christ, FRONTLINE)
    consultada em 03/10/2026
  9. Utah State University, Department of History — Section 8: The Fall of Rome: Facts and Fictions (HIST 1100)
    consultada em 03/10/2026
  10. PBS — A Portrait of Jesus' World: Religion in the Roman World (From Jesus to Christ, FRONTLINE)
    consultada em 03/10/2026
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