Ecologia

Um dos maiores experimentos de fragmentação do mundo, ao norte de Manaus, já dura quatro décadas

Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Ao norte de Manaus, um trecho de cerca de 1.000 km² de floresta amazônica virou laboratório: pedaços de mata de 1 a 100 hectares foram isolados entre 1980 e 1990 e acompanhados desde então. Passadas quase quatro décadas, o Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais mostra que o tamanho do pedaço importa, mas a borda e a vegetação ao redor importam quase tanto.

Cortar a floresta em pedaços é o que o desmatamento faz na prática, mas quase sempre sem ninguém medir o antes. Neste experimento, a mata foi inventariada antes do isolamento e depois acompanhada. O projeto foi desenhado para saber quanto o tamanho do fragmento afeta a biodiversidade e acabou revelando outras coisas: as bordas mudam o microclima e a mortalidade de árvores, plantas e animais respondem de modos diferentes, e a paisagem ao redor muda com o tempo, de pasto para vegetação secundária. Os fragmentos se mostraram instáveis, com populações oscilando com secas, tempestades de vento e inundações.

Espécies que vão e voltam

Em fragmentos ligados à mata contínua por vegetação secundária, a abundância de alguns grupos de aves voltou ao nível de antes do isolamento. Já em pedaços pequenos cercados de pasto, aves insetívoras caíram mais de 95%.

Efeito de borda

Na borda, a floresta encontra um ambiente aberto. Segundo a síntese do projeto, isso altera o microclima, aumenta a mortalidade de árvores e reduz o carbono estocado. A intensidade varia com a idade da borda, com o número de bordas próximas e com a vegetação vizinha, o que explica por que dois fragmentos do mesmo tamanho podem se comportar de modos diferentes.

Mortalidade e biomassa

Em 2023, medições com LiDAR mostraram um efeito sutil: árvores jovens nas bordas crescem mais para os lados, com 50% mais volume, mas algumas árvores grandes ficaram mais baixas e perderam 30% do volume. O saldo foi de 6,0 Mg/ha a menos de biomassa aérea, cerca de 2,3% do total das florestas de borda.

Aves que somem e voltam

Dos 101 tipos de aves de sub-bosque registrados antes do desmatamento, 97 apareceram em algum fragmento até 2007. Muitas desaparecem e retornam, e por volta de 2000 a 2007 extinções e colonizações se equilibraram. Em pedaços pequenos cercados de pasto, porém, aves insetívoras chegaram a cair mais de 95%.

A paisagem também muda

O pasto ao redor virou, com o tempo, vegetação secundária em parte da área. Essa mudança ajudou a recolonização por aves e mostra que o destino de um fragmento depende do que o cerca, e não apenas do seu tamanho. Por isso o projeto é lido hoje como um estudo de paisagem inteira.

Como sabemos

Fatos numéricos conferidos em resumos de artigos e páginas institucionais; origem institucional do projeto não confirmada em fonte aberta.

Fontes

  1. Louisiana State University (repositório institucional) — An Amazonian rainforest and its fragments as a laboratory of global change
    consultada em 06/10/2026
  2. PNAS, via PubMed Central — Rates of species loss from Amazonian forest fragments (Ferraz et al., 2003)
    consultada em 06/10/2026
  3. Conservation Biology, via Louisiana State University — Long-term landscape change and bird abundance in Amazonian rainforest fragments (Stouffer et al., 2006)
    consultada em 06/10/2026
  4. Smithsonian Insider — Extinct birds reappear in rainforest fragments in Brazil
    consultada em 06/10/2026
  5. Nature Communications — Edge effects on tree architecture exacerbate biomass loss of fragmented Amazonian forests (Nunes et al., 2023)
    consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão

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