Biologia
Como se descobriu que a planta tem relógio próprio: a mimosa no escuro de De Mairan, em 1729
Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026
Assuntos: Plantas em ação
Em 1729, o astrônomo francês Jean-Jacques d’Ortous de Mairan notou que as folhas de uma mimosa continuavam subindo e descendo no ritmo do dia mesmo fora da luz do sol. O movimento, portanto, não era só resposta à luz. Que a planta mede o tempo por conta própria só ficou claro depois, com ritmos que persistem sem pistas externas e duram quase, mas não exatamente, 24 horas.
Na mimosa, as folhas se abrem de manhã e se dobram à noite. A pergunta de Mairan era simples: isso é uma reação direta à luz ou algo que a planta faz sozinha? O teste foi tirar a luz do sol e olhar se o ritmo continua. Um ritmo que segue sem nenhum sinal externo de 24 horas é chamado de ritmo livre. Quando dura perto de 24 horas, mas não exatamente isso, é circadiano (do latim circa diem, “cerca de um dia”). Um sinal externo que sincroniza o relógio, como o ciclo de claro e escuro, é um zeitgeber (“doador de tempo”, em alemão). Endógeno quer dizer de origem interna.
Folhas que dormem já eram descritas na Antiguidade
Segundo McClung, no século IV a.C. Androsthenes descreveu os movimentos de sono das folhas de árvores durante as expedições de Alexandre, o Grande, sem indício de que o ritmo fosse visto como de origem interna.
O que um ritmo fora da luz prova, e o que não prova
Tirar a luz do sol responde a uma pergunta: o movimento depende de a planta receber luz? Mas a persistência do ritmo não exclui, sozinha, que ciclos externos não controlados, ligados à rotação da Terra, estejam conduzindo o ritmo. Para descartar essa hipótese, serve um segundo critério: o período dos ritmos livres fica perto de 24 horas, mas não exatamente nelas.
Por que “quase 24 horas” é a pista
Um relógio externo marcaria 24 horas certas. A Mimosa pudica de de Candolle seguiu um período de aproximadamente 24 h, e o feijão de Bünning, de 24,4 h em luz constante. Essa pequena diferença permite que o relógio interno seja ajustado todo dia pelo ciclo de claro e escuro, o que mantém a fase do ritmo no horário certo, segundo Vitaterna e colegas.
De 1729 a 1930: um caminho com idas e vindas
Depois de Mairan, de Candolle (cerca de um século depois) viu o período de cerca de 24 h e a inversão pela luz. Em 1907, Pfeffer descreveu o ritmo do feijão sem pistas externas, mas duvidava de um relógio interno porque o movimento cessava após vários dias em luz constante. Bünning, nos anos 1930, reuniu período, herança e compensação de temperatura. Huang resume o intervalo em cerca de 200 anos até se perceber o relógio endógeno.
Limites do método e o que fica de fora
Isolar o tempo é difícil: nos experimentos do século XX, em cavernas e bunkers, até o eletromagnetismo preocupava os pesquisadores, e o tempo biológico se mostrou extremamente difícil, se não impossível, de isolar com certeza. Os genes e as proteínas que formam o relógio, tema do Nobel de 2017 e de outro post, não fazem parte desta história.
Como sabemos
O resultado central e as características do ritmo circadiano estão em fontes abertas lidas no texto integral, mas o texto original de 1729 e os de de Candolle e Bünning não foram lidos, e as fontes divergem sobre o que Mairan concluiu.
Em debate: McClung (2019) afirma que Mairan estabeleceu que o movimento rítmico das folhas persiste em condições constantes e, portanto, é endógeno. Roenneberg (2025) diz que ele descobriu a independência em relação a dia e noite, mas não chegou a chamar o ritmo de endógeno. Este post apresenta o resultado (o ritmo persiste fora da luz do sol) como fato e a interpretação (origem interna) como conclusão posterior.
