Física

Maisena com água endurece sob impacto: grãos em contato formam um bloco sólido, e o detalhe ainda se debate

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Ciência do cotidiano

A mistura de maisena e água é um fluido cuja viscosidade sobe de forma abrupta quando a deformação é rápida. Sob impacto, os grãos entram em contato e formam correntes de força que travam o material num bloco sólido sob o objeto. Medições mostraram que esse bloco avança como uma frente, sem aumento detectável da fração de grãos, e o papel exato do atrito e do inchaço dos grãos segue em estudo.

Um fluido comum, como a água, tem viscosidade (resistência a escoar) que não depende de quão depressa ele é deformado. Num fluido não newtoniano, depende. A maisena em água é uma suspensão densa: grãos sólidos de amido espalhados num líquido. Parada ou deformada devagar, escoa; deformada depressa, a viscosidade pode subir ordens de grandeza. É isso que torna possível a demonstração de pessoas correndo sobre a suspensão. A explicação dos físicos não envolve o líquido "virar sólido": os grãos se tocam, se travam uns nos outros e carregam a força, até a carga sumir e a mistura voltar a fluir.

A maisena incha na água, mas não no etanol

Ao microscópio, grãos de maisena incharam cerca de 12% em diâmetro (cerca de 40% em volume) ao entrar em água, mas não em etanol. Como absorvem parte da água, a fração de volume dos grãos sobe cerca de 11%, o que ajuda a explicar por que a mistura endurece com menos grãos do que se esperava.

Uma frente de travamento avança pela mistura

O bloco sólido não aparece de uma vez: uma frente de travamento atravessa a suspensão, convertendo material fluido em material rigidamente travado, e viaja bem mais depressa que o objeto que bate. Em 2016, Han e colegas mediram que a velocidade da frente na direção do impacto é cerca de duas vezes a transversal. Os grãos do bloco não ficam mais apertados: a fração de grãos não subiu de forma detectável.

Atrito, inchaço dos grãos e o que ainda se debate

Os autores de 2016 associam o limiar de solidificação à quebra das películas de lubrificação e ao início do atrito entre grãos, uma interpretação. Em 2019, outro grupo mediu que os grãos incham em água e não em etanol, e postulou que isso cria uma escala de força entre partículas. Areia revestida com polímero reproduziu o endurecimento, o que sugere o mecanismo sem prová-lo para a maisena.

Como sabemos: ultrassom, queda de disco e reômetro

Han e colegas usaram ultrassom de alta velocidade para olhar dentro da suspensão opaca durante o impacto, medindo a velocidade do som para estimar variações de fração de grãos e acompanhando o fluxo interno. O estudo de 2019 largou um disco de 291 g em suspensões de água e de etanol, e o de 2020 usou um reômetro modificado. Limites: os solventes de dois dos estudos não eram água pura, e todos são ensaios de laboratório.

A prova pelo avesso: desfazer o bloco

Niu e colegas aplicaram uma oscilação rápida perpendicular ao impacto e viram a força na placa cair mais de uma ordem de grandeza, com a fratura frágil dando lugar ao estrangulamento típico de um líquido. Segundo o resumo, as simulações ligam isso ao número de contatos entre grãos, e os autores sugerem que o método faria quem corre sobre a mistura afundar; o teste foi feito com um cilindro, não com pessoas.

Como sabemos

Os fatos observados (bloco sólido, frente, sem adensamento, inchaço) têm artigo aberto lido e trecho literal; o mecanismo microscópico completo ainda é debatido, e parte dos experimentos usa solventes diferentes de água pura.

Em debate:

Fontes

  1. Science Advances (Cornell University) — Tunable solidification of cornstarch under impact: How to make someone walking on cornstarch sink
    Niu, R.; Ramaswamy, M.; Ness, C.; Shetty, A.; Cohen, I. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.aay6661
  2. Nature Communications (Duke University) — Discontinuous rate-stiffening in a granular composite modeled after cornstarch and water
    Chen, D. Z.; Zheng, H.; Wang, D.; Behringer, R. P. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41467-019-09300-z
  3. Nature Communications (University of Chicago) — High-speed ultrasound imaging in dense suspensions reveals impact-activated solidification due to dynamic shear jamming
    Han, E.; Peters, I. R.; Jaeger, H. M. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/ncomms12243
  4. Polymers (Tongji University) — Shear Thickening Fluid and Its Application in Impact Protection: A Review
    Liu, H.; Fu, K.; Cui, X.; Zhu, H.; Yang, B. · 2023 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/polym15102238
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 12; conferência de trechos automatizada)

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