Astronomia

Magnetares: estrelas de nêutrons com campos de 10^14 a 10^15 gauss e o surto de rádio de 2020

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Estrelas

Um magnetar é uma estrela de nêutrons jovem cujo campo magnético, inferido em 10^14 a 10^15 gauss, alimenta surtos de raios X e gama. Em 28 de abril de 2020, o magnetar galáctico SGR 1935+2154 emitiu também um surto de rádio de milissegundos, junto a um surto de raios X, da ordem de mil vezes mais energético que o de qualquer magnetar de rádio conhecido. O evento reforçou a hipótese de que magnetares originam ao menos alguns surtos rápidos de rádio.

Uma estrela de nêutrons é um astro compacto, em geral deixado por uma supernova (veja o post sobre estrelas de nêutrons). Magnetares formam uma classe à parte: são jovens, giram devagar (períodos de cerca de 2 a 12 s) e têm campo de dipolo, inferido da desaceleração, acima de 10^14 gauss (G, a unidade de campo magnético). Foram catalogados como repetidores de raios gama moles (SGR) ou pulsares anômalos de raios X (AXP); hoje a fronteira entre os dois quase não existe. Um surto rápido de rádio (FRB) é um clarão de rádio de milissegundos; os conhecidos até 2020 vinham de fora da Galáxia, e a pergunta era se magnetares poderiam produzi-los. A resposta parcial veio de um magnetar da própria Via Láctea, SGR 1935+2154, a cerca de 10 kpc, ou seja, perto de 33 mil anos-luz (cálculo nosso: 1 kpc ≈ 3.262 anos-luz).

A primeira publicação, em 1979

A primeira publicação sobre a detecção de um magnetar é de 1979: surtos repetidos vistos pelas sondas Venera 11 e 12, entre eles um clarão enorme em 5 de março, vindo da Grande Nuvem de Magalhães. A pulsação de 8 s na cauda do clarão sugeria uma estrela de nêutrons.

Como se estima um campo de 10^14 a 10^15 gauss

Ninguém mede esse campo com uma sonda: ele é inferido. Os magnetares desaceleram sem exceção, e a taxa de desaceleração implica campo de dipolo acima de 5×10^13 G em 20 das 23 fontes medidas, a maioria acima de 10^14 G (revisão de Kaspi e Beloborodov, 2017). O argumento original pedia 10^14 a 10^15 G para frear a estrela em cerca de 10^4 anos. Limite: é o dipolo na superfície. Em SGR 0418+5729, uma linha de raios X, lida como ciclotrônica de prótons, apontaria campo bem maior, mas a leitura não é única.

Surtos, clarões gigantes e a origem da energia

Os surtos curtos duram de milissegundos a segundos. Os clarões gigantes são raros: só três foram registrados, em 1979, 1998 e 2004. O de 2004, em SGR 1806-20, liberou mais de 10^46 erg em 0,2 s, supondo 15 kpc. A energia vem do campo: na explicação adotada pela revisão, a evolução do campo tensiona e quebra a crosta da estrela e torce o campo externo. É um modelo, não uma observação do interior.

28 de abril de 2020: como o rádio foi ligado ao magnetar

Três linhas de evidência. Primeira, a dispersão: o gás ionizado atrasa as frequências baixas, e o DM do surto (332,7 pc cm^-3) fica abaixo do máximo previsto para a Galáxia na direção (500 a 700), portanto a fonte é galáctica. Segunda, o tempo: os dois componentes de raios X chegaram a cerca de 3 ms dos de rádio. Terceira, o STARE2 cita o FAST, que dois dias depois registrou um pulso fraco, de DM compatível, a menos de 3 minutos de arco do magnetar.

O que o surto mostrou e o que deixou em aberto

Com cerca de 3×10^34 a 2×10^35 erg, o surto ficou cerca de mil vezes acima de qualquer magnetar de rádio anterior e reduziu a lacuna para os FRBs, sem fechá-la: os FRBs mais energéticos estão 8 a 9 ordens de grandeza acima. Surtos de raios gama sem rádio detectado em 2019 sugerem que nem todo surto emite no rádio, ou que o feixe é direcional. Dois tipos de modelo explicam a emissão, e o evento não decide entre eles.

Como sabemos

Os fatos centrais (definição, campo inferido, surto de 28 de abril de 2020, coincidência com raios X) têm trecho literal nos artigos originais e na revisão; energias e modelos de emissão aparecem como estimativas e hipóteses.

Em debate: O surto de 2020 sustenta que magnetares ativos podem produzir FRBs, mas o artigo do CHIME considera improvável que magnetares como SGR 1935+2154 expliquem os FRBs mais prolíficos e mais energéticos. O post não entra no debate sobre a população extragaláctica.

Fontes

  1. Annual Review of Astronomy and Astrophysics — Magnetars
    Kaspi, V. M.; Beloborodov, A. M. · 2017 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1146/annurev-astro-081915-023329
  2. Nature — A bright millisecond-duration radio burst from a Galactic magnetar
    The CHIME/FRB Collaboration (Andersen, B. C. et al.) · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41586-020-2863-y
  3. Nature — A fast radio burst associated with a Galactic magnetar
    Bochenek, C. D.; Ravi, V.; Belov, K. V.; Hallinan, G.; Kocz, J.; Kulkarni, S. R.; McKenna, D. L. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41586-020-2872-x
  4. Living Reviews in Relativity — Binary and Millisecond Pulsars
    Lorimer, D. R. · 2008 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.12942/lrr-2008-8
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 14; conferência de trechos automatizada)

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