- Fato estabelecido: Em 1729, o astrônomo francês Jean-Jacques d’Ortous de Mairan observou que as folhas de uma mimosa continuavam subindo e descendo no ritmo do dia mesmo com a planta fora da luz do sol. [2] Introduction, §2 [5] Abstract, §2
Contexto: Mimosa, observação botânica de 1729. · Limitações: Descrições secundárias divergem sobre o local (sala interior, sala escura à prova de luz, caixa); o texto original de 1729 não foi lido. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: A observação de 1729 é amplamente considerada o primeiro experimento sobre ritmos biológicos. [4] Introduction, §2
Limitações: É um juízo de historiadores, não uma contagem exaustiva de experimentos anteriores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Mairan mostrou que o movimento das folhas não dependia de a planta ver a luz do dia, mas não chegou a chamá-lo de endógeno (de origem interna). [1] Introduction, §2 [6] Texto principal, sobre a história da biologia circadiana
Limitações: As fontes divergem na leitura: McClung diz que Mairan estabeleceu a origem endógena; Roenneberg diz que ele não chamou o ritmo assim. O post apresenta as duas leituras. O texto de 1729 não foi lido. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Um ritmo que continua sem nenhum sinal externo de 24 horas é chamado de ritmo livre (free-running). [2] Characteristic Properties of Circadian Rhythms, §1
Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: A persistência de um ritmo no escuro não exclui, por si só, que ciclos externos não controlados, ligados à rotação da Terra, estejam conduzindo o ritmo. [2] Characteristic Properties of Circadian Rhythms, §2
Contexto: Argumento metodológico geral da cronobiologia, citado com referência a Aschoff (1960). · Limitações: A fonte trata o argumento em termos gerais, não como crítica específica a Mairan. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Um ritmo conduzido por um sinal externo de 24 horas teria período de exatamente 24 horas; os ritmos circadianos persistem com período próximo de 24 horas, mas diferente dele, o que sustenta a origem interna e permite o ajuste diário do relógio ao ciclo de claro e escuro. [2] Characteristic Properties of Circadian Rhythms, §3
Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Cerca de um século depois de Mairan, de Candolle determinou que o período do movimento das folhas de Mimosa pudica era apenas aproximadamente 24 horas, o que tornava o ritmo circadiano. [1] Introduction, §2
Limitações: O texto de de Candolle não foi lido; a data fica como “cerca de um século depois”, conforme McClung. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: De Candolle também mostrou que o ritmo podia ser invertido ao se inverter o ciclo de claro e escuro, o que demonstra o ajuste (arrastamento) do relógio à luz. [1] Introduction, §2
Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Nos anos 1930, Erwin Bünning determinou que o movimento das folhas do feijão tinha período de 24,4 horas, e não 24, em luz constante. [5] Abstract, §2
Contexto: Feijão (Phaseolus), em luz constante. · Limitações: Valor relatado por Huang (2018); não conferido no trabalho original de Bünning. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Bünning foi o primeiro a demonstrar que os ritmos circadianos são herdados, cruzando plantas de feijão com períodos livres curtos e longos. [3] Introduction, §3
Limitações: “Primeiro” é a afirmação da autora da revisão (Helfrich-Förster, 2024). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Bünning não foi o primeiro a notar que as folhas de feijão continuam a se mover sem pistas externas de tempo: Pfeffer já descrevera isso em 1907, mas duvidava de um relógio interno porque o movimento cessa após vários dias em luz constante. [3] Introduction, §3
Limitações: Pfeffer interpretava o fim do ritmo em luz constante como argumento contra um relógio interno; a leitura posterior é outra. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Bünning mostrou que o período do movimento das folhas de Phaseolus coccineus muda pouco com a temperatura (Q10 de 1,2, contra cerca de 2 numa reação química típica), a chamada compensação de temperatura. [1] Introduction, §2
Contexto: Q10 é o fator pelo qual a velocidade de um processo aumenta a cada 10 °C. · Limitações: A definição de Q10 é nossa, a partir do uso comum do termo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: A pesquisa sobre o movimento rítmico das folhas definiu as características essenciais do ritmo circadiano: origem endógena, período de cerca de 24 horas, arrastamento pelo ambiente e compensação de temperatura. [1] Introduction, §2
Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Mesmo em laboratórios muito controlados, o tempo biológico mostrou-se extremamente difícil, se não impossível, de isolar com certeza. [4] Seção sobre cavernas e bunkers, experimentos de meados do século XX
Contexto: Experimentos de meados do século XX, em cavernas e bunkers, sobretudo com humanos. · Limitações: O contexto da frase é a história dos experimentos com humanos; vale como limite geral do método, não como crítica a um resultado específico. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Passaram-se cerca de 200 anos entre a observação de Mairan e o reconhecimento de que o movimento das folhas é controlado por um relógio circadiano endógeno. [5] Abstract
Limitações: Número aproximado, de Huang (2018); a data do “reconhecimento” depende de quem se considera ter estabelecido a ideia. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Biology (MDPI) — The Plant Circadian Oscillator
McClung, C. R. · 2019 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3390/biology8010014 - Alcohol Research & Health, National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA/NIH) — Overview of circadian rhythms
Vitaterna, M. H.; Takahashi, J. S.; Turek, F. W. · 2001 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Journal of Comparative Physiology A — Erwin Bünning and Wolfgang Engelmann: establishing the involvement of the circadian clock in photoperiodism
Helfrich-Förster, C. · 2024 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1007/s00359-024-01704-7 - History and Philosophy of the Life Sciences — Timeless spaces: Field experiments in the physiological study of circadian rhythms, 1938-1963
Hussey, K. D. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1007/s40656-023-00571-w - Biomedical Journal — The discoveries of molecular mechanisms for the circadian rhythm: The 2017 Nobel Prize in Physiology or Medicine
Huang, R.-C. · 2018 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.bj.2018.02.003 - npj Biological Timing and Sleep — Reflections of a conceptualist
Roenneberg, T. · 2025 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s44323-024-00021-1
Histórico de alterações
- Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 6; conferência de trechos automatizada)